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25 de Abril de 2014 - 06:00

Nova exposição de Nina Mello dialoga com a beleza do envelhecer

Por RENATA DELAGE

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Obras exploram as cores na fotografia e a diversidade de suportes
Obras exploram as cores na fotografia e a diversidade de suportes
Fotógrafa assina primeira exposição individual e inédita após 15 anos
Fotógrafa assina primeira exposição individual e inédita após 15 anos

Com o surgimento da vida, nasce também a certeza da morte. Mais uma vez são as flores que suscitam reflexões e instigam o olhar da fotógrafa Nina Mello. Após 15 anos, a artista apresenta ao público exposição individual "Senescência", na qual extrai a beleza do momento do definhamento das flores. Maturidade, transição, vida, morte, existência. Momentos e conceitos cotidianos - bem como complexos - permeiam a mostra, que reúne 24 obras inéditas no Espaço Manufato e tem curadoria de Sandra Sato.

Também tema de seu primeiro trabalho, as flores agora são representadas em cores e já não importa quais são os nomes de suas espécies. A artista marca, com o projeto, um momento criativo voltado às mudanças e ao amadurecimento artístico e fotográfico. "Meu entendimento hoje do que é a fotografia é muito diferente", dispara.

A transição do preto e branco para o colorido, do analógico para o digital, do rigor técnico para o espaço que pode abranger novas vertentes, experimentações. "A técnica deve ser usada a favor da expressão", avalia Nina, refletindo sobre uma mostra "impregnada de significados". Até mesmo os brancos que servem de fundo e emolduram as flores retratadas - sempre com luz natural, propositalmente estourada -, ainda que úteis como recurso estético, dialogam com o vazio, com a leveza que pode associar-se - por que não? - ao envelhecer.

"Temos a imagem da morte como algo feio, arraigada a uma ideia ocidental, europeia de que só o jovem representa a glória, a virtude. As pessoas estão vivendo cada vez mais, o que nos faz pensar que essa maneira como se olha para o velho e para a morte pode mudar", observa Nina.

Na mostra, a artista aponta aos visitantes algumas das referências utilizadas na criação, como determinados caminhos seguidos pela fotógrafa americana Nan Goldin e conceitos científicos do biólogo Felipe Costa. "O envelhecimento é universal, mas a senescência não: várias espécies parecem imunes a ela, enquanto em outras a aptidão aumenta após a maturidade", observa o biólogo.

A diversidade de suportes, que propõem novas formas de exibir e contemplar a fotografia, vão além das molduras convencionais. São vasos de vidro e bandejas de revelação (inspiradas nas antigas fotografias feitas em negativo), que trazem transparências mergulhadas em água tingida nas cores primárias e que atribuem tridimensionalidade à fotografia, além de impressões sobre superfícies diversas, como papel de algodão - de alta qualidade e durabilidade - e espelho - a partir do qual é possível inserir o espectador na obra.

Para completar sua "senescência", todas as peças expostas são únicas. "Quero que este trabalho se esgote. Pode, no futuro, como aconteceu outras vezes, aparecer de outra forma, mas não há cópias. É como um ciclo que precisa ser finalizado."

 

Canais abertos

"Porque o silêncio das imagens nos leva a contemplar nossa própria condição", levanta a curadora Sandra Sato, em texto introdutório da mostra. Para contribuir com o trabalho, a professora e artista plástica conta ter partido da raiz do conceito de "senescência". "Logo me identifiquei com a proposta e com essa ideia do renascimento do olhar", diz.

"Já havia pensado nisso em um momento da minha vida, em como as flores são lembradas como algo lindo, em momentos alegres, de comemorações, mas que também estão presentes em momentos tristes, aquelas de um funeral, por exemplo, que ninguém deseja receber. Nessa exposição, as flores são colocadas de uma maneira muito diferente, sensível, mas crua e honesta. Estamos morrendo, claro, é prova de que estamos vivos", reflete a curadora, que assina parceria com Nina Mello pela primeira vez.

A mostra não só traz a "reestreia" individual de Nina, como tem a primeira curadoria profissional de Sandra, que acumula experiências como "professora-curadora", resultado das disciplinas universitárias que ministra, mas nunca na área da fotografia. "Foi uma surpresa e uma responsabilidade. Hoje, você pode ter milhares de tecnologias, mas se não tem o olho, não é fotógrafo. E ela tem."

A ideia de explorar novos suportes veio da tentativa da fuga da moldura tradicional, do porta-retrato. Fascinada por transparências, as sugestões de utilizar o vidro, a água e os reflexos foram sendo testadas até resultarem em peças satisfatórias à artista. "Ela é muito prática, coloca a mão na massa. Quando se está focado, as soluções para os problemas vêm naturalmente, os canais estão abertos para perceber algo que normalmente não perceberia. E, nesses casos, as soluções são ainda melhores do que o idealizado."

Formada em jornalismo, Nina Mello atua como profissional há 24 anos, dos quais seis foram dedicados ao fotojornalismo. Segundo a fotógrafa, com o passar dos anos, ela foi se afastando dos imperativos do antigo ofício. "Cada vez menos acredito na imparcialidade, na objetividade dos registros, na fotografia que se apresenta como representação fiel. Por si só, ela é plural."

O Espaço Experimental Nina Mello, no qual a artista promove a criação e a divulgação da arte fotográfica em Juiz de Fora e região, está de mudança. "É preciso repensar o funcionamento da casa", diz Nina. O novo espaço funcionará na Rua 21 de Abril, no Alto dos Passos, e deve ser inaugurado em junho.

SENESCÊNCIA - De terça a domingo, das 16h às 23h. Até 10 de maio, no Espaço Manufato (Rua Morais e Castro 307 - Alto dos Passos) 

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