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05 de Junho de 2014 - 06:00

André Monteiro lança antologia em que revisita 20 anos de produção poética

Por JÚLIO BLACK

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Para André Monteiro, a poesia pode ter uma
Para André Monteiro, a poesia pode ter uma 'função política'

Palavras não são más, palavras não são boas. Palavras são livres, moldáveis, e são essas duas últimas questões que o poeta André Monteiro vem trabalhando há cerca de 20 anos e que podem ser conferidas na antologia "Cheguei atrasado no campeonato de suicídio", seu segundo livro, com lançamento nesta quinta-feira, às 20h, na Livraria Liberdade. Dividido em cinco seções, o livro - tratado por ele como "obra incompleta" - reflete a busca do autor pela experimentação literária, com a extrapolação de seus limites e a criação de novos. O evento, porém, vai além da mera noite de autógrafos: quem comparecer ao lançamento poderá assistir à exibição do video-poema "(ex)Perneando no berço" e à apresentação do projeto "Verbo em DISCOntrole: poesia em vinil", além da participação de poetas locais.

Ao dividir o trabalho em seções, André explica que elas foram definidas não respeitando uma ordem cronológica absoluta, até porque as poesias mais recentes estão no início e no final do livro. "Queria as seções não só pela ideia do tempo, mas também pela questão do tema, do estilo de escrita. Foi difícil escolher os textos. A primeira seção é uma brincadeira com 'panfleto', a visão do poema como instrumento para se falar de alguma ideia, ideologia política. O poema seria a tradução dessa ideia já pensada, o flerte com várias coisas ao mesmo tempo", explica ele, destacando que também foram selecionados textos publicados em fanzines nos anos 90 e outros postados no Facebook.

Abrangendo um período tão extenso e tratando-se de um autor que busca novos rumos para a palavra escrita, "Cheguei atrasado..." é um diálogo com vários estilos poéticos, passando por Charles Bukowski, os poetas "marginais" dos anos 70, Oswald de Andrade e também por rap, rock and roll, entre outros. "O processo de criação é misterioso, tem uma margem que é intraduzível, e acho que é a graça dele. Você passeia por vários momentos da minha relação com a vida e os autores que li", define, ressaltando que suas experiências não são meros exercícios esteticistas, mas sim uma atitude de "resistência política" - que nada tem a ver, porém, com a política tradicional. Nada de ideologias partidárias ou causas sociais, então.

"A grande política que a poesia pode fazer é uma política pela linguagem. O escritor francês Roland Barthes sempre dizia que 'toda língua é fascista', porque você precisa aprender um monte de regrinhas desde que nasce. Não 'fascista' porque ela te proíba de dizer algo, mas pelo que te obriga a dizer, não poder pensar nada sem sujeito, verbo e predicado. A grande função política da literatura é trapacear com o fascismo. Não dá para ficar fora da língua, mas pode-se driblar a língua, brincar com ela, quebrá-la, criar sentidos inusitados. É nesse sentido que acho que faço política, tentando abrir respiradouros dentro dos clichês, estereótipos, buscando as fissuras da linguagem. Isso é um tipo de política, porque você convida o leitor a criar também, ou se recriar ao ler os textos. Não é uma política para uma causa, e sim para algo que ainda não sei o que é. Quando a língua 'explode', não tem um sentido, a priori, então vamos construir o sentido na leitura, no processo, e não como um produto."

Além das experimentações e de sua "política poética", um tema recorrente na última parte da antologia é o suicídio. De acordo com André, reflexo de um período de dúvidas e incertezas, na virada do milênio, em que os textos foram escritos. Para quem pensa se tratar exclusivamente da ação-limite de pôr fim à própria vida, ele explica que o tema precisa ser visto por três ângulos diversos. "Tem um lado negativo do suicídio, e nesse quero chegar atrasado, que é a coisa de sucumbir a tudo aquilo que nos é imposto, essa sociedade de mercado. Na época, estava terminando o doutorado, na Espanha, e me questionava o que ia fazer com aquele doutorado. Acho que era uma sensação coletiva, a gente vivia com falta de recursos para pesquisas, era época de sucateamento total do universo que eu vivia (o acadêmico), com uma das poucas bolsas dadas pelo governo do período. Então, a ideia de chegar atrasado para o suicídio tem um pouco a ver com resistência a todas essas imposições de uma sociedade mercadológica, sucumbir à hegemonia, simplesmente sobreviver, não experimentar a vida. A outra ideia é de um suicídio alegre, que é a própria resistência a esse suicídio triste, a própria vida nos convidando ao 'suicídio' para a gente se tornar outra pessoa. É um 'suicídio de resistência', uma reinvenção, eu me 'matar' para 'renascer' de novo. E ainda tem um terceiro suicídio, que é um que sempre me incomodou: o do artista marginal, maldito. Até que ponto vale a pena se colocar de vítima dentro de uma sociedade, até que ponto vale se suicidar por uma causa marginal? Eu acho que é mais interessante entrar nos esquemas, nas instituições, trabalhar como um vírus, 'vazar por dentro'. O suicídio aqui é mais no sentido político, da relação com o outro, do que realmente o ato de fato. Não gostaria de fazer isso, dizer o 'não absoluto' à sociedade. Quero continuar resistindo, não quero entregar as pontas", encerra André.

CHEGUEI ATRASADO NO CAMPEONATO DE SUICÍDIO

Lançamento

de livro

Hoje, às 20h

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