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25 de Abril de 2014 - 06:00

Fresno mostra sua maturidade musical no recém-lançado EP independente 'Eu sou a maré viva'

Por JÚLIA PESSOA

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Banda tem se distanciado cada vez mais do rótulo pop que a consagrou
Banda tem se distanciado cada vez mais do rótulo pop que a consagrou

Quem ainda associa o Fresno a versos de amores impossíveis, sofridos e inevitavelmente adolescentes certamente se surpreenderá com o recém-lançado EP da banda "Eu sou a maré viva". "Quando comecei a compor, tinha 15 anos, e realmente não tinha tanto a dizer. Acabava me expressando sobre o amor, algo que de fato era importante tanto para o garoto que eu era quanto para o público que se identificou com essas letras. Mas o tempo foi passando, e, naturalmente, fomos percebendo que há um universo muito mais amplo sobre o qual poderíamos nos expressar, e este trabalho mostra muito isso", diz Lucas Silveira, vocalista e principal compositor da banda, em entrevista à Tribuna.

Com cinco faixas marcadas por guitarras pesadas fortalecidas por sintetizadores, arranjos simples, porém vigorosos e letras mais maduras, o álbum se distancia cada vez mais do som pop teen que consagrou o quarteto, processo que vem acontecendo desde que o Fresno voltou a ser independente, saindo da gravadora Universal em 2011 e lançando o CD "Infinito". "Em uma grande gravadora, as bandas jovens chegam acreditando que estão fazendo um 'negócio da China' e acabam, em algum momento, sendo vendidas como mercadorias e não raramente de uma forma com que não concordam. Quando chegamos a este ponto e vimos que muita coisa estava sendo delegada sem que tivéssemos muito controle do nosso próprio trabalho, pulamos fora. Não que a via independente seja o melhor caminho para qualquer banda, mas foi a melhor opção para a gente", pondera Lucas.

"Eu sou a maré viva" é o segundo disco produzido pelo vocalista - "Infinito" é o primeiro -, algo que para Lucas teve influência direta na evolução musical do Fresno que se ouve no EP. "A evolução é uma obrigação em qualquer área de trabalho, é o que acontece quando se faz o que gosta, com preocupação com o resultado. Estamos, todos da banda, sempre buscando algo novo, tocar melhor, cantar melhor, sem prender as fórmulas que deram certo. O fato de eu produzir nosso trabalho permite que a gente imprima de forma direta o que entendemos por música, bem como a que viemos e o que queremos representar como banda", diz.

Segundo Lucas, a opção por um formato com menos faixas também contribuiu para a expressão da identidade do Fresno. "É um golpe muito mais rápido e direto, resume em cinco músicas o que estamos pensando, algo que é desafiador e instigante. É uma continuidade do que fizemos com 'Infinito', um aprofundamento do trabalho dentro do rock, só que mais pesado, com mais foco e com uma mensagem que aparece logo nos primeiros 15 minutos", comenta o artista, que assina o som ao lado do baterista estreante Thiago Guerra, Gustavo Mantovani (guitarra) e Mário Camelo (teclado).

O EP foi gravado no estúdio montado em um sítio no interior de São Paulo, algo que, para Lucas, influenciou decisivamente para os rumos musicais que o trabalho tomou. "Ficamos imersos em uma atmosfera mais pura e introspectiva, gravamos sem saber ao certo o que cada música seria, sem ensaiar muito. Gravávamos e chegávamos a resultados muito bons, a ponto de dizermos: 'mano, é isso'. De uma maneira menos lisérgica, menos estressada, com uma paz a que não se chega no centrão", opina o músico.

Um dos resultados de destaque desta introspecção é "Manifesto", que já começa grandiosa, com participação especial das cordas de Lucas Lima, com frequência reduzido injustamente ao posto de marido da Sandy. Em tom que lembra trilha sonora de filme de ação, a música segue em tom crescente, sofrendo uma queda brusca apenas para que se ouça a troca de versos entre Lucas e Lenine, em um dueto harmônico de vozes. No refrão, as cordas e a guitarra voltam com força, e, depois dele aparece, em mais uma participação especial e inusitada, Emicida.

Com sua voz característica e seus versos de contestação, que completam o tom de protesto ao longo de toda a música, o rapper também encerra quase de maneira metalinguística a canção que une tantos talentos distintos. "Só existe uma maneira de se viver pra sempre, irmão. / É compartilhando a sabedoria adquirida e exercitando a gratidão, sempre." "Estamos todos em momentos parecidos, de termos alcançado um certo sucesso, e querermos uma ampliação artística. Tanto o Lenine quanto o Emicida batalham muito contra isso, rótulos que são atribuídos aos artistas, muitas vezes sem que eles tenham conhecimento ou queiram carregar", observa Lucas.

Ainda sobre rótulos, o vocalista destaca que o novo EP representa o desprendimento total do Fresno em relação a uma necessidade de provar alguma coisa ao público, aos críticos, ao mercado fonográfico e a quem quer que seja. "Durante algum tempo, tivemos essa motivação, de mostrar que éramos mais do que mais uma banda pop, como costumavam nos pintar. Foi um movimento até necessário na época, mas hoje vejo que é um sentimento meio baixo, uma motivação não muito elevada para se fazer música. Com uma visão ampla das coisas e mais experiência, não queremos ou precisamos provar nada a ninguém. O disco acaba sendo um manifesto contra tudo que tem uma duração, fica na superfície. É a valorização do que estava dentro de todos nós e saiu de uma casca que só permitia que fizéssemos o que esperavam do nosso trabalho", diz Lucas, acrescentando que a banda planeja, agora, gravar e lançar um DVD ao vivo de sua carreira, além de ter em vista a remixagem de "Eu sou a maré viva" por artistas da cena eletrônica.

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