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12 de Julho de 2014 - 20:45

Vitrine de loja feminina com obras da artista Fani Bracher chama atenção para experiências estéticas do cotidiano

Por MAURO MORAIS

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Bordados de Fani Bracher integram vitrine em pleno Calçadão
Bordados de Fani Bracher integram vitrine em pleno Calçadão

Atrás de manequins, sapatos, bolsas e outros acessórios, estão três trabalhos da artista mineira Fani Bracher. Enquanto as modelos estáticas dividem espaço com as obras em uma vitrine, bem à frente, Juiz de Fora pulsa e não para, vendo milhares de pessoas passarem pela Avenida Rio Branco e pela Rua Halfeld. Assim como a tradicional loja de roupas femininas expõe, de forma integrada, trabalhos artísticos e produtos para consumo, muitos são os meios a se apropriar da arte, oferecendo experiências estéticas fugazes e cotidianas. Ainda que uma questão polêmica, esse contato quase profano com a arte se configura como vivência inédita para diversas pessoas, que nem sequer conhecem uma galeria ou um museu.

De acordo com o filósofo e professor do curso de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Verlaine Freitas, "nossa percepção de mundo é sempre estimulada por aquilo que aprendemos a apreciar e julgar ao longo do tempo". "Toda a arquitetura dos prédios, casas e demais edificações, bem como a organização urbanística das cidades, tudo isso fornece modelos de compreensão do que é aceitável ou não, normal ou aberrante. Em grande medida, embora não totalmente, aprendemos a gostar das coisas através da frequentação a elas, e mesmo nossas divergências em relação a um gosto mais compartilhado sustentam-se por essas mesmas experiências com os objetos em nosso meio ambiente", analisa.

Autor do projeto "Pontos de arte", em parceria com Thiago Campos, o artista visual Lúcio Rodrigues começou, em 2006, a pintar pontos de ônibus da cidade, em um primeiro momento com quadros clássicos da história da arte brasileira e mundial. "A ideia era preencher esses espaços públicos, comungando com as pessoas o nosso gosto pela arte", conta ele, que recebeu o patrocínio da Lei Murilo Mendes para a execução inicial e restauração. A convite da Prefeitura, Lúcio também pintou outros 50 abrigos com trabalhos autorais, usando pincel e spray em imagens entre o psicodélico e o surreal. Localizados, na grande maioria, entre o Centro e a Zona Norte, os pontos ofereciam releituras como a de "O grito", de Edvard Munch, situado na Rua Henrique Burnier, no Mariano Procópio.

Passados cinco anos do Prêmio Gentileza Urbana, do departamento de Minas Gerais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG), que coroou o projeto de Lúcio e Thiago, cujo âmago era ofertar experiências mais aprazíveis em lugar de passagem, do trivial, muitos pontos já não existem ou tiveram a pintura apagada. "Quando passo e vejo, sinto muita vontade de restaurar, mas infelizmente não tenho recursos para isso", comenta o artista, que ao longo de sua trajetória sempre preferiu as ruas às galerias. "Considero-me um artista popular, meu trabalho vem do autodidatismo, e acredito muito que a arte pode sensibilizar as pessoas. A arte ameniza a vida."

"As pessoas têm uma tendência a segmentar a vida: arte é uma coisa, comer é outra, trabalhar é outra. Na verdade, isso é uma grande bobagem que um dia foi adotada por alguém, e as pessoas seguiram porque, talvez, seja mais fácil classificar que viver tudo conjuntamente", defende a artista e professora do Instituto de Artes e Design da UFJF Sandra Sato. Segundo ela, a crença de que é possível fruir a arte nas ruas ou em quaisquer outros lugares está acompanhada da extinção de que existe alta e baixa cultura. "O papel de um educador, professor ou artista é o de abrir os canais das pessoas, por isso é tão importante passar pela educação formal. Porém não sabemos mais que um leigo, talvez só tenhamos sido mais preparados para observar essas informações que estão na nossa cara. Esta hierarquia não existe: Um professor não é melhor que um aluno, apenas tem uma vivência que oferece como possibilidade", argumenta.

Se para os mais puristas, ver a arte associada à publicidade ou em espaços que não são de contemplação sugere vulgarização, para o procedimento contemporâneo, a democratização desse acesso apenas reconhece a arte como prática natural do ser humano. No ensaio "Pequenas crises: experiência estética nos mundos cotidianos", do professor e autor alemão Hans Ulrich Gumbrecht, há uma ruptura entre o que é experiência estética e o que é experiência cotidiana, sendo que a primeira está ligada ao sublime. Para o estudioso, quando o cotidiano oferece tal aprendizado, trata-se do que ele chama de "pequenas crises", momentos que não seguem o fluxo comum. "Antes de se impor à nossa consciência, antes de interromper seu ritmo usual, trata-se de episódios onde o 'ser' de uma coisa, de uma maneira bastante literal, 'cresce em nós'", explica Gumbrecht.

"Não só os padrões tolhem nossa liberdade imaginativa, como também a sempre presente concepção de que precisamos produzir, gerar valores, aprender, obter alguma forma de satisfação etc. A vida cotidiana é marcada em quase toda a sua totalidade por querermos submeter não só os objetos, mas nossos próprios corpos, ações e pensamentos a uma relação de fins e meios, de modo que sobra muito pouco espaço para atitudes em que o jogo de nossa imaginação se faça de forma mais livre. Esse estado de coisas é sempre estimulado pela propaganda ostensiva de um estado de crise constante, de ameaça política, econômica, social e religiosa. Nesse cenário, torna-se um luxo e algo impensável para a imensa maioria das pessoas a atitude de ouvir uma música apenas pelo prazer de contemplar, sem que esteja em jogo produzir uma atmosfera sonora para outras atividades", reflete Verlaine Freitas.

Compreendendo a arte como um dos "idiomas" possíveis para a expressão, Sandra Sato defende o diálogo entre criador e espectador. "Se eu escolhi esculpir algo, ao invés de dizer por palavras, sejam escritas ou faladas, entendo que a partir do momento em que coloco para o público, é inevitável estabelecer uma comunicação. E a melhor comunicação é a que se concretiza", diz. "Para mim, não faz sentido que uma obra não tenha alcance, e prova disso é o próprio mercado. Quem são os artistas com projeção internacional entre os brasileiros? São aqueles que parecem mais claros em termos de linguagem. Pensamos em Vik Muniz, que é muito figurativo; a Beatriz Milhazes, que não é figurativa mas trabalha com padronagens, que qualquer pessoa consegue absorver; e o polêmico Romero Britto. Se ele for uma porta de entrada para as pessoas começarem a conhecer e estabelecer um olhar mais aguçado em relação às artes, que seja. Acho bom que tenha gente assim, com um apelo extremamente popular, porque isso faz com que as pessoas despertem para questões estéticas", discute. "Se tem recursos, conceito, estabelece comunicação eficiente, é ótimo, é um bom caminho, é uma ferramenta comprovadamente funcional. Penso que quanto mais claro for, mais chance criamos para as pessoas abrirem seus canais. É preciso ter o olho armado, como escreveu Murilo Mendes."


Pequenas crises ou práticas normais?

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