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10 de Julho de 2014 - 06:00

Cada vez mais recorrente na literatura nacional, memórias travestidas de ficção tomam conta das prateleiras de lançamentos

Por MAURO MORAIS

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Juiz de Fora nos anos 1970: Novo livro de Luiz Ruffato resgata cidade de inverno rigoroso e pensões estudantis
Juiz de Fora nos anos 1970: Novo livro de Luiz Ruffato resgata cidade de inverno rigoroso e pensões estudantis

No início do século XX, a fotografia não gozava da popularidade e da onipresença que tem atualmente. Era cara e pouco acessível. Quando havia a oportunidade, nada podia sair do previsto. Para isso existia a tinta, a pintura que retocava as fotos, gerando outra imagem, um retrato poético. De maneira semelhante, livros lançados recentemente constroem um espaço entre a ficção e o registro histórico, flertando com os discursos memorialísticos de Pedro Nava e Rachel Jardim e com a fragmentação dos dias que correm. Como uma tendência da literatura contemporânea brasileira, a fronteira entre a realidade pretérita e a invenção é oferecida como vestígio tanto de um coletivo quanto de uma autobiografia. "Li, certa vez, um ensaio do escritor italiano Luigi Pirandello em que ele afirma que a vida pode ser inverossímil, a arte não. Pois esta história, por ser real, soará talvez fantasiosa", anuncia a primeira história de "Flores artificiais", novo livro de Luiz Ruffato. Reunindo as memórias de Dório Finetto, um engenheiro de Rodeiro que deu a volta ao mundo trabalhando para o Banco Mundial, a obra reescreve o legado do homem, deixando espaços para as dúvidas sobre a veracidade de tudo, mas também apresentando sinais da verdade contida nos escritos.

No conto que abre as lembranças de Dório, o autor apresenta Bobby Clarke, um inglês que, após se envolver em diversas aventuras e até lutar em guerras, foi enterrado no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, na cidade onde viveu seus últimos anos, vendendo veneno para ratos em botequins decadentes. Ao ter como cenário uma cidade de invernos rigorosos, de uma Batista de Oliveira que "se durante o dia animava-a forte comércio monopolizado por sírios e libaneses, à noite transformava-se em reduto de pequenos traficantes, malandros e meretrizes", Ruffato resgata a Juiz de Fora dos anos 1970, com seus sopões para amainar o frio e seus universitários, quase errantes, a morar em pensões no Centro da cidade. "Lembrei-me muito da Juiz de Fora de minha época. Eu também vim para cá e fiquei em pensões baratas. Fiquei na Marechal Deodoro, na parte baixa. O Ruffato ficou em outra região, mas ali era uma zona de prostituição e vagabundagem. Lembro-me que fiquei em um pensão, com beliches, como era o esquema do final dos anos 1970, início dos anos 1980. Meu sopão era outro, não me lembro do da Bebel. Era uma cidade totalmente diferente, nem melhor, nem pior", recorda-se o escritor Iacyr Anderson Freitas, contemporâneo de Ruffato.

Enquanto revive as experiências de Dório na Argentina, Uruguai, Cuba, Alemanha, Líbano, Timor Leste e Porto Rico, partindo de Juiz de Fora, o livro apresenta a força dos aspectos afetivos, que não estão registrados nos livros de história. "Com esse livro, o Ruffato altera o tom da linguagem, o foco narrativo. É um trabalho que coloca algumas distinções dentro da obra dele. O fato de trabalhar com a memória, colocando no espelho outra figura, permite a ele lidar com a memória sobre diversos ângulos, porque há uma mescla da memória de época com a memória do personagem, que, às vezes, dialoga - e nesse livro isso acontece - com as recordações do próprio escritor", aponta Iacyr. "É interessante perceber a ligação desse tema com o tema central no livro, que é o desenraizamento. O Dório não tem raízes, se sente sozinho no mundo. Em determinado momento, ele diz que se morresse naquele hotel, naquele país, naquele lugar, ninguém sentiria falta dele. É um ser muito ímpar, que vive dentro de seu próprio mundo e se sente desgarrado de tudo que o cerca", completa.

 

 

Ocupando o vazio do discurso histórico

Outro lançamento, "Mil rosas roubadas", do escritor e crítico mineiro Silviano Santiago conta a história da relação entre dois amigos. Um deles, que morre logo no início da obra, é Zeca, uma referência direta ao produtor musical que despertou a cena do rock na década de 1980 (descobridor de Cazuza, autor da letra de onde surge o título do livro). O outro, o próprio autor, pronto a embaralhar as fronteiras, indicando um gênero, ainda sem nome, híbrido. "O olho sadio da imaginação não a deixa mentir. E seu olho vesgo só se faz presente para alimentar, depois da morte, alguma trapaça redentora da vida. Não é da natureza das artimanhas estilísticas do biógrafo a busca de cumplicidade sentimental ou ideológica com o leitor pelo piscar de olho ressabiado e conivente?", indaga o narrador em certa passagem, como a confirmar o projeto linguístico da obra.

"O próprio Silviano Santiago, quando apareceram os livros 'O que é isso companheiro', do Fernando Gabeira, e 'Os carbonários', do Alfredo Sirkis, escreveu um ensaio muito bom, chamado 'Declínio da arte, ascensão da cultura'. Esse texto é do final de 1980, e ele argumenta que o discurso dos ex-guerrilheiros colocava em evidência um outro tipo, não de ficção, mas de urgência literária, que ocupa um lugar que a ficção não consegue, que é o lado documental. Silviano escreveu o romance 'Em liberdade', respondendo às questões que ele mesmo colocava", comenta o escritor e professor da Faculdade de Letras da UFJF Anderson Pires. Segundo ele, o objeto de Santiago, e também utilizado por Ruffato, corresponde ao discurso da nova história, que compreende a ficção tanto como procedimento quanto como fonte, já que "muitas vezes o historiador que vai estudar o século XIX pega os textos Machado de Assis como documento, legitimando uma realidade histórica".

"Percebo, há algum tempo, desde o livro da Tatiana Salém Levy e os livros da Paloma Vidal, que existe uma marca no campo de criação misturando o biográfico com o ficcional, essa zona-limite. Acho que esse dado vem como uma tendência da ficção, tentando dar cabo das experiências e não da imaginação. Pedro Nava foi um pioneiro nisso. Quando ele surgiu, foi um problema literário, porque não sabiam onde encaixar o cara: é uma narração, mas não é ficção; é um romance, mas não é um romance ficcional; não está no campo da imaginação, está no campo do documento. O Antônio Cândido, no livro 'Poesia e ficção na autobiografia', analisa a obra do Pedro Nava e fala que há literatura porque onde falha a memória, o documental, o autor preenche com a imaginação", analisa Pires, para logo comentar: "Acho que agora tem o inverso do processo do Nava: onde falha a imaginação, entra a memória". "Esse outro lado da memória, que é um olhar mais afetivo, mais participante do indivíduo sobre a realidade, não é exclusivo na literatura, mas ela sabe levá-lo a cabo muito bem. O testemunho de um bom escritor pode dar uma visão de mundo fora do comum", pondera Iacyr.

E muitos são os escritos que se destinam a tal embaralhamento: Carola Saavedra e seu novo "O inventário das coisas ausentes", Cristóvão Tezza e "O professor", Marcelino Freire em "Nossos ossos", dentre outros. "A questão que considero nova é a escolha da época, já que é sempre um período no qual o discurso histórico ainda não está constituído. Não temos muita coisa sobre a vida cultural e social de Juiz de Fora nos anos 1970 e 1980. O cenário da cultura do Brasil nos anos 1980 e 1990 está sendo construído agora", aponta Pires. Registros ou não, complementos do que ainda está por ser escrito ou não, essa literatura nos apresenta fotografias pintadas, retocadas e, por isso, sempre suspeitas.

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