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21 de Fevereiro de 2013 - 07:00

Roteirista da Rede Globo e aposta de editora paulista, Gueminho Bernardes lança livro baseado em espetáculo

Por MAURO MORAIS

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Gueminho Bernardes: "Quando enfraqueço alguns dogmas o que quero dizer é: pense melhor!"
Gueminho Bernardes: "Quando enfraqueço alguns dogmas o que quero dizer é: pense melhor!"

Logo nas "Preliminares" - sim, esse é o título do prólogo!- já se encontra a tônica de "Como fracassar na vida e ser infeliz no amor": "O seu sucesso e a sua felicidade dependem mais da sua inteligência e do seu trabalho do que de frases feitas de certos livros". Primeiro produto literário do humorista Gueminho Bernardes, o livro, que será lançado nesta quinta, às 18h, na Livraria Leitura, chega ao mercado com uma tiragem de dois mil exemplares, volume considerado alto, quando confrontado com veteranos da literatura brasileira, que chegam às prateleiras em números inferiores a três mil.

Criada em formato de lista - os dez passos de como fracassar na vida e os três passos para ser infeliz no amor -, a obra ironiza o gênero autoajuda, lançando mão de uma capa bastante semelhante aos títulos cujo cerne são as orientações para uma vida melhor. "A ideia partiu da minha indignação com essa categoria, dominante nas livrarias, que vende uma receita de bolo", explica o autor, que, por uma estratégia de mercado, deverá incluir o título na prateleira que critica. "Vamos inserir uma maçã envenenada numa estante de maçãs boas", brinca.

Veterano na arte de fazer rir, Gueminho Bernardes iniciou sua carreira em 1977. Dois anos depois, fundou o Teatro de Quintal, o TQ, grupo com o qual já montou mais de três dezenas de espetáculos. Influenciada pelo Teatro de Rua de Amir Haddad, a companhia se consolidou na cena local e deu ao ator, diretor, dramaturgo e roteirista o timing para a solidão nos palcos. "O teatro de rua te coloca em total desproteção, você tem que saber lidar com todos os tipos de interferências. Você é um ator vivo, que pensa e se constrói naquele momento", reflete.

Em turnê com o espetáculo homônimo, que na agenda prevê passagens pelo interior de São Paulo, Manaus e Brasília, o humorista ainda faz parte de outra produção. Ele divide a cena com o ator Gustavo Mendes na peça "Ponto GG", que já tem confirmados todos os destinos para esse ano. Impulsionado por seu trabalho como roteirista da extinta atração global "Casseta e planeta", Gueminho é contratado do canal e, atualmente, integra a equipe que redige textos para o humorístico "Zorra total", para o qual Mendes também foi chamado. "Somos uma moeda em duas faces", graceja ele, que ganhou o Brasil ao escrever as cenas da Dilma, interpretada pelo amigo.

A primeira dica de Gueminho para um fracasso bem sucedido é assistir palestras motivacionais, depois, ler livros de autoajuda, fazer o que gosta, ser criativo, perder tempo, entre outras ações facilmente identificadas no cotidiano. Já o caminho para ter uma frustrada relação amorosa é mais curto e inclui apenas encontrar a pessoa errada, ignorar as diferenças e casar. Dando relevo aos envolvimentos sexuais, que, segundo ele, dão peso ao convívio de um casal, o humorista parece se render ao conselho sério: "A relação entre homens e mulheres é muito difícil porque as pessoas não entendem que há diferenças. A pessoa esconde o que realmente é e tende a mostrar o que deseja que seja visto".

Experiente na prática de despertar o riso da plateia através de uma realidade incômoda, Gueminho também se diz entendido no assunto com o qual trabalha. "Eu tenho uma experiência de fracasso impressionante. Larguei os cursos de medicina e filosofia e passei por três casamentos", responde, ao ser questionado sobre seu domínio no assunto. "Não é autobiográfico, mas defendo tudo que escrevi por experiência própria", diz. E se para alguns, as experiências beiram o absurdo, ele logo adverte que tudo resulta de uma opinião. "É um show em que divulgo o meu ponto de vista", afirma, destacando que não se trata de uma posição indiscutível. "A intenção maior é estimular a capacidade crítica. Quando enfraqueço alguns dogmas o que quero dizer é: pense melhor!", explica.

Apesar de desaprovar a literatura que se destina a discutir os desafios da vida, Gueminho já se rendeu às ajudas "mágicas" e até leu "O segredo", best-seller que ganha quase um capítulo inteiro em "Como fracassar...", no qual desconstrói a ideia de que, bem na verdade, se o tal conteúdo sigiloso foi amplamente lido, não é mais nenhuma novidade. "Cheguei a frequentar cartomante. Já tive um momento de enfraquecimento da autoestima", conta, aos risos, dizendo que o próprio título da obra "foi um presente do universo".

Leve e fluido, o livro que acaba de sair do forno carrega em suas 163 páginas um convite para a descontração, para levar a vida com menos seriedade. "Vamos parar de achar que é tudo verdade. Vamos parar de levar tudo a sério", comenta, certo de que a editora Giostri, especializada em teatro, também percebeu a originalidade de um texto que não se deseja piada fácil, mas ironia fina. "Com certeza tem alguma coisa séria nisso tudo", blefa. Vislumbrando uma nova incursão no território dos livros, ele aposta na história de "O camarim", que lhe rendeu o 2° lugar no Grande Prêmio Minas de Dramaturgia de 2008.

Reivindicando, também, o papel de polemista, feito por meio de suas ácidas piadas veiculadas em seus espetáculos ou na internet, Gueminho reserva espaço para Juiz de Fora em seu "Como fracassar...". Segundo ele, a cidade "é um antigo cemitério de burros", lugar bom para testar um produto. Se num primeiro momento o texto parece pejorativo demais, o autor se explica: "Quando eu falo coisas de Juiz de Fora não me considero inimigo da cidade, mas sim um médico, um amigo. Juiz de Fora precisa voltar a se entender, retomar sua identidade". Segundo o humorista, "todo mundo que sai daqui, sai com uma força extra", elemento principal em sua trajetória de muitos voos.

 

"Como fracassar na vida e ser infeliz no amor"

Lançamento hoje, às 18h

Livraria Leitura (Avenida Rio Branco 2.161, Centro)

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