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27 de Março de 2014 - 06:00

Em tempos de biografias censuradas, qual a importância de conhecer a vida de um artista plástico para apreciar seus trabalhos?

Por MAURO MORAIS

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Biografia descortina vida de Lucian Freud, homem controverso e artista revolucionário
Biografia descortina vida de Lucian Freud, homem controverso e artista revolucionário

"Retrato do cão", a última pintura do alemão Lucian Freud, apresenta, ao centro e em destaque, o assistente do artista, David Dawson, nu, ao lado do animal que dá nome ao quadro, produzido em 2011. Neto do criador da psicanálise, Sigmund Freud, Lucian tornou-se reconhecido por revolucionar a nudez na pintura, com seus retratos considerados por alguns críticos como "excessivamente reais". De temperamento controverso, Lucian sempre foi avesso a entrevistas e nunca permitiu que descortinassem sua intimidade. Insistente, o jornalista britânico Geordie Greig tentou, durante 20 anos, conversar com o autor de "Homem nu com rato", obra que o impactou durante sua juventude. A primeira resposta do artista a um pedido de entrevista foi um tanto quanto inusitada. "A ideia de lhe conceder uma entrevista me causa náuseas", disse Lucian. Lançado após sua morte, ocorrida em 2011, e relatando um percurso das náuseas até a amizade profunda, "Café com Lucian Freud: Um retrato do artista" (Record, 307 páginas) revela novas nuances da obra que é avaliada como uma das mais relevantes do século XX.

"A sombra da morte e da fuga fez com que Lucian ansiasse por uma vida mais plena na Inglaterra, atropelando a moralidade convencional, sem dar importância a qualquer adversário. Sua corrida tinha como objetivo deixar uma marca permanente, e a pintura era o centro obsessivo de sua vida", conta a biografia, justificando a ida do artista para a Inglaterra fugindo do nazismo que vitimou um de seus primos. A resistência ao figurativo, enquanto o expressionismo e o abstracionismo ganhavam mais e mais espaço, é apresentada como raiz na vida do artista. Lucian era um homem firme e essa característica lhe valeu muitas inimizades no campo pessoal e no circuito das artes. "A privacidade entre as pilhas de trapos nessa caverna pictórica de Aladim era de uma importância digna de paranoia, assim como sua determinação de só fazer o que queria. Lucian era obstinado", conta Greig, o homem que vivenciou os míticos cafés da manhã que o artista tomava sempre no mesmo horário, em um restaurante de classe alta entre o chique e o desleixado.

Casado por duas vezes, tendo assumido a paternidade de 14 filhos, com a possibilidade de ter tido ao menos outros 14, Lucian acreditava na liberdade sexual, que estampava suas telas e era vivenciada de maneira substantiva em seu ateliê. Contudo, isso em nada tinha a ver com o avô, que estava presente de outra maneira em seu cotidiano. "A vida de Lucian apresenta uma ligação indestrutível com a de seu avô, de cuja atitude brincalhona e estimulante ele tinha lembranças felizes. De modo semelhante ao de Sigmund, a atividade de Lucian consistia em fazer com que pessoas se sentassem em camas ou sofás e revelassem muito mais do que talvez pretendessem revelar", analisa Greig em seu livro, contando que a admiração maior do artista pelo avô médico se devia ao fato de Sigmund ter sido o primeiro a diferenciar o sexo das enguias."Café com Lucian Freud" joga luzes sobre um criador coerente, cuja vida guarda a mesma distinção de sua obra.

Enquanto alguns especialistas defendem a relevância das biografias no processo histórico e artístico, como o francês François Dosse, que em seu livro "O desafio biográfico: escrever uma vida" analisa a questão como procedimento de pesquisa, o tema ainda é alvo de discussões por, muitas vezes, resvalar em intimidades gratuitas. Apresentado em 2011, pelo deputado federal Newton Lima (PT-SP), o projeto de lei 393, que altera o artigo 20 do Código Civil, garantindo a divulgação de imagens e informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública sem prévia autorização, esteve no centro de grande celeuma em 2013, mas ainda não foi votada na Câmara dos Deputados e nem no Supremo Tribunal Federal, como estava previsto, mesmo já tendo sido aprovado pelas comissões permanentes.


'Faz sentido quando o artista não é contraditório'


Ainda que existam artistas como o britânico Damien Hirst (aquele do tubarão imerso em formol), que aparece com frequência nas revistas voltadas ao show business, não são muitos os exemplos de autores que se envolvem no universo das celebridades. Os vernissages parecem ser o único palco desses sujeitos, que logo se voltam à solidão dos ateliers. No mercado literário, as biografias se voltam muito mais aos cantores e atores, e menos aos artistas visuais, que preferem publicar catálogos raisonnés, os quais se dedicam a explanar a produção e reservam poucas linhas à trajetória pessoal. Mas seria mesmo relevante apreender a biografia de um artista para fruir seu trabalho? Para a marchand Juliana Freire, da galeria paulista Emma Thomas, existe uma importância na aproximação entre artista e público. "Acredito que hoje, diferente de outros momentos, o artista é mais importante vivo que morto. Ele é o próprio propagador da mensagem. Antigamente isso ficava nas mãos dos mecenas, da igreja, de outros órgãos, e o artista acabava ficando distante do público final. Com a internet e com as mídias sociais, o público em geral, não só o colecionador, mas o apreciador de arte, tem um contato direto com o artista, procura ser amigo no Facebook ou mandar e-mail".

Contendo pistas sobre a própria vida do autor, as obras do artista guaraniense radicado em Juiz de Fora Paulo Alvarez não carecem de uma biografia para serem compreendidas, mas ganham uma nova dimensão quando as raízes de suas referências são identificadas (como seu interesse pela religiosidade, pelos bordados característicos do interior mineiro, a narrativa familiar e a reverência à mãe, entre outras memórias afetivas). Para ele, não é estanque, mas algumas obras de arte crescem em interpretações quando se conhece precedentes que levaram à criação. "Não necessariamente a biografia é importante. Não é uma via de regra que ela contribui para a compreensão da obra. No meu trabalho, considero que há uma leve sugestão à minha vida e não é imprescindível me conhecer. A arte é isso, a pista. Quem está ligado a mim logo percebe algumas referências, entende um dialeto, mas isso não faz muita diferença", diz, apontando para os trabalhos do artista Leonilson, nascido em Fortaleza e radicado em São Paulo, onde morreu em 1993, e cuja intimidade está oculta em toda a sua produção com ênfase nos bordados quase confessionais.

"Trabalhamos com artistas que admiramos não só a pesquisa, a carreira, mas enquanto ser humano. Para nós faz muito sentido quando o artista não é contraditório. Cada um tem uma verdade e ela deve estar no trabalho, que pode ser a própria incoerência, mas quando há um diálogo entre vida e obra isso é muito melhor. É muito mais acessível para o público entender um trabalho, às vezes, pelo viés da história do artista", defende Juliana, que representa o mineiro de Itajubá Gui Mohallem, que investiga o pertencimento, a solidão e torna-se mais palatável na medida em que tem sua figura (homossexual de origem libanesa, vivendo no interior do Brasil) colada ao discurso artístico. Ícone da música brasileira, o ex-mutante Arnaldo Dias Baptista é outro artista da galeria Emma Thomas. Suas pinturas e seus desenhos, começaram a surgir em 1982, quando ele se recuperava de um acidente. Coloridos e fantásticos, os trabalhos existem com força mesmo quando se desconhece o autor, mas ganham contornos de genialidade ao perceber a coerência entre o universo das imagens e a revolução estética proposta pela banda surgida nos anos 1960. "A biografia do artista valoriza a obra. Isso não quer dizer que ele precisa ser um herói, estar em extremos, mas a questão é se coerente. Se ele faz alguma crítica e não vive de acordo com isso, acaba gerando um ruído", avalia a galerista Juliana Freire.

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