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19 de Janeiro de 2014 - 07:00

De propriedade da Santa Casa, Fazenda da Tapera e Solar dos Colucci aguardam restauração e intervenção urbano-paisagística com parceria da UFJF

Por Marisa Loures

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Previsto para abrigar o Museu da Saúde, Solar dos Colucci está em fase de levantamento dos problemas
Previsto para abrigar o Museu da Saúde, Solar dos Colucci está em fase de levantamento dos problemas
Deteriorada pelo tempo, Fazenda da Tapera foi escorada por mourões
Deteriorada pelo tempo, Fazenda da Tapera foi escorada por mourões

Mourões escoram a Fazenda da Tapera. Tombado como patrimônio público municipal em 1990, o casarão mais antigo da cidade espera, há anos, por reformas urgentes. A Tribuna não foi autorizada a entrar no local, mas, a julgar pela parte externa, o imóvel parece apresentar graves problemas. Em outro endereço, na Avenida Rio Branco, o Solar dos Colucci, erguido no século XIX e protegido pelo município desde 1999, também aguarda por intervenções. A promessa é que os dois bens históricos, de propriedade da Santa Casa, sejam beneficiados por um projeto de restauração executado pela Universidade Federal de Juiz de Fora e outro urbano-paisagístico comandado pelo hospital, através de um convênio firmado entre as duas instituições. A parceria foi divulgada em julho de 2012 pelo jornal, na reportagem "Pedras para fazer caminhos", e as obras ainda não foram realizadas. O plano de ação a ser executado deve ficar pronto no primeiro semestre de 2014, de acordo com os responsáveis pelas propostas.

Localizada na Rua Alencar Tristão, ao lado do Cemitério Parque da Saudade, no Bairro Santa Terezinha, a Tapera apresenta janelas quebradas e sem vidros, pintura danificada e rachaduras. Exemplar do início do século XVIII, a antiga Alcaidemoria foi erguida em pau a pique, sendo uma das marcas do estilo colonial. As ripas exibem vestígios de deterioração provocada pelo tempo. O cenário instiga atenção de moradores que residem nas imediações e pedestres que por lá circulam.

"Nem parece que é um prédio importante para a cidade. Aparenta estar todo abandonado. Tenho filhos pequenos e tenho medo de bicho que sai deste mato alto. Com as chuvas, pode aparecer até escorpião. Deveria ter capina constantemente. Como não vemos vigia, usuários de droga costumam pular o muro para se esconder", comenta a empresária Natália Torga, 21 anos. "Passo de ônibus todos os dias e vejo a situação deste prédio. Ele está assim há anos. Acho que não caiu porque essas construções antigas devem ser muito fortes", comenta a moradora do Bairro Grama, Celina de Oliveira, 63.

Para solucionar os danos, a UFJF firmou uma parceria com a Santa Casa, em 2012, por meio de um projeto de extensão. Enquanto a instituição de ensino está incumbida da restauração, o hospital trabalha em cima do projeto urbano-paisagístico. Conforme Mônica Olender, arquiteta que encabeça o projeto desenvolvido pela UFJF, os trabalhos visam a conservação, restauração e reabilitação do espaço. "Estamos fazendo proposições que possam abarcar diversos usos ainda não completamente definidos. A intenção é prolongar o tempo de vida do bem", explica Mônica, justificando o longo período de estudo das intervenções. "Quando a gente se propõe a fazer um projeto de extensão, o prazo é maior, porque não estamos trabalhando num escritório, que conta com vários profissionais formados. Atuamos com bolsistas. Essa questão interfere no tempo de dedicação."

Segundo Mônica, o que norteia o tipo de ação para bens culturais é a mínima intervenção. "Tudo vai ser feito dentro deste conceito de autenticidade", assevera Mônica. Os esforços estão focados nos sistemas estruturais e de elementos de vedação (paredes, esquadrias e cobertura). De acordo com ela, os custos serão levantados em uma planilha orçamentária específica feita depois que o projeto for finalizado.

 

 

 

Levantamento de recursos

 

Uma proposta de recuperação da Fazenda da Tapera já havia sido protocolada no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora (Comppac), mas foi considerada inadequada. Ainda não há uma previsão do início das obras e nem valores, mas, na época em que foi firmada a parceria com a UFJF, a Santa Casa sinalizou para a captação de recursos via leis de incentivo.

O hospital alega que, neste período, o edifício recebeu medidas emergenciais. "No ano passado, foram feitos novos e mais robustos reforços aos escoramentos anteriores, para garantir ainda mais segurança ao imóvel até o início das obras de restauro", diz Jarbas Batitucci, coordenador de patrimônio da Santa Casa. Batitucci adianta que as intervenções realizadas na parte externa da fazenda manterão a vegetação original.

Arquiteto da Divisão de Patrimônio Cultural da Funalfa (Dipac), Paulo Gawryszewski afirma que os mourões foram instalados na fazenda a pedido do Comppac. "Queríamos garantir a integridade do edifício", observa o profissional, para logo enfatizar a necessidade de rigor técnico na pesquisa dos procedimentos a serem postos em prática. "Tanto a Fazenda da Tapera quanto o Solar dos Colucci têm problemas sérios. Por isso, a Funalfa acompanhou este trabalho de perto. Para fazer captação de recurso e executar uma obra de restauração, é preciso seguir os métodos adequados. Um processo de restauração é sempre mais demorado."

No Solar dos Colucci, o que se pode observar da rua é a necessidade de reforma de telhados, paredes e janelas. "O projeto ainda está em fase de diagnóstico", diz Mônica Olender. Conforme já divulgado pela Tribuna, uma outra proposta de restauração do casarão também foi apresentada ao Instituto de Preservação do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que solicitou um parecer do Comppac, após constatada a ausência das plantas da edificação. Segundo informou a Santa Casa por meio de sua assessoria, a equipe responsável pelos projetos executivos de arquitetura e paisagismo foi trocada em 2012 para atender a demanda do órgão municipal. O hospital também informa que a construção tem recebido manutenção periódica.

"Os projetos estavam mal estruturados, tinham propostas que não estavam de acordo. Não tínhamos certeza se iriam ajudar ou se comprometeriam ainda mais a edificação", atesta Paulo. A posição atual é que novas proposições a serem apresentadas ao Comppac estão em fase final, com previsão de término até junho deste ano, segundo a Santa Casa. "Gostaríamos que os trabalhos estivessem num estágio mais avançado, mas sabemos que a universidade tem suas limitações, principalmente, porque passou por greve. Reconhecemos o que está sendo feito", completa o arquiteto da Dipac. "O hospital está fazendo os projetos dos dois imóveis de forma muito criteriosa por se tratar de orçamentos de alto custo", informa a assessoria da instituição de saúde

Com relação à segurança da Tapera, Batittuci afirma que os vigias do Parque da Saudade dão cobertura ao local, devido à proximidade com o cemitério. "Não temos conhecimento de pessoas que entram no terreno para fazer uso de drogas. A capina é feita num intervalo entre quatro e cinco meses. As frequentes chuvas podem ter colaborado para o crescimento do mato em um curto espaço de tempo e já estamos agendando outra", garante o coordenador de patrimônio.

 

Prédios devem abrigar espaços culturais

"Esperamos que os trabalhos sejam realizados o mais breve possível. Apesar de escorada, a Tapera está surpreendentemente de pé. Ela é revestida de barro. No Colucci, há tijolos maciços, mas, de qualquer forma, exige rigor na restauração", avalia Paulo. O arquiteto ainda ressalta que estar em uso auxilia na preservação dos bens. "É mais fácil conservar com pessoas dentro, porque elas identificam com mais rapidez os danos existentes", enfatiza.

Para a Fazenda da Tapera, a proposta é a implantação de um espaço multiuso com exposições, oficinas e café. Já para o Solar dos Colucci, continua de pé a previsão de transferência de todo o acervo do Museu da Saúde, que hoje funciona ao lado da capela da Santa Casa, para o local. O prédio eclético, com traços de chalés europeus, abrigará toda a história construída pelo hospital durante 160 anos. A assessoria informa que o objetivo é ampliar a visitação, pois a sede atual é pequena.

Além de acadêmicos de enfermagem e estudantes de escolas públicas, o Museu da Saúde é visitado por acompanhantes de pacientes internados. Os documentos e todo o arquivo que lá estão são doados por profissionais que atuaram ou atuam na Santa Casa. Entre as preciosidades que ajudam a manter viva uma parte da memória da saúde em Juiz de Fora, estão um livro de tratamento de pneumonia crônica, escrito em francês e datado de meados do século XIX, e uma publicação com relatos de vários médicos brasileiros que passaram pela guerra. Objetos curiosos, como uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, a Santa do Pau Oco, esculpida no século XVIII, dividem o espaço com um tinteiro mata-borrão com recipiente em rubi. O instrumento foi usado em 1889 pelo Barão de Bertioga.

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