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06 de Julho de 2014 - 06:00

Artesãos buscam identidade juiz-forana em seus trabalhos manuais

Por MARISA LOURES

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Marlene Pimentel exibe colcha de fuxicos feita por Cida Morais
Marlene Pimentel exibe colcha de fuxicos feita por Cida Morais
Escultura, de Maurilio Souza
Escultura, de Maurilio Souza

Era fim de tarde, e a médica Elizabeth Miccolis, 62 anos, voltou à loja da Associação de Artesãos de São Mateus para conferir a novidade do dia, hábito que já virou rotina. Nessa quarta-feira, o alvo eram as capas de almofada confeccionadas com retalhos de pano por dona Cida Morais, 72, uma das dez afiliadas que expõem no estabelecimento. Nascida em Niterói, mas moradora de Juiz de Fora, Elizabeth não só decora a casa com as peças, como também as leva para presentear os familiares da região serrana do Rio de Janeiro. Consumidora do artesanato juiz-forano, ela arrisca afirmar que a arte manual de Juiz de Fora não é encontrada em qualquer outro lugar. "Isso aqui tem muito valor agregado. Conseguimos identificar sua origem pelo acabamento. O fuxico e o patchwork daqui são diferentes do que é feito em Teresópolis, por exemplo", opina a médica, avisando que voltaria no dia seguinte para encomendar trabalhos de madeira. O espaço oferece fantoches, brinquedos pedagógicos, arte sacra, colchas, tapetes, abajur e até utensílios feitos com filtros de café usados.

No momento do encontro com a niteroiense, a Tribuna fazia uma visita a alguns espaços de produção artesanal. O motivo era verificar o que tem sido confeccionado aqui na cidade. Não só pessoas já cientes do seu trabalho como artista figuram nas páginas da edição de hoje, mas também talentos ainda a serem reconhecidos, como é o caso das adolescentes participantes do "Meninas artesãs", projeto desenvolvido pela Associação de Apoio Comunitário (Amac). As belas criações surgem de todo lugar. De um galpão da Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires, saem bolsas, caminhos de mesa, pano de prato e outros trabalhos criados por quatro detentas com materiais recicláveis.

"Trabalhos de tecido, como patchwork, têm a ver com o perfil do município, que já teve mais de 12 fábricas de tecido. Temos que resgatar essa área têxtil. Não foi à toa que foi considerada a Manchester Mineira. De repente, a pessoa poderia trabalhar esse artesanato com imagens de Juiz de Fora", sugere Rose Valverde, do Atelier Ponto com Arte (Rua Barão de São Marcelino 124). "Procuramos fazer alguma coisa para que o visitante possa levar um pedacinho daqui", completa Valleria Gouveia, também artista plástica e professora do Ponto com Arte. No ano passado, Valleria capitaneou o projeto de calendário da Funalfa, cujas páginas foram preenchidas pela reprodução, em bordado, de pontos turísticos locais. Para breve, planeja uma releitura de telas de Dnar Rocha e outros juiz-foranos.

 

 

Global e multifacetado

"O artesanato de Juiz de Fora é global. Temos um pouco do que é produzido em várias partes do país. Costumo chamá-lo de multifacetado. Não é como acontece em Piau, onde há a tradição de se trabalhar com fibras de banana", opina Rosângela Costa, membro da diretoria da Associação dos Artesãos de São Mateus. Na visão dela, o fato de a cidade possuir uma única grande fornecedora de tecidos impede que se tenha uma matéria-prima variada. Contudo, ela é otimista. "Quem vem de fora valoriza o nosso jeitinho. Nós conseguimos dar nosso toque pessoal. Assim como falam que o melhor da Copa do Mundo são os brasileiros, talvez o melhor da nossa identidade seja o próprio artesão", completa ela, atuante no ramo do biscuit.

Pequena, magra,gorda, grávida, brava, feliz, deitada, em pé, rosa, lilás. A variedade de formas e cores das bonecas confeccionadas por Marlene Pimentel, 55, atrai a curiosidade de quem transita pela feira de artesanato do Bairro São Mateus, onde todo sábado são erguidas 50 barracas. "Faço uma releitura de outras bonecas", diz Marlene, que aprendeu o ofício sozinha. "Não preciso botar a etiqueta. A pessoa olha e sabe que é minha", completa ela. Recém-chegada de uma viagem a Recife e Fortaleza, a artesã Viviane Gonçalves Motta, 48, é categórica ao defender a produção local. "Em Recife, tem bordados maravilhosos feitos à máquina, mas manual é aqui", diz Viviane. "Certa vez, uma cliente disse que não daria R$ 15 em um pano de prato. Respondi que não vendo pano de prato, vendo a minha pintura. Ela tem a minha personalidade."

Para os artistas da Ponto com Arte, a formação de um circuito de artes em Juiz de Fora, a exemplo do que ocorre em outras localidades, é um sonho antigo. "Em Cunha, São Paulo, o prefeito decidiu que lá seria a capital da cerâmica e incentivou todo mundo a ter terrenos e montar olarias. Esse é um dos caminhos. Se tiver uma meia dúzia de gente interessada, você já começa alguma coisa", acredita o artesão Maurilio Souza.

  

Arte feita atrás das grades

Em Linhares, a beleza nasce atrás das grades. Sob forte esquema de segurança e vestidas de uniformes vermelhos, Maria Regina, 55 anos, a filha Márcia, 26, Maria Luiza, 47, e Claudete Rosa, 40, estão inseridas na oficina de produtos confeccionados com as sobras de duas empresas de persianas. As quatro cumprem pena por tráfico de drogas, e, a cada três dias de labuta, ganham um dia de remição no cumprimento da sentença. A Prefeitura de Juiz de Fora paga um salário mínimo pelo serviço, sendo que 75% são entregues a elas, e 25% direcionados para o custeio do programa. O projeto é desenvolvido pelo Demlurb em parceria com a Secretaria de Estado de Defesa Social. Segundo Victor de Castro Mattos, responsável pelo projeto, a produção é feita por encomenda, e as peças são distribuídas em eventos da Prefeitura. Só no mês de maio, foram produzidas cerca de mil bolsas.

"Elas tiram o lixo, que iria demorar anos para se decompor, e o transforma em arte. Acho muito bacana ver pessoas terem poder de criatividade num lugar onde nunca imaginamos que teria", avalia a diretora geral da penitenciária, Ândrea Valéria Andres Pinto. "Com uma atitude só, a gente abrange várias situações importantes para o convívio social", acrescenta Marlon Martins, diretor geral do Demlurb.

O cenário é de uma fábrica comum composta por máquinas de costuras, mesa para o corte e matéria-prima. Em meio ao barulho, mulheres conversam, riem e trocam ideias sobre o ofício. Como estar antenada às últimas tendências é difícil, as costureiras apelam para a intuição para inovar em suas criações. "Com a produção das bolsas, temos a opção de usar a imaginação. Podemos fazer de vários tamanhos, modelos, e mulher gosta de novidade", comenta Maria Luiza, que é graduada em estética. Antes de ir para a prisão, tinha um salão de beleza em São João Nepomuceno, onde também morava a mãe Maria Regina e o marido, detido em outro pavilhão da Ariosvaldo de Campos Pires. Mãe e filha foram condenadas a nove anos e seis meses e estão no local há mais de um ano.

A especialidade de Maria Regina é a alta costura, atividade realizada há 35 anos. "Sempre gostei de trabalhar com tecido fino, vestido de festa. Cada dia, invento um jeito diferente de fazer", conta a costureira, fazendo planos para o futuro. "Costurar é o meu sonho. Espero que as minhas clientes estejam me esperando", completa ela, que aguarda julgamento do recurso de condenação.

Claudete está presa há cinco anos. Na cidade de Guarani, ela confeccionava roupa íntima feminina. Ela conta que estava presa em Muriaé e pediu transferência para cá, depois de assistir a uma entrevista de Ândrea, que falava sobre o programa. "Eu precisava trabalhar para ter um ganho quando sair daqui. Nunca tinha feito nada de couro. Você olha para este plástico duro e pensa que não vai dar em nada, mas conseguimos fazer coisas lindas." Para a engenheira agrônoma, de Santa Catarina, Maria Luiza, condenada a 24 anos de prisão, a oportunidade alia o benefício da diminuição da pena à preservação do meio ambiente. "Mexemos com lixo reciclável. Estou ajudando o planeta, os meus filhos e os meus netos", acredita Maria Luiza.

 

 

Riqueza artesanal

Professor da UFJF aposentado e doutor em física pela Universidade de Paris XI, Maurilio Souza trocou, há dez anos, a exatidão dos cálculos pela arte e hoje ocupa um dos ambientes do Atelier Ponto com Arte. Com a madeira, ele reproduz as formas sinuosas de um corpo humano. Os preços das peças, segundo ele, variam de R$ 500 a R$ 3 mil, valores que são justificados pelo tempo empregado na criação. Só para esculpir uma peça que hoje está em uma fazenda de Ibitipoca, o artista levou seis meses. As "pernas" da obra insistiam em ficar fechadas. "Demorei conseguir que elas ficassem abertas."

No mesmo espaço, são realizadas oficinas e produção de modelagem em argila. "Na madeira, acertou ou errou. Já a modelagem te dá a sensibilidade. Você vê com as mãos", reflete o artista. De acordo com Rose Valverde, por mês, o ateliê chega a produzir cerca de 200 peças de cerâmica utilitária.

A construção erguida na Rua Barão de São Marcelino parece predestinada a ser referência no trabalho artesanal. Valleria Gouveia e suas alunas se dedicam às técnicas do bordado. Lá, de acordo com a artista plástica, a diversidade de pontos aplicados em uma única peça é a marca da casa. A pensionista Magda Amaral, 59 anos, sabia fazer ponto de cruz quando procurou as aulas do espaço. Porém, com a professora, aprendeu a técnica do bordado livre. "O estilo da Valleria é reconhecido de longe. Se ela fizer dez Câmaras Municipais, nenhuma vai ser igual à outra", observa a professora Heloiza Maria dos Prazeres, 52, também aluna do ateliê. Bolsas, roupas, toalhas e quadros confeccionados seguem as tendências da moda. "As pessoas conseguem identificar até a aluna que fez o trabalho. Cada uma tem o seu jeito", afirma Valleria.

 

Criações de pequenas artistas

Bárbara Leonor Neves, de 19 anos, é uma artista e sabe disso. A adolescente é uma das 58 participantes do projeto "Menina artesã", que tem o objetivo de oferecer oficina de trabalho artesanal, com geração de renda, a garotas a partir dos 14 anos. Das mãos dessas jovens artistas, nascem pulseiras, carteiras, bolsas, porta-óculos, porta-celular, colares, chaveiros e inúmeros outros objetos. "Quando entrei aqui, descobri que tinha talento para bordado. Nunca tinha pegado numa agulha antes", conta Bárbara, já veterana no ofício. Ela ingressou na iniciativa há dois anos, por indicação de uma amiga da escola, e só pretende deixá-la para cursar uma faculdade. Os produtos ficam expostos diariamente na loja montada na Casa da Menina Artesã (Praça Antônio Carlos 371) ou, eventualmente, em feiras.

Peças parecidas com as que são produzidas pelas adolescentes podem até existir aos montes por aí, mas há quem afirme conseguir reconhecer o toque peculiar das criações de longe. "Muitos compram para levar para fora do país", comenta Maria Cláudia Duarte Magalhães, coordenadora do projeto, que completou 14 anos. Ela explica que todas as peças nascem de um retalho, de preferência que tenha algum desenho. A bordadeira vai contornando a figura. Salta aos olhos a habilidade que as artesãs têm para jogar com as cores. Se a garota tiver coragem para arriscar, o trabalho ganha a pompa do ponto de rococó (considerado pelas meninas o mais difícil de ser feito). Os trabalhos ainda são enriquecidos com outras artes, como dobradura e colagens, ou ganham miçangas. "Existe um ranço de as pessoas comprarem artesanato por pena. Por isso, fazemos com qualidade. As pessoas adquirem porque gostam", diz a coordenadora da casa, ressaltando o alcance do trabalho manual ao lugar de destaque no mundo fashion. "Hoje, uma blusa de crochê é muito valorizada. A geração dessas meninas não faz nada de manual, e é isso que queremos resgatar."

A maior parte do valor arrecadado nas vendas (70%) é entregue à responsável pela sua confecção. Os outros 30% são investidos na compra do material, que, muitas vezes, chega por meio de doação. "A gente trabalha com muita dedicação. É como pegar um diamante e lapidá-lo", afirma a professora Rosângela Delgado Dias. "Menina artesã" desde fevereiro deste ano, Brenda Gabriele Faria da Silva, 16, ainda se espanta com a descoberta de que é capaz de criar com as mãos. "É legal ver que faço uma obra com um simples pedaço de pano. Todo dia, aprendemos coisas diferentes", conta a menina.

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