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03 de Dezembro de 2013 - 07:00

Profissionais e pesquisadores se organizam para a criação da graduação em dança na UFJF

Por MAURO MORAIS

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Para uma cidade que, historicamente, viu seus palcos passarem por importantes transformações, sempre espelhando-se na vanguarda nacional, apostar em formação universitária é um caminho natural. Contudo, as artes cênicas, área que engloba teatro, dança e circo, ainda não consta na lista de cursos oferecidos pela UFJF. Moda, cinema, música e artes visuais já possuem formação universitária na cidade, e a Faculdade Machado Sobrinho oferece o curso de produção cênica.

Com participação de professores de outras instituições, estudantes, pesquisadores e profissionais locais, o fórum "Diálogos em dança", realizado pelo Departamento de Ginástica e Arte Corporal da Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid) da UFJF na semana passada, discutiu a viabilidade, as necessidades e o impacto do curso em Juiz de Fora. De acordo com a professora da Faefid Alice Mayer, uma proposta já foi levada à Pró-reitoria de Graduação da universidade, que solicitou um fluxograma curricular para apontar demandas no setor de infraestrutura e recursos humanos. "A cidade é muito rica em dança, temos muitas produções de qualidade, mas as ações são extremamente isoladas. Isso acaba gerando um saldo que é muito inferior, qualitativamente falando, por não ter uma organização coletiva", reflete Alice.

Segundo o pró-reitor de Graduação da UFJF Eduardo Magrone, a criação de uma graduação em dança depende do Governo federal, que analisa diversos pontos, entre eles a demanda para aprovar a concepção. "Possibilidades existem. Pelo que conversei com a Alice, acho a proposta interessante", diz, pontuando que aguarda um estudo para iniciar as discussões e negociações.

Organizados na Comissão Municipal de Dança, constituída em setembro de 2012, artistas e pesquisadores se mobilizam pela criação de um curso específico na área. "A comissão nasceu no seio do Conselho Municipal de Cultura (Concult) com a preocupação de organizar politicamente a classe da dança na cidade, que tem uma demanda muito reprimida", aponta Alice, uma das fundadoras do grupo.

Segundo a acadêmica e estudiosa, já foram feitas diversas tentativas no sentido de propiciar a formação universitária em dança na UFJF. Há alguns anos, conversas foram iniciadas entre as faculdades de educação física e comunicação social, além do Departamento de Artes e Design (ainda não existia o Instituto de Artes e Design, o IAD) para a criação de uma graduação em artes cênicas. Recentemente foi pensado um curso específico em dança, mas nada vingou. "Não conseguimos efetivar nenhuma dessas tentativas por diversas razões, prioritariamente por ordem política que são próprias do meio acadêmico e das relações humanas", comenta Alice.

"O diferencial que uma graduação traz é o ambiente propício à pesquisa, e isso modifica um cenário. Na prática diária, no mercado, focar em pesquisa é sempre muito difícil", pontua Letícia Nabuco, artista graduada em dança pela Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, e pós-graduada pela mesma instituição. "Nossa classe está sedenta por mudança, por mais pesquisas, mais visibilidade", completa ela, que em 2006 fundou o Diversão & Arte, um dos espaços dedicados à expressão na cidade. Para Alice, a mobilização tem tomado vulto até mesmo no Concult, que já pensa em uma cadeira própria para a dança. O terreno, dessa forma, parece fértil. Basta, então, saber sobre os vínculos desse curso porvir.

Autora da primeira sistematização da dança dentro de uma universidade, a bailarina Helenita Sá Earp foi uma das responsáveis por inserir a disciplina de "metodologia das atividades rítmicas e expressivas" no currículo do curso de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Porém, as possibilidades e os estudos também indicam outros ângulos, como relação da dança com um curso de artes. "Vejo uma total possibilidade de parceria da Educação Física com o IAD e convergência dos diálogos pela emancipação da dança como área de conhecimento e de intervenção social. A formação artística se dá na vida, na lida, o grande papel da universidade é capacitar e instrumentalizar as pessoas para que elas, no uso do conhecimento historicamente construído, possam ter condições de criar novos saberes", comenta Alice, indicando a abertura para diálogos do IAD, que no fórum foi representado pelo professor João Queiroz, um dos idealizadores da pós-graduação "Dança, intermidialidade e tecnologia", com inscrições abertas em janeiro para a formação da primeira turma de alunos.

 

 

 

Pensar o corpo no interior

Primeira graduação em dança de Minas Gerais, o curso da Universidade Federal de Viçosa (UFV) foi o 15º no Brasil. Além de ser algo novo em uma cidade interiorana, com menos de 80 mil habitantes, a oportunidade de formação também se fez original para uma instituição predominantemente agrícola. Iniciado em 2002, o curso já conta com talentos em seu histórico, tendo exportado bailarinos para a Cia. Lia Rodrigues, a Cia. Primeiro Ato e outros grupos de prestígio, além de formar pesquisadores que hoje atuam em universidades federais ao redor do Brasil. "Com a criação do curso, houve uma mudança na percepção do que é uma universidade, que deve abrigar todas as áreas. Em termos de país, também conseguimos mostrar que precisamos tirar a arte e a cultura dos grandes centros, levar para o interior, aumentando esse vaivém. Viçosa pode ser um polo", afirma Alba Vieira, uma das docentes do curso na UFV.

"Um curso de artes em uma universidade não é só sobre a arte em si, sobre a composição, porque, assim, um conservatório já daria conta por si só. A universidade é a formação do profissional de uma forma mais ampla, uma pessoa que terá conhecimentos mínimos em antropologia, história, filosofia, biologia, pedagogia, enfim, poderá dialogar com outras áreas de conhecimento e não estará fechada no próprio umbigo da arte", reflete Alba, apontando que, em Viçosa, o aluno pode licenciar-se ou bacharelar-se na área. O bacharel, de acordo com a professora, é acima de tudo um pesquisador, com características de um intérprete (o bailarino) ou de um coreógrafo. "A dança pode e deve ter estudo sistematizado para chegar a uma composição", defende Alba, negando o imaginário de que os gestos surgem instintivamente.

Se hoje a possibilidade de um curso de dança é cogitada, o mesmo não ocorre com o teatro. De acordo com Márcia Falabella, diretora do Forum da Cultura e professora da Faculdade de Comunicação da UFJF, o professor e diretor teatral José Luiz Ribeiro chegou a fazer um estudo para a criação da graduação em teatro na universidade, mas não houve êxito. Em 2011, a universidade deu início ao curso, em nível de pós-graduação, "Especialização em comunicação em arte do ator", que ainda não teve outra turma devido às dificuldades enfrentadas pela primeira experiência. "O curso não foi para frente. O número da turma ficou aquém do que esperávamos. O curso não se pagou", afirma Márcia, apontando para o desafio em se pensar na pós já que não existe a graduação.

"Acho que não tem demanda. Como não temos um mercado profissional aqui em Juiz de Fora, as pessoas acabam saindo da cidade. Temos teatro aqui, mas não sei se há quem sobreviva apenas disso", comenta a professora, para logo completar: "Desconheço, no quadro da universidade, alguém com graduação ou pós-graduação em teatro. Adoraria que tivéssemos o curso, mas na minha opinião acho bastante difícil". Contudo, a graduação em dança pode acabar gerando o interesse em explorar o teatro.

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