Publicidade

18 de Abril de 2014 - 06:00

Em tempos de sucessos fugazes, prêmios, regravações e lançamentos inéditos de artistas veteranos na música confirmam perenidade de algumas canções

Por MAURO MORAIS

Compartilhar
 
Orquestra Cassino Royale revive eternos clássicos em apresentação amanhã, às 22h, no Círculo Militar
Orquestra Cassino Royale revive eternos clássicos em apresentação amanhã, às 22h, no Círculo Militar
Vox Dey comanda baile, no dia 22, às 21h30, na sede social da ASE
Vox Dey comanda baile, no dia 22, às 21h30, na sede social da ASE

"Nunca" conheceu o sempre. A canção de Lupicínio Rodrigues, lançada em 1952 e interpretada por Zizi Possi, Adriana Calcanhotto, Sueli Costa, Fagner, Joanna, além do próprio compositor, permaneceu e resistiu ao tempo, com seus versos - "Saudade,/ diga a esse moço, por favor/ como foi sincero o meu amor/ quanto eu o adorei tempos atrás" - lembrados ainda hoje. Expoente da era do rádio, nos anos 1940 e 50, período de grande produção musical no Brasil, a composição é uma das muitas que continuam a ocupar o imaginário coletivo, junto de seus intérpretes. Em tempos de hits efêmeros - ligeiros como os novos artistas que, em sua maioria, ganham a internet e logo desaparecem -, criações de gerações passadas seguem cheias de fôlego. Vencedor nas categorias de melhor cantor e melhor álbum por "Minha serenata", de 2012, no 24º Prêmio da Música Brasileira, de 2013, Cauby Peixoto (ver entrevista no link ao lado) é novamente indicado na edição desse ano, dessa vez pelo disco "Reencontro", que gravou com Angela Maria, também indicada como melhor cantora. Ícone da Jovem Guarda, o eterno parceiro de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, também acaba de lançar o CD de inéditas "Gigante gentil", que promete o mesmo sucesso dos anteriores "Rock'n'roll" e "Sexo", responsáveis por sua aproximação com os jovens.

Como os sonhos de Milton Nascimento em "Clube da esquina nº 2", algumas canções nunca envelhecem e continuam enchendo as pistas em apresentações de bandas que se voltam aos grandes sucessos de um passado que ainda é presente. "Hoje não existe música, ninguém sabe fazer música, a não ser a velha guarda que está aí até hoje, como Chico Buarque e Caetano Veloso. É tudo muito descartável e, se dura quatro meses, é muito. Nem toco porque não vale o trabalho de escrever e depois jogar fora, porque ninguém gosta mais", afirma o maestro José Apolinário, à frente da Orquestra Cassino Royale.

"Melhoramos em termos de harmonias, que hoje são mais complexas, mais elaboradas, o que é um legado deixado pela bossa nova. As músicas dos anos 1960, principalmente as da Jovem Guarda, tinham melodias muito simples. O som também é muito mais agradável do que há 40 anos, porque o que existe de instrumental hoje é tudo de primeira linha", comenta o baterista da banda Vox Dey, José Luiz Gaio. "Nesse aspecto, da técnica e da harmonia, a música melhorou, mas em outros setores perdemos um pouco. Hoje as músicas são descartáveis, antes isso não acontecia", completa o músico da banda que toca, em bailes, sucessos das décadas de 1970 a 1990.

 

Resistindo ao tempo

Criada na década de 1970, com o intuito de acompanhar intérpretes nos festivais de Juiz de Fora, a Orquestra Cassino Royale não conseguiu parar, escrevendo seu nome na história da música local como uma das mais longevas big bands. "No início, foi difícil cumprirmos todos os contratos. Logo em seguida, com a chegada da discoteca, sofremos um baque. Mas, como tudo é passageiro, voltamos e viajamos muito pelo Brasil", conta José Apolinário, que se recorda de uma agenda sempre lotada, com apresentações às sextas, em bailes pela cidade, aos sábados, quando viajavam pelo país, e nas domingueiras locais.

Composta por mais de 20 músicos, a orquestra reúne quinteto de saxofones, bancada com três trombones, outros três trompetes, piano, baixo, guitarra, bateria, duas ladies e um crooner. No repertório estão desde os standards americanos até o forró tipicamente brasileiro, passando por fox, mambo, românticas e até músicas sertanejas. "Quando nos propomos a tocar para um público amplo, precisamos nos preparar para executar todos os gêneros musicais", explica o maestro, dizendo não poder faltar "Moonlight serenade", "New York, New York", "In the mood", e clássicos de Dolores Duran e Nelson Gonçalves.

Como todo grupo voltado para canções que não apenas marcaram épocas, mas histórias pessoais, a orquestra, que toca nesse sábado, às 22h, no Círculo Militar, guarda muitos casos capazes de justificar a eternidade de algumas composições. Uma delas é a de uma amiga do conjunto, que, convidada pelo pai a assistir a um show da orquestra, recusou-se de início por achar chato. "Ela acabou indo e, em meia hora, já estava de flerte com um rapaz. De repente tocamos 'New York, New York' e depois 'Emoções'. Ela ficou entusiasmada, chamou o rapaz para sua mesa. Passados oito meses, eles já estavam casados", destaca Apolinário.

Nos bailes do Vox Dey, que se apresenta no próximo dia 22, na sede social da ASE, acontece o mesmo. "O tempo todo no baile as pessoas chegam para pedir alguma música ou para contar: quando conheci minha esposa eu escutava essa música", aponta José Luiz Gaio. Surgida no final dos anos 1960, a banda chegou a parar em 1981, mas não resistiu e voltou nos anos 2000, com dez músicos, incluindo dois cantores, baterista, guitarrista, violonista, tecladista, contrabaixista, saxofonista, trompetista e trombonista.

Assim como o público fiel, os integrantes também viram os anos passarem, os filhos crescerem, e o gosto musical permanecer. "Não adianta tocarmos o último sucesso de uma dupla sertaneja qualquer porque nosso público quer ouvir músicas que tocavam durante a década de 1970, quando tínhamos entre 17 e 20 anos", diz o baterista, que toca de Rolling Stone a Elvis Presley, sem deixar de lado Frank Sinatra e Creedence. "Na década de 1970, o que fazia sucesso no Brasil era a Jovem Guarda, que começou por volta de 1965. O Roberto Carlos estourou na época dos Beatles. Renato e seus BlueCaps estão aí até hoje, como Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso e muitos outros. Junto com isso, tinha o movimento da bossa nova, e começava o Tropicalismo. Os anos 1970 foram os mais ricos da música nacional", comenta.

E, se o tempo passou, o que não passou foi o prazer do imprevisível nos palcos. "Com toda a tecnologia que hoje existe, damos preferência ao 'ao vivo'. Não temos nenhum sampler, nenhum play back", pontua, demonstrando que, à despeito do encantamento pelo momento, a produção musical de décadas passadas não foi coisa de momento.

 

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que os resultados do programa "Olho vivo" vão inibir crimes nos locais onde estão as câmeras?