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04 de Abril de 2014 - 06:00

Indicada ao Prêmio Shell pelo texto de Rodrigo Portella, 'Antes da chuva' aborda história de amor e está em cartaz hoje e amanhã

Por JÚLIA PESSÔA

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Bruna Portella e Luan Vieira conduzem a carga emotiva da peça sem elementos cênicos
Bruna Portella e Luan Vieira conduzem a carga emotiva da peça sem elementos cênicos

"A peça se passa em um povoadozinho de certa forma localizado em uma região tropical, onde a chuva determina o tempo. Todos os encontros e as histórias acontecem antes ou depois da chuva, que pontua o início e o fim das coisas." É com esta delicada metáfora entre o tempo cronológico e o meteorológico que o diretor Rodrigo Portella explica o título de "Antes da chuva", peça da Cia. Cortejo, de Três Rios (RJ) que estará em cartaz hoje e amanhã no CCBM, às 20h, em uma espécie de minitemporada juiz-forana, após abrir o Festival Nacional de Teatro da cidade no ano passado. Até o fechamento da edição, os ingressos de sexta estavam praticamente esgotados e não havia mais disponibilidade para o sábado, o que poderá brindar o público com sessões extras, a serem confirmadas pelo CCBM (3690-7052, das 9h às 21h).

No palco, a atriz Bruna Portella - que não por acaso tem o mesmo sobrenome de Rodrigo, com quem é casada- e o ator Luan Vieira interpretam Ana e Aramís, cujo romance atravessa anos e é delineado sempre pela espera e pela persistência. "Uma das coisas interessantes é que costumamos ver a mulher nesta posição romântica, esperando por um grande amor, mas, neste espetáculo, é o amor deste personagem masculino que subsiste ao longo dos anos", explica Rodrigo, destacando que a peça é, essencialmente, uma história de amor.

"A Ana tem uma profundidade inerente a ela, sonha demais e é muito impulsiva. Ela quer muito mudar de vida, sair de onde está, virar a realidade em que se encontra", explica Bruna Portella, destacando o paradoxo entre a personagem e seu par amoroso, como também destaca Luan Vieira. "O Aramís vive mergulhado nos livros e é isso que encanta a Ana, mas ainda que ele acesse a diversos outros universos por meio da leitura, ele é mais 'pé no chão' em relação à vida, mas romântico em relação ao amor pela Ana."

Para Rodrigo Portella, que também assina o texto, indicado ao Prêmio Shell de Teatro, um dos mais relevantes do gênero no país, a espera é o elemento narrativo que aproxima duas obras que nortearam sua escrita, "Amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Marquez, e "O leitor", de Bernhard Schlink, que culminou no longa homônimo por qual a atriz Kate Winslet recebeu seu primeiro Oscar. "De fato, não sei como juntei as duas obras quando escrevi, mas refletindo sobre isso posteriormente, cheguei a conclusão que é esse vínculo amoroso por anos a fio que as une, para encontros que só ocorrem muito tempo depois, acho que aí que está a interseção", comenta o autor.

 

Outro aspecto fundamental do texto é que ele incorpora fatos, referências e memórias pessoais dos integrantes da companhia: suas próprias histórias de amor, uma tia-avó que não sabe ler, uma índia peruana que desceu o Rio Amazonas com os 15 filhos para fugir do próprio marido, caixas com bilhetes e memorabilia, casais de pais e amigos, unidos e separados. "A dramaturgia assinada pelo Rodrigo é fruto de uma mescla de experiências dos atores e de pessoas próximas com as suas próprias histórias, revisitada pela visão de mundo de cada um de nós durante todo o processo de montagem. São histórias que em nenhum momento são puramente ficcionais, ainda que contadas de forma fantasiosa. Tudo o que está dito em todo o texto nos é latente e imprime nos atores uma pulsação real, que verdadeiramente lhes pertence", observa Leo Marvet, que codirige o espetáculo.

 

 

Desafio interpretativo

Sem cenário, objetos cênicos e com iluminação e trilha sonora minimalistas, todo o foco emotivo de "Antes da chuva" recai sobre o texto e os atores Bruna e Luan, escolha dramatúrgica conjunta da equipe. "Desde 1999, venho fazendo uma pesquisa para tentar criar um espaço no teatro onde tudo vem da palavra, da narrativa, como em um livro onde tudo é imaginado. Neste espetáculo, a casa, o cais, o armazém, tudo é criado por meio texto com o trabalho dos atores e a imaginação do espectador", pontua Rodrigo Portella.

"A ideia era saber se era possível fazer um bom espetáculo sem dinheiro, partindo do zero, contando apenas com o próprio corpo, trabalho e tempo como investimento inicial. Desdizer a falácia de que não se fazem trabalhos de qualidade por falta de investimento é quebrar um círculo vicioso que aprisiona os artistas. Queríamos a liberdade de ensaiarmos em um espaço qualquer, de entrarmos em um carro ou mesmo ônibus e levarmos a peça pra qualquer destino", completa Leo Marvet, destacando o único elemento cênico mantido: um livro, como representação simbólica do que seria o essencial ao teatro além do ator, o texto.

Para Bruna, a decisão foi um desafio instigante para a Cia., que direcionou o trabalho dos atores e da direção. "Nas propostas de cena, geralmente levávamos objetos e instrumentos que foram sendo eliminados para que nos mantivéssemos fiéis a esta iniciativa de radicalizar na interpretação e na dramaturgia, e a peça foi sendo adaptada para atender a estes fins, bem como nossa preparação de voz e corpo." "Sinto-me mais responsável pelo espetáculo porque os olhos estão, mais do que nunca, sobre os atores. Construímos em cima do texto, e o público só poderá ver o que podemos transmitir para eles, sem dispersão interpretativa para outros elementos", acrescenta Luan.

Além de ser a primeira encenação fora de um evento de teatro na cidade, as apresentações deste fim de semana estreitam de outra forma as relações entre a Cortejo e Juiz de Fora, com a gravação do primeiro DVD do espetáculo. "Teatro gravado é aquela coisa meio estranha né? (risos). Mas é uma recordação deste espetáculo e a possibilidade de inserir legendas em outros idiomas e inscrever a peça em festivais do exterior", explica Rodrigo. "Além disso, uma das melhores apresentações de 'Antes da chuva' que fizemos foi no CCBM, no ano passado. O espaço intimista e a ótima receptividade do público e dos responsáveis pela casa foram, sem dúvida, fatores essenciais na escolha do local de gravação do DVD", destaca Leo Marvet.

 

 

Portas abertas para a força do interior

O texto de "Antes da chuva", de Rodrigo Portella, recebeu a segunda indicação da jovem Cia. Cortejo, fundada em 2009, ao Prêmio Shell de Teatro, um dos mais importantes da dramaturgia nacional. A primeira foi conquistada na montagem de estreia do grupo, "Uma história oficial", que teve os atores da cidade Tairone Vale, Marcos Bavuso e Lívia Gomes no elenco, e foi indicada pela direção de Rodrigo.

Para ele, estar entre as nomeações do Shell é uma chancela importante não só para os espetáculos isoladamente, mas para o trabalho do grupo. "No teatro brasileiro, há muita gente trabalhando e pouco espaço para todo mundo. Não é como o cinema, que está florescendo, cheio das expectativas e com mais apelo popular. Com isso, os grandes promotores de festivais e iniciativas em geral não conseguem assistir a todas as peças, e uma indicação para o Shell é um selo, mostra que aquele trabalho tem um diferencial em relação à maioria do que está sendo oferecido. É claro que isso dá muita visibilidade e abre muitas portas."

Parte destas conquistas já estão refletindo nos caminhos trilhados por "Antes da chuva", que se apresentará para um público de cerca de quatro mil pessoas no Viradão Cultural de São Paulo; foi selecionada para o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP), um dos mais relevantes do país, e fechou um contrato com o Sesc-RJ para circular por quase todas as suas unidades fluminenses. "Estamos em um momento muito positivo, de ver coisas muito boas acontecendo para um trabalho que vem sendo construído há cinco anos. No caso da minha carreira, um trabalho de 20 anos, que só agora ganhou tal visibilidade (risos)", comenta o diretor.

 

Sediada logo aqui ao lado, a pouco mais de 60 km de Juiz de Fora, na simpática cidade de Três Rios, a Cia Cortejo fez uma opção logística e criativa de fincar raízes no interior. "A disponibilidade das pessoas, instituições e espaços físicos mesmo é muito maior, e estar fora de centros como Rio e São Paulo também evitou que fôssemos 'contaminados' pelo pensamento coletivo, pelas tendências de trabalhos feitos nestas cidades, permitindo que tivéssemos uma identidade mais forte", opina Bruna Portella.

Segundo Rodrigo Portella, que estudou na UFRJ e morou no Rio por anos, a possibilidade de ter uma companhia que fosse, de fato, profissional, só veio com o então retorno a Três Rios, onde nasceu, cresceu e começou a fazer teatro. "Isso reflete diretamente no trabalho que fazemos, porque pudemos nos aprofundar na pesquisa e elaboração dos espetáculos. No Rio, eles eram muito afetados porque um ator ia fazer TV, ou ia para uma companhia patrocinada para a Petrobrás. Em Três Rios, foi possível viver de teatro, o que acabou se refletindo na temática das duas montagens do grupo, ambientadas em pequenas cidades, algo que também se confunde com a minha história", destaca o diretor, reforçando seu apreço por Juiz de Fora, onde construiu vínculos de amizade e trabalho.

"Quando voltei para Três Rios, o teatro da cidade estava um tanto parado, enquanto a dança estava em alta produtividade e outros movimentos culturais como o carnaval, por exemplo, passavam por uma retomada. Então, dirigi "As bruxas de Salem" em Juiz de Fora a convite de uma produtora e me encantei pela paixão com que as pessoas que fazem teatro na cidade se dedicam a ele, ainda que não vivam integralmente disso."

 

ANTES DA CHUVA

 

Hoje e amanhã, às 20h

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200)

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