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17 de Dezembro de 2013 - 07:00

Para além dos afrescos do Cine-Theatro Central, obras em exposição que homenageia pintor Angelo Bigi revelam o vigor de um dos grandes nomes da arte no século XX

Por MAURO MORAIS

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"Costurando", de 1949
"Costurando", de 1949

Não apenas as pinturas foram recuperadas, retomando suas cores, mas o italiano radicado no Brasil, também. Nos dias finais do ano em que sua morte completa seis décadas, Angelo Bigi recebe uma merecida homenagem, capaz de revisitar o artista que se eternizou nas paredes e no teto do Cine-Theatro Central. Ironias do destino: apesar da beleza e da grandiloquência de suas pinturas na suntuosa casa de espetáculos, inicialmente um cinema, sua genialidade e sua veia autoral ressaltam nos quadros. Inaugurada hoje, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), a mostra "Angelo Bigi: Homem da Itália, artista do Brasil" joga luzes sobre a produção de pintura de cavalete do artista, afirmando suas tintas nacionais.

"Ele se apaixonou pelo país e fez questão de visitar, em sua obra, a paisagem mineira, os tipos físicos e todo um clima. É muito interessante perceber como ele atinge o espírito da cena", comenta Paulo Alvarez, curador da exposição ao lado do restaurador Valtencir Almeida. Atento à sensibilidade que envolve as situações retratadas, Bigi constrói em "Costurando", tela na qual retrata a esposa Nella alinhavando um tecido, uma esfera fortemente emocionante, apesar da trivialidade cotidiana. "Ele vivia de suas pinturas decorativas, cenográficas, e passou a se dedicar mais ao cavalete quando o outro lado diminuiu", explica Alvarez.

Nascido em 1887, na Itália, Bigi chegou a Juiz de Fora nos anos finais da década de 1910, logo após a Primeira Guerra Mundial. Profissional das artes, pintou alguns espaços internos da Associação Comercial, na Praça da Estação, o que foi um de seus primeiros trabalhos em terras mineiras. O convite, feito pelo arquiteto Raphael Arcuri, rendeu ainda outros, entre eles o Central. "Ele expôs muito no Rio de Janeiro, em São Paulo, Belo Horizonte, foi premiado, recebeu menções honrosas. Foi reconhecido", pontua Alvarez, destacando que os dia de hoje reservaram certo esquecimento da obra integral do artista. Para os que sequer conhecem a face do pintor, a exposição apresenta um retrato (na dedicatória: "Ao Bigi, bom amigo e collega. Lembrança do Orózio Belém. BH. 1935") e um busto.

Morto em 1953, Angelo Bigi deixou diversas obras, muitas ainda guardadas por familiares, outras preservadas em instituições como o Museu Mariano Procópio e o próprio Mamm. Passado mais de meio século de sua despedida e décadas que as obras não eram reunidas, foi necessário uma força-tarefa para que o trabalho chegasse ao espectador da maneira projetada pelo artista. Responsável pelo setor de restauração de pintura do Mamm, Valtencir Almeida cuidou de quadros que sofriam com ataques de cupins, desprendimento de pigmento, verniz oxidado, pequenas ranhuras e sujeira acumulada. "Alguns quadros estavam de tal forma deteriorados que a leitura se interrompia, o elogiado colorido havia se perdido", conta o restaurador.

Após análise técnica, não apenas cenas foram recuperadas, mas o vigor de um profissional completamente consciente de seus gestos artísticos. "As cores que ele utiliza estão em plena harmonia, e isso confirma o seu domínio da paleta. Ele resolve muito bem o claro e o escuro, a luz e a sombra. Além disso, a qualidade da tinta que ele utilizava era muito boa. Quando retiramos o verniz, que já estava oxidado, as cores ganharam vida", analisa Almeida. Como um presente à memória artística local, a restauração foi toda realizada pelo Mamm, sem custos aos proprietários das obras. "Por mais que eu estivesse me familiarizando com a obra, foi uma surpresa ver o carinho que a família trata o artista e preserva seu legado. Era muito importante promover esse resgate", completa Paulo Alvarez.

Quando iniciou sua pesquisa para a exposição, Alvarez se deparou com uma conferência feita por Dormevilly Nóbrega na Associação de Cultura Ítalo Brasileira de Juiz de Fora meses após a morte do pintor. No documento, que pertence à biblioteca de Nóbrega, estava a frase que dizia ser Bigi homem da Itália e artista do Brasil. Descoberta semelhante foi feita em outro acervo do Mamm, que preserva os livros do escritor e jornalista Gilberto de Alencar. Dono de pinceladas contidas, exatas, o pintor se rendeu às caricaturas, às cenas de humor, às imagens divertidas. "Foi uma revelação percebê-lo como ilustrador. O trabalho dele para o livro de Gilberto é de grande beleza", reflete Alvarez.

Emocionada, Eliete de Loreto, neta da esposa de Bigi e dona de uma respeitada coleção do artista (algumas telas foram compradas pelo pai, outras ganhadas) comemora a homenagem. "É merecida ", resume, confiante de que os retratos, as paisagens de mar e jardins, a natureza morta e as muitas imagens de uma Juiz de Fora do passado revelam uma história para além da trajetória do italiano que escolheu viver numa pequena cidade brasileira, viajando com frequência para pintar igrejas e casas da região.

 

"ANGELO BIGI -HOMEM DA ITÁLIA, ARTISTA

DO BRASIL"

 

Abertura hoje, às 20h. De terça a sexta, das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 9 de março

 

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790)

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