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11 de Abril de 2014 - 06:00

Moraes Moreira e Davi Moraes apresentam, na cidade, a turnê comemorativa dos 40 anos do álbum 'Acabou chorare' , dos Novos Baianos

Por JÚLIA PESSÔA

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Moraes Moreira e o filho Davi mantêm, no show, arranjos originais do disco de 1972
Moraes Moreira e o filho Davi mantêm, no show, arranjos originais do disco de 1972

De tempos em tempos, o destino, a sorte ou as afinidades promovem grandes encontros que mudam o curso da música e da cultura de um país - não raramente extrapolando as fronteiras nacionais. Por aqui, tais reuniões renderam verdadeiras obras-primas, como "Clube da Esquina", do grupo homônimo mineiro que tem Milton Nascimento, Beto Guedes e Lô Borges entre os integrantes, "Panis et circenses", dos Mutantes, e entre tantos outros "Acabou chorare", dos Novos Baianos, que completou 40 anos em 2012.

Em comemoração ao marco, ninguém menos que Moraes Moreira - um dos cabeças do grupo, que tinha, ainda, Pepeu Gomes, Baby do Brasil (na época, Consuelo), Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, entre muitos outros integrantes - vem a Juiz de Fora nesta sexta, acompanhado do filho Davi Moraes, também músico, que conta como a turnê começou. "Foram os fãs da banda que fizeram acontecer. Fizemos um show com esse repertório em São Paulo, em plena Avenida Augusta, coração da noite de lá, com quase mil pessoas do lado de fora da casa noturna querendo entrar, e lá dentro, com uma rapaziada cantando tudo! A resposta tem sido incrível, e isso mostra a força desse disco 40 anos depois", diz Davi, filho e parceiro de Moraes Moreira.

Para Moraes Moreira, que assina muitas das composições do álbum celebrado, eleito pela revista "Rolling Stone" o primeiro dos cem melhores da música brasileira, o grande trunfo de "Acabou chorare" está em sua atemporalidade. "Até hoje, ele comunica às novas gerações um passado que não passou, que continua vivo e não soa datado", observa o artista em entrevista à Tribuna.

De fato, a irreverência das letras e a ousadia dos arranjos que mesclam guitarra elétrica, baixo e bateria - considerados coisas "de fora" até então - com elementos essencialmente nacionais como cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô, fizeram de "Acabou chorare" uma nesga de alegria em meio à sisudez das canções de protesto e engajamento social que pipocavam nos idos de 1970. "Era a nossa arma, queríamos levantar o astral, a autoestima da nossa gente. Estávamos a fim de fazer algo novo, que contasse aquele momento que vivíamos de forma tão intensa. Nossa maior preocupação era compor, tocar, cantar, fazer um trabalho sem fronteira, brasileiríssimo e ao mesmo tempo universal", conta Moraes Moreira.

 

 

Atravessando gerações

Reafirmando o destino dos filhos de peixe, Davi Moraes também reconhece o pioneirismo do disco, o segundo do grupo de seu pai, destacando que a descontração dos integrantes talvez tenha sido um dos segredos de sua sofisticação musical. "Se existia alguma briga do samba e do choro com o rock, eles não tomavam o menor conhecimento. Pelo contrário, davam risada e misturavam tudo com a maior naturalidade do mundo e com uma garra e fé muito forte num Brasil lá na frente", opina o músico, que vê em si próprio muitas influências dos Novos Baianos.

"Acompanho a parceria fortíssima de meu pai com Pepeu desde muito pequeno. Fui crescendo e percebendo o grande legado do grupo para a minha geração de músicos. Sou louco por tudo que fizeram. Até citando uma parte da música 'Meninas do Brasil, 'pela graça da mistura'", diz Davi, cuja lembrança mais nítida do álbum que vem ajudando a celebrar é um especial exibido pela Rede Globo em 1983, ocasião em que Moraes Moreira reuniu todos os outros integrantes em sua casa para assisti-lo.

Prova da implacabilidade de "Acabou chorare" está no fato de o disco reunir muitos dos clássicos dos Novos Baianos, como a faixa homônima, que tem influências do balbuciar musical de João Gilberto; "Preta pretinha", imortalizada nos versos "eu ia lhe chamaaaaar/ enquanto corria a barca"; "Tinindo e trincando" e "A menina dança", deliciosamente embaladas na voz de Baby; e, entre outras, "Brasil pandeiro", única faixa não autoral do disco, assinada por Assis Valente, que se tornou uma exaltação ao país na voz do grupo. "João Gilberto nos apresentou a esta música, e entendemos imediatamente que ela seria o nosso manifesto. Adoro cantá-la e sou fã de Assis Valente", relembra Moraes Moreira.

Junto a estas canções, celebradas nesta noite, também está a bela "Mistério do planeta", a favorita de Davi Moraes no álbum quarentão, "porque mostra na letra, na música e no arranjo a assinatura Novos Baianos". Os fãs da banda de Moraes e Pepeu podem ficar tranquilos: o show promete um pequeno revival do som dos baianos, com arranjos originais do disco de 1972. "Se acrescentamos alguma coisa, não fere a identidade da banda, são arranjos que foram sendo incorporados nas apresentações do próprio grupo ao longo dos anos", garante Moraes Moreira.

 

 

'Fonte em que sempre volto para beber'

Além de um divisor de águas na MPB, o segundo disco dos Novos Baianos é também, para Moraes Moreira, uma espécie de oráculo, como ele próprio afirma. "Qualquer dúvida, eu corro para consultá-lo, é a minha fonte em que sempre volto para beber", diz ele. "Ali tem muita coisa: um violão único, uma cantora incrível, um poeta que quebrava regras, um dos maiores guitarristas do Brasil e uma liberdade musical radiante", reitera Davi Moraes.

"Avoando sem nunca mais parar", como prevê outro verso de "Preta pretinha" , a dupla dos Moraes prepara um disco conjunto, e Davi também segue com sua turnê solo, o projeto instrumental "Trio elétrico", em parceria com Domênico Lancelotti e Alberto Continentino, e também viaja com o show do último disco de samba de Maria Rita, do qual participou da gravação.

Ao resgatar as memórias da época dos Novos Baianos, em que os integrantes todos e suas famílias viviam de forma quase anárquica em pleno regime militar no alugado "Sítio do vovô", em Jacarepaguá, Moraes Moreira mescla música e futebol, dobradinha tão querida pela banda que chegou a batizar um disco, "Novos Baianos FC". "A vida era um ensaio, era um show, o resto do tempo era compor, jogar futebol e dar risada. Éramos um time entrosado, em que todos jogavam fazendo a sua parte, fortalecendo o todo. Usando esta tática, fizemos gols inesquecíveis."

Provando sua veracidade ao dizer que reconhece em si a mesmo a essência que possuía naquele tempo, o artista termina a entrevista com a mesma irreverência da época das tardes de pelada e parcerias musicais, fazendo referência a outra faixa do disco que homenageia hoje: "Besta é tu! Brincadeira, um abraço."

 

MORAES MOREIRA E DAVI MORAES

 

Hoje. Abertura da casa às 23h

 

Cultural Bar

(Av. Deusdedit Salgado 3955)

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