Publicidade

13 de Abril de 2014 - 07:00

Por JÚLIA PESSÔA

Compartilhar
 

Maestro e mestre da música brasileira, Tom Jobim sempre soube do valor que tem um banquinho e um violão, como versa a letra de uma de suas mais célebres composições, "Corcovado". Acrescente à mistura de Jobim um quadro negro para inscrição dos artistas e um microfone que dê voz às novas composições, e temos a tão simples quanto fértil fórmula do Encontro dos Compositores de Juiz de Fora, que será retomado nesta segunda, às 20h, no Cai & Pira, depois de quase um ano sem ser realizado. "Há tempos uma retomada vem sendo ensaiada, porque o encontro foi um momento de efervescência da produção autoral na cidade. Mas o trabalho continua, e há também caras novas, muita gente querendo mostrar serviço. Não é algo difícil de ser realizado, porque a parte mais valiosa é justamente a troca de experiências, de trabalhos, o contato pessoal, as redes de contatos", destaca o músico Fred Fonseca, que esteve à frente do retorno do evento, que, como antes, vai acontecer na segunda segunda-feira de cada mês.

Para Arnaldo Huff, presença assídua do encontro, o movimento é fundamental para a longevidade da música local e algo que não se vê mesmo em grandes centros, onde a produção autoral possui mais abertura. "É algo singular na cena brasileira, eu diria. Sou de Porto Alegre, que é uma grande capital, e nunca vi nada parecido. Espero poder encontrar velhos camaradas e ouvir o que a moçada nova tem feito. As gerações que se encontraram às segundas tiveram uma produção muito interessante, movimentaram a cidade, e acho que novas forças e parcerias podem surgir."

De fato, grande parte do trabalho autoral que circulou e circula na cidade desde o início dos encontros, em meados de 2006, foi, de alguma forma, impactada por eles. Um dos casos é o álbum "Borandá meu camará", de Roger Resende, que teve apoio da Lei Murilo Mendes e esgotou as unidades disponíveis à venda, precisando ser reprensado, algo ainda raro entre a produção local. No disco, há composições feitas em parceria com diversos outros frequentadores dos encontros como Kadu Mauad, Dudu Costa, Edson Leão, Bruno Tuler e Arnaldo Huff. "No disco, uma das faixas tem cinco compositores, e isso ilustra bem a atmosfera de intercâmbio do encontro. Normalmente trabalhamos nos mesmos horários, e isso impede de conhecer os trabalhos dos outros, e também dificulta a possibilidade de parcerias mais inusitadas, de um cara do rock com um do samba, de um da MPB com um do pop", opina Roger, que já tem novos trabalhos para apresentar a partir desta segunda.

Outro trabalho que tem o Encontro dos Compositores em seu DNA foi "Império de sal", de Dudu Costa, que repete a parceria com Roger Resende e Arnaldo Huff e também divide assinatura de canções com outros artistas como Daniel Lovisi e Duty Bottinas. "Um belo dia olhei para o meu trabalho, fruto destes laços musicais e parcerias, e percebi que tinha um conjunto de boas músicas nas mãos. Então resolvi: 'Vou gravar!'", conta Dudu, que acredita na renovação do repertório autoral da música juiz-forana a partir da retomada do encontro. "Sinto que os vários músicos que dele participaram deram uma parada para se dedicar a trabalhos autorais, gravar CD, DVD. Creio que seja o momento de recuperarmos o intercâmbio e a troca de ideias num sentido coletivo novamente. Em breve uma nova avalanche de canções originais tomará conta dos discos e da noite em Juiz de Fora mais uma vez", aposta.

Já Danniel Goulart acredita que o evento permitiu que a cena local se diversificasse. "O mercado é difícil, muito dominado pela grande mídia, massificante mesmo. Faz a imposição de produtos musicais cada vez mais industrializados e acaba por impedir a democracia nesse setor. Para mim, foi extremamente importante. Minha música é instrumental, e não é jazz, tem público ainda mais restrito, e o encontro é uma chance para a formação", opina ele, em opinião que divide com Bruno Tuler. "Quando o encontro começou, não tínhamos na cidade espaços culturais que valorizassem a música autoral:'música boa é a que toca nas rádios', esse era o pensamento", acrescenta Bruno.

O músico Edson Leão também acredita na contribuição do evento para o acesso das plateias à música que se faz por aqui. "O encontro surgiu de maneira espontânea, quando percebemos que havia uma produção muito grande a quais nós mesmos, músicos, não conseguíamos ter acesso. Mas, apesar de ser um encontro de compositores, é fundamental o acesso do público, e edições passadas já tiveram cerca de cem pessoas. Isso pode abrir portas em outros espaços da cidade para a apresentação da música autoral, algo que é muito escasso atualmente", explica Edson. "Espero também que seja um momento de fomentar mais criações coletivas, mais que individuais, como já vinha acontecendo", completa o músico.

Segundo Fred Fonseca, que mobilizou a patota musical para a retomada, o encontro também ajuda a fortalecer os músicos como classe. "Ali criam-se vínculos e identificações, e fatalmente passamos não só a conhecer as demandas de todos como artistas, mas também as possibilidades de mobilização para atendê-las. É importante fortalecer não somente o lado imaterial do encontro, que são as composições, parcerias e ideias, mas o material, de infraestrutura, dinheiro, logística, porque um alimenta o outro, necessariamente."

ENCONTRO DE COMPOSITORES

Amanhã, às 20h

Cai & Pira

(Rua Roberto Stiegert 16 - São Pedro)

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você concorda com a retirada das pinturas de Lucio Rodrigues dos pontos de ônibus?