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21 de Dezembro de 2013 - 07:00

Precursor do modernismo, pintor, historiador e crítico de arte Reis Júnior tem sua carreira revisitada a partir de retrato de Murilo Mendes restaurado em Juiz de Fora

Por MAURO MORAIS

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Pintura de 1923 é o mais antigo retrato do poeta no acervo do Mamm
Pintura de 1923 é o mais antigo retrato do poeta no acervo do Mamm

Aos amantes das artes: cuidado. A exposição "O artista, o poeta, o retrato" reserva imagens chocantes. Inaugurada na última terça e em cartaz até 9 de março do próximo ano no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), a mostra reúne fotografias do processo de restauração do retrato do poeta juiz-forano Murilo Mendes, pintado pelo uberabense Reis Júnior. Nos registros, cupins se escondem no chassi do quadro de 1923, medindo pouco mais de 35cmx50cm. Adquirida recentemente pelo museu, a obra serve como ponto de partida para a revisão da vida e da carreira de um nome relevante para a arte moderna brasileira, mas obscurecido pelo tempo. De acordo com o curador Paulo Alvarez, este é um dos retratos mais antigos do poeta pertencente ao museu e chegou à instituição por intermédio de um colecionador, que foi amigo do artista e ofereceu o quadro à universidade.

Nascido em 5 de abril de 1903, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, José Maria dos Reis Júnior não ganhou a posteridade aos olhos do grande público, mas perpassa a trajetória de nomes reconhecidos nas artes plásticas do país, como o do amigo Oswaldo Goeldi. Pintor e vitralista, ele influenciou diversos artistas de sua geração. Sua paleta suave porém contrastante e suas paisagens descontraídas, que reduzem as formas conferindo leveza às imagens, revelam um artista com raro domínio da técnica e consciente de sua liberdade de expressão. "Ele tem uma preferência pelo retato, apesar de fazer paisagens e pintar outros temas. A pintura dele é muito relevante, a influência do período europeu lhe possibilitou uma linguagem muito própria. Como desenhista, ele também é especial, com referências ao modernismo de uma forma bem sutil, trazendo a liberdade formal e cromática", comenta Alvarez.

Formado em desenho e pintura pela Escola Nacional de Belas Artes, o mineiro que se transferiu para o Rio de Janeiro na virada dos anos 1910 para 1920 adquiriu tão grande conhecimento que sua permanência se deve ao fato de ter sido historiador, professor e crítico de arte. "Talvez por ter ido para essa vertente do pensamento, ele acabou se apagando um pouco como artista, embora seu trabalho esteja presente em muitos murais decorativos, muitos deles em Minas Gerais", afirma o curador. Precocemente, Reis Júnior realizou sua primeira exposição individual em 1923, aos 20 anos, no Palace Hotel, na então capital nacional. A reunião de obras do pintor já demonstrava certo desejo por um distanciamento da academia.

Na pintura em que retrata o escritor juiz-forano, o artista lança mão de formas simplificadas e cores em contraste. Sobre um fundo próximo ao ocre, Murilo aparece de terno, com as mãos sobre uma haste de madeira. Para criar zonas de luz e sombra no rosto do autor de "A idade do serrote", Reis Júnior adotou paleta com tons pastéis, mas também com azul. "Ele retrata o clima de Murilo Mendes. Um detalhe importante é a mão, a gestualidade, sugerindo um objeto que poderia ser uma bengala ou até mesmo um guarda-chuva", explica Alvarez, apontando para o que seria uma referência à história de quando o poeta resolveu abrir um guarda-chuva na plateia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, expondo sua insatisfação com o espetáculo que assistia.


Um amigo, um legado


Entre sua Uberaba natal e a capital fluminense, Reis Júnior começou a se aproximar dos intelectuais e artistas ligados à Semana de Arte Moderna, que teve reflexos em Minas Gerais. Anos depois, ainda jovem, logo após se apresentar à sociedade como pintor profissional, ele ganhou uma bolsa de estudos do governo mineiro e foi estudar em Paris, onde conheceu a pós-impressionista Suzanne Valadon e o fauvista Albert Marquet, além de outros nomes da vanguarda, como André Dunoyer de Segonzac. De volta ao país, em 1935, trouxe na bagagem o olhar de pesquisador, escrevendo "História da pintura no Brasil", obra fundamental para a compreensão da expressão nacional. Professor do Instituto de Belas Artes e das Faculdades Integradas Bennet, o pintor também se dedicou aos estudos de artistas brasileiros, como Goeldi.

Amigo pessoal de Reis Júnior e sua esposa, o gravurista carioca, ao morrer, deixou em testamento sua produção aos cuidados do casal. "A minha obra artística ficará toda com Beatrix Reynal, que cuidará da sua colocação em museus nacionais ou estrangeiros, ou disporá dela como melhor entender", escreveu Goeldi. Após imprimir diversas gravuras em grandes tiragens, o casal doou todo o legado para o Museu Nacional de Belas Artes e para a Biblioteca Nacional. "Essa relação de amizade foi muito importante e imprescindível para a continuação e divulgação da obra de Goeldi", avalia Paulo Alvarez, ressaltando que na exposição "Oswaldo Goeldi - Soturno caminhante", que esteve em cartaz no Espaço Cultural Correios no último mês, haviam algumas imagens assinadas por Beatrix e seu marido.

Se seu nome não ganhou popularidade, o mesmo não se pode dizer de seu trabalho. Nas variadas direções que tomou, Reis Júnior criou obras maiores que sua assinatura. Sua pintura aponta para o modernismo sem dele fazer parte integralmente. O fato de não pertencer a uma corrente lhe deu uma rara oportunidade de ser original. Segundo o historiador da arte José Roberto Teixeira Leite, parceiro do artista em diversos momentos, a produção do uberabense merece um reexame crítico, capaz de ressaltar o valor de suas obras para o modernismo e o papel que teve na difusão de novas tendências artísticas.

"O ARTISTA, O POETA, O RETRATO"

De terça a sexta, das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 9/03/14

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790)

Galeria de Imagens

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