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22 de Junho de 2014 - 06:00

Museu de Arte Murilo Mendes retoma atividades na terça, após longa greve, com fôlego para bater recorde de público

Por MAURO MORAIS

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Os campos na Copa: Mostra de Fernando Ancil, que ficou menos de 20 dias em cartaz, será retomada
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Depois de ficar fechado mais de 80 dias, museu mantém a maioria da programação agendada para 2014
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Em janeiro, o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) realizou algumas atividades, mas de maneira tímida, já que durante o primeiro mês do ano a UFJF, bem como todas as outras universidades públicas, presta contas do ano anterior e aprova a verba para o ano vigente. Em fevereiro, quando a verba começou a ser liberada, o espaço cultural aderiu ao recesso da instituição e, sem fechar as portas, reduziu a agenda, retornando em março, a poucos dias do fechamento das portas, ocorrido no segundo dia de abril, por determinação do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições Federais de Ensino de Juiz de Fora (Sintufejuf). Findada a greve, na última quarta-feira, o Mamm retoma as atividades nesta terça-feira, iniciando, de forma integral e com bastante fôlego, a agenda de 2014. Além de recuperar eventos suspensos, o museu reorganiza a agenda a fim de não deixar esmorecer o projeto de ampliação e abrangência de público.

"Foi um grande impacto. Alguns parceiros nossos ficaram contrariados. Lançamentos foram comprometidos. Já estávamos com agenda cheia para abril e maio e em junho já tínhamos alguns eventos confirmados. Todo o material de divulgação já estava pronto", comenta a diretora Nícea Helena Nogueira. Segundo ela, a maioria da agenda foi apenas suspensa, com poucas exceções, como o show e workshop do argentino Libertango, programado para abril, quando o grupo estava no Brasil, em turnê, e cancelado pela inviabilidade técnica de trazê-los, novamente, ao Brasil. Seminários e lançamentos foram transferidos para outros locais e ocorreram na mesma data, mas produções feitas pelo museu estão garantidas para os próximos meses, como os cursos de extensão - entre eles "Literatura espanhola e artes visuais", "Encontros com a arte" e "Encontros com literatura". Exigindo constante atenção, o acervo de Murilo não foi preterido. "Ele continuou cuidado, vigiado e asseado. Não houve redução de quadro no setor de preservação. Mantivemos a parte interna engrenada. Não fomos prejudicados quanto à logística pela greve", assegura Nícea.

Depois de passar quase três meses em silêncio, o edifício projetado por Décio Bracher se abre com duas exposições já vistas - "Contracampo", de Fernando Ancil, e "O artista, o poeta, o retrato", sobre pintura de Reis Júnior. No dia 17 de julho, na galeria Convergência, será inaugurada a mostra "20 anos do Centro de Estudos Murilo Mendes", contando a história do acervo, fazendo referências às principais exposições realizadas e apresentando obras raras do acervo pictórico e bibliográfico do escritor. Em julho, a galeria Poliedro reúne as principais gravuras das coleções presentes no Mamm. Além de oferecer colônia de férias durante o mês de férias das crianças, o museu também oferece oficinas, concertos, audições e alguns dos "Encontros de musicologia histórica", do XXV Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Os quatro grupos de pesquisa que hoje se utilizam do espaço também regressam à biblioteca e pinacoteca, bem como os ciclos de cinema e o projeto Musicamamm, que ocupam, a partir do próximo mês, o anfiteatro do lugar.

 

Verbos e cores

Agendada para maio, para marcar as comemorações do aniversário de Juiz de Fora, a exposição "Juiz de Fora, verbo e cor - Do século XX aos dias de hoje" está prevista para ser inaugurada no dia 6 de agosto. A primeira edição da mostra, ocorrida ano passado, reunia obras que faziam referência à cidade anterior aos anos 1900. Desta vez, pretende mapear a produção recente, lançando mão de fotografias, uma das expressões mais utilizadas pelos artistas contemporâneos locais - entre os autores, nomes veteranos, como Roberto Dornelas e Márcio Brigatto - e de obras produzidas por professores-pesquisadores, como Valéria Faria e Ricardo Cristofaro. "Queremos oferecer uma visão ampla da cidade, com elenco variado. Iremos reunir as duas mostras em um DVD e distribuir em escolas públicas, convidando os artistas participantes a falarem com os estudantes sobre o trabalho e a relação com a cidade", informa Gerson Guedes, pró-reitor de Cultura e curador da exposição.

Outro grande momento bastante aguardado pelo museu é o lançamento dos primeiros quatro volumes das obras de Murilo Mendes, reeditados pela paulista Cosac Naify, que deverá ocorrer em setembro, quando haverá uma mesa redonda com os envolvidos no projeto de repercussão internacional, além de uma exposição e atividades de arte-educação sobre o poeta, cujo aniversário passou em branco na casa a qual dá nome. Também são aguardadas para o Mamm a exposição "Janelas", de aquarelas do artista plástico e professor ubaense radicado em Belo Horizonte Mário Azevedo, para agosto; a mostra contendo fotografias de registro da arquitetura art decó de Juiz de Fora, proposta do arquiteto Antônio Carlos Duarte, em novembro; a reunião de trabalhos autorais do fotógrafo Humberto Nicoline, para dezembro; e uma coletiva com frações de coleções pictóricas institucionais e particulares da cidade, inspiradas na temática "As coleções criam conexões", da 12ª Semana Nacional de Museus, da qual o Mamm faria parte caso não estivesse fechado em maio.

 

A visibilidade de um amplo público 

Único equipamento cultural da universidade a ser fechado por ocasião da greve - com exceção das bibliotecas -, o Museu de Arte Murilo Mendes serviu às reivindicações dos trabalhadores não apenas por sua localização privilegiada no coração da cidade, mas também por representar a reitoria, que antes ocupava o prédio e pelo abrangente e diferenciado público que tem conseguido reunir. Segundo a produção do museu, somente em 2013 o espaço recebeu mais de 20 mil visitantes, número recorde na instituição. Do início desse ano até o fechamento pela greve, somava 601 visitantes, entre pessoas dispostas a assistir exposições, ouvir palestras e participar de outras atividades. "O Mamm é o espaço de excelência da UFJF em termos culturais e tem muita visibilidade. Fechar essa casa revela a importância que ela tem para a cidade e para o meio acadêmico. Para a várzea do rio, fechar o Mamm é fechar a universidade", defende Nícea Helena Nogueira.

Com um expressivo quadro de funcionários - o que o Cine-Theatro Central não tem, bem como o Forum da Cultura, ambos ocupados, em sua maioria, por terceirizados -, o Mamm, de acordo com sua diretora, é um polo de relevância na apresentação da universidade. "O fechamento demonstra que a cultura não é só vista como bem de luxo. O Mamm, a partir da grande abertura de 2013 para a comunidade, mostra a força que tem no meio cultural e social da cidade. Por isso, foi utilizado como cenário político, já que ele agrega desde as classes mais altas até as escolas públicas. Esse museu não é supérfluo", discursa a diretora, dizendo não ter se confrontado com o comando, que agiu de forma pacífica e cordial. "Respeitamos os técnicos administrativos. Valorizamos muito nossos funcionários, por isso, reconhecemos e apoiamos a greve. É um direito deles, garantido por lei", diz.

Para o pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, a grande ação do museu no último ano foi o Coletivo Cultural, projeto que disponibiliza um ônibus da própria universidade para o traslado de estudantes de escolas públicas da cidade e da região para que assistam exposições e participem das atividades do espaço. "Dados nos mostram que a questão do deslocamento é fundamental no consumo de cultura. Com o Coletivo Cultural, conseguimos nos voltar para esse ponto e possibilitar a visita de muitos jovens que talvez não iriam de maneira espontânea. Isso nos mostra que é preciso pensar em levar as pessoas a esses espaços, incentivar, contribuir", comenta ele, que durante a greve manteve projetos como o "Som de domingo" e o "Leitura no campus", ambos sediados na Praça Cívica, oferecendo o microfone para que os grevistas se expressem, mas também demonstrando que cultura é um direito fundamental.

 

 

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