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15 de Abril de 2014 - 06:00

Dominando as listas dos mais vendidos e lidos, livros de autores de língua inglesa equilibram popularidade e desejo de se reinventar

Por MAURO MORAIS

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Segundo o portal Publish News, especializado no mercado literário nacional, o livro mais vendido nos três primeiros meses desse ano é "A culpa é das estrelas", do norte-americano John Green, que também ocupa a terceira e a quarta posições do ranking, com os livros "Cidades de papel" e "O teorema Katherine", totalizando cerca de 300 mil exemplares comercializados no Brasil. Única produção nacional na lista dos dez mais vendidos, "Fim", de Fernanda Torres, ocupa o quinto lugar, somando cerca de 40 mil livros. Apesar de se basear em números cedidos por grandes livrarias do país, servindo como amostragem e não como panorama fiel, a classificação confirma o que as bibliotecas e os especialistas apontam: a literatura em língua inglesa é muito mais popular no país que a brasileira. De acordo com a matéria "Cadê os leitores da ficção brasileira?", publicada em março pela Tribuna, "A cabana", do canadense William P. Young, foi a obra mais lida na Biblioteca Municipal Murilo Mendes, com 138 empréstimos feitos ao longo de 2013. Afinal, o que tanto atrai nessas ficções escritas em inglês e traduzidas para o português?

"Antigamente poderíamos dizer que as pessoas liam livros de literatura em língua inglesa pelo fato de ser uma cultura muito distante e que, por esse motivo, tinha o charme do 'desconhecido'. Hoje em dia, as questões e os dramas humanos acabaram ficando parecidos no mundo ocidental. É claro que não dá para generalizar, mas o jovem brasileiro, por exemplo, se identifica com as histórias criadas para os jovens ingleses porque ele tem acesso às mesmas informações e possui conflitos parecidos. Os interesses acabam sendo semelhantes, tanto que é comum os leitores brasileiros fazerem 'campanhas' nas redes sociais pedindo para a nossa editora publicar determinados títulos que foram publicados no exterior. Os jovens do mundo inteiro estão conectados", comenta Fernando Baracchini, CEO da editora Novo Conceito, uma das portas de entrada dessa produção no país.

Segundo a pesquisadora e professora da Faculdade de Letras da UFJF Verônica Lucy Coutinho Lage, o dinamismo do mundo globalizado explica essa expressiva abertura à literatura em língua inglesa. "Esse momento é também o do olhar eclético e da liberdade de experimentação em literatura, já que, segundo Jacques Derrida, é o campo do saber que nos permite falar tudo", pontua, referindo-se ao filósofo francês. "Há grupos novos de escritores com suas propostas estéticas diferentes que precisam ser respeitadas e analisadas com imparcialidade. O que realmente vale é a forma como esses autores estão conseguindo nos instigar com suas obras", completa Verônica.

"Sem dúvida, há muita coisa boa sendo publicada em inglês dos dois lados do Atlântico. Autores como Thomas Pynchon, Don deLillo e, numa geração posterior, David Foster Wallace representam uma tendência importante da ficção norte-americana, que começou a se afirmar depois da Segunda Guerra, normalmente reunida sob o nome (não muito elucidativo) de 'ficção pós-moderna'", observa o professor do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Puc-Rio, Paulo Henriques Britto. Poeta elogiado pela crítica, vencedor do prêmio Portugal Telecom de 2003 com o livro "Macau", Britto é um dos grandes tradutores brasileiros, já tendo vertido para o português obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop, Charles Dickens e muitos outros autores.

 

Questão de linguagem

Lançado em maio de 2013 no Reino Unido, o livro "Menino de ouro" (Globo Livros, 382 páginas), da inglesa Abigail Tartelin, chegou ao Brasil em menos de um ano, trazendo consigo a expectativa gerada por inúmeras críticas elogiosas publicadas nos principais jornais da Inglaterra. A obra, traduzida pela escritora brasileira contemporânea Cecilia Giannetti, conta a história de Max, um garoto intersexual, que precisa lidar com os dramas da juventude e com os muitos dilemas de possuir dois órgãos genitais. A narrativa, que tinha tudo para resvalar no melodrama, se fortalece à medida em que a autora expressa seu vigor em criar uma linguagem original, muito próxima do que os brasileiros têm feito na atualidade. "Menino de ouro" é fragmentado, e o relato, feito a muitas vozes. Ora é Max quem conta a história, ora é sua mãe, ou seu irmão, ou até mesmo sua médica, passando ainda pela garota por quem se apaixona.

"Como médica, a maioria dos problemas de saúde com que trabalhamos envolve um modo bem preto no branco, certo ou errado, de ser. Não é legal ser obeso, não é ok ter câncer, não é ok comer açúcar o tempo todo. Muitas questões morais são as mesmas: é errado ser racista, é errado pagar salários mais altos aos homens do que às mulheres pelo mesmo trabalho, é errado cometer assassinato. Talvez por isso a intersexualidade seja tão controversa. A 'norma' é ter dois sexos separados, e quando alguém se apresenta como diferente da norma, pensamos que ele é 'errado' e chamamos sua condição de 'distúrbio'", pontua Archie, a médica que confere certo suspense a uma trama marcada pelas descobertas - o garoto que se descortina sexualmente, e a família que retira seu véu das tradições.

Ainda que o título recém-lançado não se configure em um best-seller no Brasil, ele corrobora a qualidade de uma produção muitas vezes reduzida à escrita de rápida compreensão e superficial debate. "Os best-sellers, tradicionalmente, eram criticados por serem uma leitura mais acessível ao público médio, aquele público que consome 'qualquer coisa'. O grande preconceito está em dizer que um produto que atinge a massa é ruim. É uma ideia elitista que, nos últimos anos, tem ficado em segundo plano. Especialmente depois que a literatura 'young adult' ganhou destaque, os best-sellers podem ser livros muito complexos, cheios de referências históricas e literárias. Foi o tempo em que os best-sellers eram só os 'água com açúcar'! Não é mais possível ter estereótipos", defende Fernando Baracchini.

 

 

Questão de versão

Muito do preconceito com a literatura em língua inglesa que desembarca em terras tropicais se deve às traduções ligeiras, que não se preocupam em refletir o espaço no qual algumas histórias serão lidas. "Traduzir é sempre um desafio, quase sempre com perdas", resume Verônica Lucy Coutinho Lage. Já para o CEO Fernando Baracchini essa etapa da produção não chega a ser um entrave. "Hoje em dia, existem profissionais muito preparados para atuar na literatura. As maiores dificuldades são o fato de a tradução demorar para ser feita, uma vez que se trata de um trabalho intelectual, de muita concentração, e também o cuidado que é preciso ter para não traduzir o texto de forma 'artificial'. Quando isso acontece, o livro fica cansativo, chato, e o público brasileiro não se identifica com ele. É preciso trazer o texto para a linguagem dos brasileiros", explica. De acordo com ele, a grande cautela está em analisar tendências, identificando títulos com chance de sucesso. "Os melhores investimentos custam caro, mas, quando o retorno fica dentro do esperado, o projeto acaba 'se pagando' em menos tempo", diz.

Segundo Paulo Henriques Britto, Bernardo Carvalho, André Sant'Anna e Daniel Galera são alguns dos jovens escritores brasileiros que bebem na fonte da literatura em língua inglesa, mas também em outras escritas, espanholas, francesas e até mesmo alemãs. "Enormes diferenças de linguagem há entre cada dois autores de qualquer literatura. É difícil fazer generalizações desse tipo. Um estudioso da ficção brasileira atual, Karl Erik Schollhammer, vê a temática da violência como um elemento importante, muitas vezes associado ao choque de classes causado pelas terríveis desigualdades sociais. Na literatura norte-americana, o tema é menos central, como seria de se esperar num país em que a distribuição de renda é mais equânime do que aqui (embora esteja se tornando mais desigual nas últimas décadas)", comenta.

Afora os intercâmbios entre autores de diferentes línguas, a forma de produção também pode servir como matéria de diálogo e apreensão. Por que não ter na literatura brasileira a mesma repercussão que as histórias em inglês? Em processo de fortalecimento nos últimos anos, o mercado nacional ainda precisa aprender muito com o exterior. "No meu ponto de vista, o problema não está na linguagem, e, sim, no mercado de edição e divulgação do Brasil. Penso que a tradução das obras em língua portuguesa precisa ser encarada com seriedade, e ser posta em prática, a fim de promover nossa literatura. Naturalmente, isso se deve a uma série de razões. Talvez, a principal delas seja o domínio econômico das potências mundiais que acabam por se tornarem referências primeiras, e, de certa forma, estabelecerem os idiomas mais lidos através do mundo", sugere Verônica.

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