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20 de Março de 2014 - 06:00

Releituras da obra de Frans Post, pintor neerlandês que retratou o Brasil durante o governo de Mauricio de Nassau, compõem 'Múltiplos olhares', exposição de Pedro Guedes

Por MAURO MORAIS

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Exposição de Pedro Guedes, que deverá excursionar pelo país este ano, apresenta legendas em braile e visitas guiadas com audiodescrição
Exposição de Pedro Guedes, que deverá excursionar pelo país este ano, apresenta legendas em braile e visitas guiadas com audiodescrição

No quadro "Restaurando Post", uma moldura velha e dourada orna a tela, de onde se desprende uma pintura de Frans Post, neerlandês convidado por Maurício de Nassau para retratar o Brasil em 1637. Atrás da reprodução, uma fotografia do verso da obra setecentista cheia de cupins e uma ampliação de parte da cena sendo restaurada por uma mão anônima. Ainda na tela, aparece, pendurada em uma corda, uma lupa que amplia a porção na qual se encontra, e no canto inferior esquerdo, um relatório do material em recuperação. "Faltava uma ideia. Achava que o espaço havia ficado muito vazio. Foi quando ouvi uma barulhada e perguntei ao meu filho o que estava acontecendo. Eram mais de 30 tucanos fazendo uma algazarra na árvore perto da minha casa. Assim, tive a ideia de colocá-los na tela. Faltava um toque surreal para fazer a diferença de planos", conta o artista Pedro Guedes, que, entre o surrealismo de presenças improváveis e o hiper-realismo de cenas meticulosamente bem delineadas, compôs "Múltiplos olhares", exposição que inaugura nesta quinta-feira, às 20h, no Espaço Cultural Correios.

Então um jovem de 25 anos, com trabalho ainda pouco conhecido, Frans Post desembarcou no Brasil com a tarefa de documentar a topografia, a arquitetura, as cenas de batalhas e todo o exotismo da terra pertencente à Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Com olhar sensível, o artista não se rendeu a sensacionalismos, demonstrando grande encantamento pela vasta vegetação e pelos muitos mares de morros. "Ele foi o primeiro a retratar o Brasil para a Europa. Para mim, ele foi o primeiro fotógrafo do Brasil", comenta Pedro, que em seu retrato de Post insere uma câmera fotográfica no pescoço do pintor. "O Post tem um clima luminoso em seu trabalho. Ele mostrou um país feliz. A violência dele é muito velada. É interessante perceber que os personagens que ele insere estão em um contexto de harmonia com o espaço físico, com a natureza", completa.

Ao revisitar imagens históricas, Pedro não se basta na reprodução, inserindo elementos surreais que, em alguma medida, fazem parte da própria vida do artista. Como a tela na qual pinta uma cena de Post sobre uma tela ao avesso e desenha uma borboleta absolutamente real. Ou no maior quadro da mostra, onde se vê outra paisagem de Post ornada pela pintura de esculturas indígenas e, ao centro, uma garota (sua sobrinha) a observar a obra. "Cada tela tem uma história pessoal por trás. Cada uma tem uma composição diferente. Deixo livre para a ideia surgir", conta.

De acordo com o professor do Instituto de Artes e Design da UFJF e curador da exposição, José Alberto Pinho Neves, as pinturas de Pedro Guedes se aproximam de um discurso de humanidade ao inserir elementos pessoais no processo de releitura. "Veja na obra dele a recuperação da memória da infância. Ele ressignifica o tempo dando seu próprio depoimento e, assim, embaralhando o tempo passado e o tempo presente", analisa.

 

 

Retornar à figuração

Segundo o curador, apesar de o resultado se assemelhar ao surrealismo, é eminentemente surracionalista, já que existe uma consciência em relação às inserções de elementos a priori improváveis. A alcunha do filósofo francês Gaston Bachelard propõe a relação entre razão e sensibilidade, características que parecem saltar aos olhos em "Múltiplos olhares", demonstrando a força presente na pintura e no trabalho figurativo. Em tempos contemporâneos, nos quais muitas das obras de arte argumentam de maneira hermética e se reduzem a traços toscos ou a objetos deslocados de seu lugar simbólico, retornar à figura parece gesto de resistência. "A criação contemporânea dialoga muito com o dadaísmo, com um processo aleatório. A retomada da figuração, então, é bastante propícia", comenta Pinho Neves.

Autodidata, Pedro Guedes demonstra vigor impressionante nas imagens, inserindo a sombra e as luzes com exatidão, oferecendo quase que uma fotografia. Para o artista, o fino acabamento é reflexo de seu temperamento. "Sempre fui assim, sempre procurei trabalhar com bons materiais, prezando por cada detalhe", diz ele, que passa, em média, cem horas diante de cada tela, num ritmo de trabalho que pode ocupar dez horas de seu dia. E o processo de suas pinturas, todas feitas a óleo, em linho sobre madeira - "É uma forma de fortalecer a pintura, pois pintando só sobre a tela ela acaba apresentando ranhuras. A tela, no verão, estica e, no inverno, faz uma barriga" -, também integra a exposição.

Da tela em branco contendo um esboço em grafite até a obra finalizada, todos os passos foram registrados em fotografias. "Ele tem um processo de construção muito veloz e surpreendente", elogia o curador. Pedro Guedes demonstra nas releituras de Frans Post um exato domínio da técnica e um substancioso conhecimento da história da arte, o que lhe permite referências em nada gratuitas, como os versos dos quadros que aparecem na maioria das obras de "Múltiplos olhares". "Isso ajuda a criar uma identidade entre as obras, além de me oferecer margem para utilizar outros elementos", aponta. Conforme Pinho Neves, Pedro alcança a contemporaneidade por outras vias. No diálogo que o pintor estabelece com o passado e no alcance de uma linguagem original, com um tom beirando o biográfico, desvela outras nuances de uma atualidade múltipla.

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