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16 de Março de 2014 - 06:00

Entrevista Maria Alcina, cantora

Por MAURO MORAIS

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"Sou eu, Alcina", atende a voz do outro lado da linha. "Eu sou Alcina", a primeira música do disco "De normal (bastam os outros)" (selo Nova Estação), é como a cantora Maria Alcina falando ao telefone. Risos, gargalhadas, palavrões, brincadeiras e uma sensível seriedade estão na letra escrita por Zeca Baleiro e no cotidiano simples da artista, que fez história ao vencer o VII Festival Internacional da Canção, em 1972, no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, defendendo "Fio Maravilha", de Jorge Ben. "Ninguém me tira se eu tô na roda, eu nunca saí de moda, só quero quem bem me quer. Eu sempre fui mesmo da pá virada, safada, fada fadada a ser o que sou, pois é", canta, abrindo o disco que comemora seus 40 anos de carreira e marca sua volta à rotina apertada de agenda cheia.

Observando o cenário atual da música brasileira, Maria Alcina soa mesmo muito atual. Seu figurino, colorido e cheio de detalhes como penas e brilhos, e sua postura desenvolta nos palcos, além da sonoridade que vai do rock ao baião, passando pelo samba, forró, marchinha e até funk, parecem inspirar cantoras mais jovens, como Silvia Machete, Karina Buhr (que participa do disco compondo "Cocadinha de sal"), Gaby Amarantos e muitas outras. Figura popular em outros tempos, com letras de duplo sentido - na obra que chega às prateleiras ela canta "Concurso de bichos", cujo refrão traz o hilariante verso "A ré ganha" - a cantora tornou-se cult.

Elogiada pela crítica e queridinha da cena independente da MPB de São Paulo, ela completa 65 anos em abril cantando um disco com quatro músicas inéditas, feitas especialmente para o novo trabalho, e regravações pouco conhecidas, como "O chefão", de João Bosco e Aldir Blanc, compositores que já lhe renderam a inesquecível "Kid cavaquinho". Com a participação de Ney Matogrosso, "Bigorrilho" (Paquito, Sebastião Gomes e Romeu Gentil), famoso samba-coco gravado por Jorge Veiga e, posteriormente, por Lulu Santos, também está no novo álbum. De atmosfera semelhante ao disco que marca sua estreia na música, gravado em 1973, após três compactos, "De normal (bastam os outros)" preserva a originalidade da cantora que passou longos anos longe dos estúdios, mas nunca longe dos palcos.

"Em 2003 encontrei o grupo Bojo quando fui convidada a participar do Festival Com-tradição, no Sesc Pompéia, e a coisa explodiu. Me entreguei, e eles também. Quando cheguei e ouvi o som que eles faziam me lembro de ter dito: 'Isso sou eu'. Me Joguei com tudo e resolvemos registrar. A renovação começa aí, mas muito mais por atitude, por liberdade, por espontaneidade", diz em entrevista por telefone à Tribuna a mineira nascida em Cataguases, dona de uma voz grave e postura inquestionavelmente excêntrica - antes transgressora. "De normal bastam os outros, caranguejo não é peixe, papagaio leva a fama, paquiderme só quer lama, o desgosto se discute, mas a vida é mesmo assim", canta na música feita por Arnaldo Antunes para ela, e na qual profere um palavrão ao final.

Tribuna - Como se sente, após somar quatro décadas de carreira, cantando músicas feitas especialmente para você?

Maria Alcina - O Thiago Marques Luiz, produtor do CD, foi quem falou: "Alcina, não podemos deixar passar seus 40 anos de carreira em branco". À princípio, conversamos sobre músicas que são do cancioneiro brasileiro, como o "Bigorrilho", que todos conhecem o refrão. Na hora de gravarmos o CD, como ele é um produtor atento, pensou em compositores e começou a ligar pedindo músicas. Quando as pessoas enviaram suas músicas, ficamos bastante surpresos em como esses compositores prestam atenção nos cantores.

- O disco abre com "Eu sou Alcina", do Zeca Baleiro, na qual ele tenta te descrever. Essa música te representa?

- Com certeza. Encontrei ele em um show da Rita Ribeiro e ele foi muito atencioso, gentil e amável. Quando a música veio, eu lembrei muito daquele Zeca Baleiro que encontrei nos bastidores, mas não podia imaginar que fosse me surpreender com um elogio daqueles, com uma visão tão forte da minha pessoa artística. Fiquei muito surpresa.

- A geração mais nova da música nacional te acolheu. Como isso aconteceu?

- Fiz um show recente com a Márcia Castro, a Mariana Aydar e a Trupe Chá de Boldo e fiquei encantada com eles. Tanto o meu CD "Confete e serpentina", quanto o "Agora", que gravei com o Bojo, é a cara da Trupe. Tenho um temperamento parecido com os desses jovens. Meu encontro com o Bojo marcou, foi muito forte na cena independente. Então, todos os músicos dessa cena sabem desse momento. Somos muito semelhantes e, por isso, a ligação.

- Prestes a completar 65 anos, como é cantar com essa geração e fazer parte dessa cena?

- Nasci assim. O "se jogar", essa atitude de entrega, é das pessoas jovens. Não jovem de idade, mas de mente aberta. Aí é que eu me encaixo. Gosto de experimentos, de estar junto. Gosto de música.

- Houve um hiato na sua carreira. Você encara esses recentes discos como uma renovação?

- Fiquei muitos anos sem gravar. Em 1992 gravei "Bucaneira", ainda em LP, que saiu por uma gravadora independente. Nessa época, estourava a música sertaneja, e a gravadora me disse que faria quase nada pelo trabalho, porque não adiantava, porque nada que não fosse sertanejo não aconteceria. Eu, que já estava há quase dez anos sem gravar, vivi um baque. Depois disso, fiquei mais alguns anos sem gravar até a Warner relançar meus trabalhos em CD, em 2003. Daí veio a parceria com o grupo Bojo, mas o trabalho ficou um pouco restrito, porque o grupo não sai para o mercado. Nosso encontro foi um acontecimento, mas não teve muita repercussão. Depois disso, o Maurício Bussab fez a produção do "Confete e serpentina". Fiquei quase 20 anos sem gravar, mas não registro isso como tempo. No meu registro artístico continuei a vida. Claro que agora sinto uma renovação da minha carreira por ter sido acolhida pela cena independente. Nada foi programado, foi acontecendo.

- Então você confirma o que a música "Eu sou Alcina" diz, que você nunca saiu de moda?

- Espero que sim. Espero que isso seja uma verdade, não para mim, mas para quem me ouve, porque às vezes posso achar que estou arrasando, abafando, e alguns pensam: "Essa velha aí está só enchendo o saco". Espero que nunca tenha saído de moda, mas se não for assim, tocamos a vida. (risos) Costumo dizer que tenho bons amigos, que também me empurram para frente. A internet trouxe muitos artistas para a cena, porque tem uma geração que vê a gente nos anos 1970, 1980 e quer saber quem são aqueles que aprontavam lá atrás. Por parecermos com esses jovens, acabamos sendo buscados.

- Ao comemorar 40 anos de carreira, também há um marco de sua saída de Cataguases, de Minas Gerais. Quais são as suas lembranças da cidade que deixou?

- Sempre falo que sou uma pessoa muito feliz artisticamente porque tenho uma base, que é toda de Cataguases, cantando na escola, na igreja, no parque, me envolvendo com poetas, escritores, cantando em festivais, sempre cantando em Juiz de Fora, Muriaé, com minha turma de Cataguases. Na verdade, eles estão junto comigo a todo tempo. Tenho um chão, um começo. Cataguases está junto comigo e vai junto para sempre. É bonito ter começado assim.

- Cataguases é muito conhecida pelo modernismo, por uma revolução estética. De que forma ela está em seu trabalho?

- Está como a base mesmo, até de amizades. Quando estava no Rio de Janeiro e precisei de apoio, de aconchego, tive amigos como o Ronaldo Werneck, um escritor, que me ajudou muito me dando guarida. Só percebemos o quanto isso é importante depois, na caminhada. Saí de Cataguases ainda muito menina, com apenas 17 anos, com a música. A música é a minha companheira, e, em alguns momentos, precisei de um aconchego real, e isso é Cataguases para mim. A cidade vai estar sempre em minha história.

- Observando seus discos existe uma grande coerência. Você sempre perseguiu isso?

- O diálogo é muito forte porque quando eu não gravei não fiquei afoita. Eu não pensava nisso, só em trabalhar, em cantar onde tivesse lugar para cantar. Fui levando minha vida. O que está impresso no meu trabalho é a minha vida, por isso tem a coerência. Quando era para desabar, desabou. Quando era para fazer sucesso, tudo ficou legal também. Por isso, existem essa força e esse sabor.

- Como surgiu esse jeito extravagante, essa natureza carnavalesca?

- Acho que isso é da pessoa e assim você encontra, pela vida afora, os seus parceiros. Essas ideias não vêm de hoje, vem lá do Rio de Janeiro, de 1972, quando os figurinistas me falaram: "Alcina, você vai trabalhar em uma casa, o Number One, que é um lugar aonde as pessoas chegam chegando. Se você ficar lá de bonitinha, de 'nhem nhem nhem', vai passar batida, despercebida". Eles faziam umas roupas extravagantes, cheias de pontas, pintadas. Eu olhava, vestia as roupas e depois de maquiada falava: "Essa não sou eu". E começava a chorar. Depois pensei: "Quem é essa? Vamos ver quem é. De repente essa aí rola". A pitada do carnaval é porque tem uma coisa de vedete no meu trabalho e, quando carnavaliza, fica perfeito com meu temperamento. Quando falavam de carnaval comigo era mais pejorativo. Hoje é diferente. Quero mais é que falem, quero mais é representar essa linguagem, essa festa. ("Pode me chamar de carnaval", canta, referindo-se à última música do CD, "Dionísio, Deus do vinho e do prazer", de Péricles Cavalcanti).

- O Zeca Baleiro deu sua versão do que é ser Alcina. Se fosse você a escrever "Eu sou Alcina" o que diria?

- Muitas pessoas têm ido assistir ao show do CD cantando praticamente todas as músicas. Isso é fenomenal, um prêmio para uma cantora. Quando as pessoas cantam "Eu sou Alcina", seja homem, mulher, criança, senhores, senhoras, eu ouço um grito de guerra. Sou um pouco de todo mundo.

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