Um relacionamento físico, vivo. É isso que Paulo Beto, pesquisador e artista juiz-forano, defende no contato com a música. "Não pode ser só esse universo virtual mágico que teoricamente tem tudo. Na realidade, grande parte do que é baixado é muito pouco consumido, ouvido, vivido. Mas é tão fácil baixar..." De volta ao lugar onde nasceu e deu seus primeiros passos na cena da música eletrônica, no final dos anos 1980, o músico lança neste sábado (16) seu novo trabalho, "Anvil machine", resultado da parceria que tem com o também mineiro Pedro Zopelar, o anvil FX.
O álbum será lançado em vinil e CD, tendo o último mais faixas que o primeiro. Ao falar do projeto, entretanto, o artista não esconde o encanto pelos bolachões, dos quais é colecionador. "Quando o CD apareceu, ele era fantástico e tinha muitas vantagens: o tamanho reduzido, um som mais puro... Nos vinis, só o toque da agulha da superfície já proporciona um ruído extra, não planejado pelo artista, e o mesmo acontece com a fita cassete. Só que esta pureza extrema do CD - e também dos formatos digitais - acaba soando cada vez mais artificial", pondera.
Paulo Beto destaca, ainda, que os vinis propiciam uma experiência musical diferenciada, a relação "viva" a que se refere e pela qual preza. "Foi vendida ao artista a ideia de que a internet era livre, mas essa 'nuvem' de arquivos não é capaz de absorver tudo da mesma forma que é capaz de armazenar, seu trabalho não aparece. Fiz muitas coisas em formato digital, e é claro que ele tem seu valor. Mas nenhum jornal que se preze, por exemplo, divulga que 'fulano subiu um arquivo no Soundcloud', mas lançar um álbum dá matéria. Até porque tem todo o processo de produção do disco, o investimento de fazer um produto físico", conta o músico, que teve o LP prensado na República Tcheca, na consagrada GV, que produz, há mais de 60 anos, álbuns de ícones como Beatles e Rolling Stones.
O artista argumenta, ainda, que o consumo da música como arte também é mais rico quando se dá por meio de um suporte físico. "Com o digital, a relação com a música ficou muito pueril, virou uma coisa funcional. 'Vou baixar uma música porque preciso relaxar, vou baixar essa música pra trabalhar.' Não tem aquele momento de o cara comprar o vinil, sentar para ouvir em um aparelho e nas caixas de som que ele pesquisou e comprou, ouvir um lado, ouvir o outro...O vinil é uma atitude, uma valorização do que é concreto", defende ele, que também lançará, ainda este mês, um trabalho em cassete.
Além do produto final, o analógico está presente em todo o processo de criação de Paulo Beto, que usa sintetizadores desta natureza em vez dos digitais. "O som digital é sempre uma simulação. Consegue-se, sim, bons resultados com eles, mas o analógico, ao mesmo tempo que é mais possante e mais puro, agride menos os ouvidos, é uma questão física mesmo, eles produzem um som mais orgânico." Um dos equipamentos usados por Paulo foi feito especialmente para ele pelo também músico Artur July. O nome do aparelho? Anvil Machine.
Para o trabalho lançado neste sábado, Paulo Beto, que também produz trilhas para cinema e publicidade "para viver", buscou inspiração no que é chamado de "library music". "Eram músicas feitas por grandes compositores, como Rogério Duprat, não para entrarem em álbuns comerciais, mas para serem vinhetas de rádio e TV. Elas eram vendidas em LPs que davam às emissoras, automaticamente, o direito sobre as composições. Diversas vinhetas famosas surgiram assim, como a do 'Esporte espetacular."
Em "Anvil machine", Paulo conta que se portou como se fosse um compositor destas músicas. "Elas eram normalmente usadas para expressar emoções. As emissoras procuravam 'uma música alegre', 'uma música de suspense' e outras que ilustrassem seus programas. Pensei nisso para compor este disco, e as faixas têm, cada uma, um clima e uma explicação sobre isso, mas calcado no meu trabalho, na minha identidade."
De volta ao 'laboratório'
Para Paulo Beto, lançar uma nova criação em Juiz de Fora é sempre algo a ser considerado. "Antes fazia isso como um laboratório, para testar shows que faria no Rio e em São Paulo." Desta vez, a vinda é para mostrar aos amigos o resultado de um trabalho que eles mesmos tornaram possíveis, já que "Anvil machine" foi feito com apoio de crowdfunding. "Vim aqui para ter o prazer de entregar em mãos o produto final. Além disso, foi em Juiz de Fora que aprendi a trabalhar com música. Em São Paulo, há tanta informação, tanta coisa acontecendo, que você não precisa se esforçar tanto para se tornar alguém. Tendo começado aqui, tive que me esforçar muito para isso e conseguir que pessoas das grandes cidades tirassem o chapéu para mim, e sou grato por isso."
No evento desta tarde, Paulo também dará uma canja de seu som a quem for na Planet Music. "Será um coquetel musical com vinis incríveis que se relacionam com o que pesquiso sobre síntese analógica, materiais muito bons dos anos 80, quando a tecnologia para se fazer música era essa e só essa", anuncia. Atuando no cenário da música eletrônica há mais de 20 anos, o músico sintetiza a evolução do estilo até os dias de hoje. "A tecnologia é determinante neste contexto. Os anos 90 permitiram que as pessoas passassem a usar o computador para compor, o que permitiu a criação de músicas muito mais complexas estruturalmente em relação os anos 80. A tecnologia muda, reinventa e até cria estilos musicais."
ANVIL MACHINE
Lançamento de disco com discotecagem de Paulo Beto
Sábado (16), às 17h
Planet Music - (Avenida Itamar Franco 1522)



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