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05 de Junho de 2014 - 06:00

Baseada em notícias de jornal e texto de Plínio Marcos, a jovem companhia INMundos estreia amanhã 'Estação dos passageiros invisíveis'

Por MARISA LOURES

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Rafael Coutinho, Pri Helena e Bruno Quiossa interpretam três cidadãos em situação de rua
Rafael Coutinho, Pri Helena e Bruno Quiossa interpretam três cidadãos em situação de rua

Mesmo sem qualquer influência da jornalista Eliane Brum, a jovem companhia INMundos demonstra estrear na cena juiz-forana embebida da mesma crença da autora. "Há certas realidades que só a ficção suporta e que precisam ser inventadas para ser contadas", disparou a colunista do portal do jornal "Él País", fazendo referência ao livro "Uma duas" (Leya), obra que marcou a entrada dela no universo dos romances. Flertando com a verdade, mas apostando na fantasia, a peça teatral "Estação dos passageiros invisíveis" será apresentada, pela primeira vez, nesta sexta, às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, levando a assinatura do diretor Leo Cunha, mesmo de "A casa dos espelhos", apresentada recentemente em Juiz de Fora. A temporada segue em cartaz nos dias 7, 8, 13, 14 e 15 de junho.

O ambiente da prostituta Neusa Sueli, do gigolô Vado e do homossexual Veludo, figuras de "Navalha na carne", de Plínio Marcos, serviu de base para as discussões preliminares da trupe juiz-forana. "O Plínio traz a questão da marginalidade. Em 'Navalha na carne', ele mostra que o problema entre dominantes e dominados está presente em qualquer classe social", afirma o dramaturgo Rafael Coutinho, autor do texto. Ele fez o début na escrita no último Festival de Cenas Curtas com a esquete "Terra fértil para balões de ar". Antes dessa experiência, Rafael havia sido colaborador de Tiago Fontoura em "As sementes de aço", premiado em 2013 como melhor texto de drama do Festival de Cenas Curtas de Conselheiro Lafaiete.

A peça retrata a relação de três cidadãos em situação de rua que vivem em uma estação abandonada. Embora a história seja contada no mundo do faz de conta, o drama tem como base um crime ocorrido na antiga Estação Mariano Procópio (desde 2012, o local é sede do Centro Cultural Dnar Rocha, onde são promovidas atividades do projeto "Gente em primeiro lugar", da Funalfa), conforme notícias publicadas na imprensa no ano de 2009. A vítima foi empalada enquanto dormia. "A estação era habitada por moradores de rua, e três homens entraram lá e assassinaram um homem com um guarda-chuva e um cabo de vassoura. Depois que isso aconteceu, o pessoal ficou relutante em frequentar o lugar. As mães ficavam com medo", comenta Rafael, que divide o palco com Bruno Quiossa e Pri Helena.

"Muito foi noticiado, mas nada era falado do lado humano. Ninguém enxergava aquelas pessoas. Elas não têm nome por serem invisíveis. São chamadas de o Homem, a Mulher e o Outro", adianta Rafael. "A gente assume a ficção para trabalhar em cima dos momentos finais do episódio", completa Quiossa.

Seguindo na linha das montagens contemporâneas, a plateia não encontrará uma montagem "arranjadinha", nas palavras de Quiossa. A direção de Leo Cunha leva o espetáculo para o espaço cênico montado em formato de uma rua. "O Leo tirou um pouco do realismo do texto", confidencia Quiossa. A praticidade adotada no cenário permite apresentações até mesmo em locais abertos. "Queríamos colocar o feio no lugar do belo com personagens nada exemplares. Eles vivem em cima de papelão, como se estivessem inseridos numa caixa", conta Quiossa. A trilha sonora foi concebida especialmente para o espetáculo e tem assinatura do grupo 4zero4. Já Gilberto Santos encabeça a iluminação.


Construção de personalidades


Quiossa estava sentado em um bar quando ouviu a frase que serviu de base para a construção de seu personagem. "O ser humano se acostuma com qualquer coisa", respondeu o homem diante da indagação do ator: "Você não quer largar essa vida?". Segundo Quiossa, a pergunta surgiu enquanto ele e os companheiros de cena participavam de um curso de dramaturgia. O objetivo, de acordo com ele, é fugir das rotulações e de pontos de vista pré-concebidos, o que justifica o fato de cada um dos atores apresentar personalidades distintas. "Muitos estão nessa situação porque querem, é um meio de vida. Não se veem de forma trágica. Costumamos vitimar muito as pessoas, por isso tentamos sair disso", assevera para, em seguida, exemplificar com o processo de criação da 'identidade' da Mulher.

"A Priscila conheceu uma moradora da região do Bom Pastor que achava que estava grávida. Até hoje, ninguém sabe se era uma gravidez psicológica ou se era verdade. Na peça, ela ainda acredita que tem uma pessoa falando com ela o tempo todo", diz, sendo endossado por Ludmila Andrade, responsável pela construção psicológica de "Estação dos passageiros invisíveis". "Buscamos trazer a questão da esquizofrenia a partir dessa mulher forte, capaz de lutar por seu amor, vivendo no conflito entre amor e família - irmão e filhos imaginários e amor do seu homem."

De acordo com Rafael, para dar corpo à ideia iniciada há um ano, o grupo passou pelas fases de pesquisa, laboratório e ensaio. A intenção da trupe é trilhar o caminho de um teatro profissional. A próxima parada já tem data marcada. O trio segue viagem para o Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni/MG (Festto), que será realizado entre os dias 16 e 22 de junho.

ESTAÇÃO DOS PASSAGEIROS INVISÍVEIS

Estreia nesta sexta, às 20h. Dias 7, 8, 13, 14 e 15 de junho, às 20h

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200)

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