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21 de Junho de 2014 - 06:00

Entrevista / Rogério Batalha, poeta e letrista

Por MARISA LOURES

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Batalha lançou, em Juiz de Fora, os livros
Batalha lançou, em Juiz de Fora, os livros 'A medida do sal', 'Cidade fundida' e 'Inventário'

Quando prefaciou "Malícia", (1998), Waly Salomão tentou alertar sobre seu autor: "Este poeta eu queria que vocês tomassem cuidado!/ Ele é bom e por isso é perigoso!/ Ele deveria andar com uma placa indicando/ Danger: o perigo". Depois veio "Bazar barato" (1999), e o recado dado por Antonio Cícero: "Confundem-se os fluidos vitais desse Rio realimaginário de megalópole do terceiro mundo em final de milênio, onde o cosmo está em carne viva. Exulto. Graças ao poeta, alguma coisa já não é a mesma na cidade em que vivo."Também Ricardo Oiticica não conseguiu ficar ileso e falou sobre "Melaço" (2002). "O melaço de quando cana. O melaço enquanto sangue. O mel, enfim, do bagaço. É esse desvio semântico - de cana, mel e bagaço - que deixa Batalha de fora da lira edulcorada que se lê por aí."

Contando com a chancela de pesos-pesados da cultura brasileira já nas três obras de estreia, Rogério Batalha (o sobrenome veio do avô materno, sergipano do município de Lagarto) seguiu escrevendo, ainda que publicando de maneira independente com tiragens que não passavam dos cem exemplares. Na parceria que se inicia com a editora TextoTerritório, comandada pelo professor da UFJF Alexandre Faria e o poeta Oswaldo Martins, ele bota na rua três títulos: "Cidade fundida" (85 páginas), "Inventário" (85) e "Medida do sal" (91). O primeiro é um poema que havia ganhado as páginas apenas de uma publicação universitária. O segundo reúne textos dos outros livros já publicados, incluindo "Anfíbio" (2005). Escrita direta, leitura ágil e um autor de palavras cortantes. "os cambaus, esse mundaréu é meu!/perebento e muquirana é a mãe!/ eu não sou do seu naipe! eu tenho gogó mermão! anchova é o caralho/eu sou é anchova de dentes afiados!", sentencia Batalha em "Inventário". Já 'Medida do sal' revela um letrista. "Baluarte", "Caso perdido" e "Balé do fogo" são alguns dos 40 escritos de Batalha musicados por parceiros do samba, como Moacyr Luz, Roberta Nistra, Agenor de Oliveira e Dú Basconça.

Rogério Batalha é de Miguel Couto, Baixada Fluminense, e repudia a visão estigmatizada de Rio de Janeiro "cidade partida". "Jamais acreditei na visão bipartida da cidade e como essa 'visão sociológica' a enxerga. Acho que o fazem ora por pouca intimidade com ela, ora por serem mal intencionados mesmo. Eu não, eu sempre a vi amalgamada", afirma ele, que é crítico ao versar sobre a urbe. "envenenada a cidade vai à cata de formicida. sua pele é mesmo um formigueiro. da tinta ao ácido a cidade tenta seu salto". Porém, também é terno e se rende aos prazeres que ela proporciona. "sim. vamos a todo vapor meu grande amor. minha flor de manacá. minha boneca bailarina. meu pé d'água. meu beijo roubado. você não entende que sou sapo? minha lanterna. minha labareda. meu bate-papo animado."

 

Tribuna - Como nasce sua escrita?

Rogério Batalha - O meu deslumbre pela escrita vem da Música Popular Brasileira e da sua refinada qualidade poética, ouvi muito quando era adolescente (por volta dos 15), Chico, Caetano, Aldir, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho, Cartola, Guilherme de Brito, Noel Rosa. Só uns dois anos depois vieram os poetas Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Drummond, Vinicius, João Cabral, Pessoa, Rimbaud, Eliot, Maiakovski, Pound e por aí vai...

 

- Escreve pensando no leitor? Quer atingir a massa?

- Nunca pensei nisso, jamais escrevi um texto que seja (nem letras de música), que de antemão objetivava um determinado público, muito embora meu desejo seja atingir o maior público possível.

 

- Sua poesia foi reconhecida por nomes de peso, como Antonio Cícero, Ricardo Oiticica e Waly Salomão. Como isso aconteceu? Você já os conhecia pessoalmente?

- Primeiramente por generosidade deles. Eu os conheci através de uns poemas meus, que enviei para Waly e Cícero. Antes para o Waly, acho que em 96, que me ligou na madrugada do dia seguinte recitando um poema meu chamado "Malícia" (rs). Por coincidência, sete anos depois, esse mesmo poema foi musicado por Moacyr Luz. Já o Cícero, eu falava para o Waly que queria conhecê-lo, aí ele dizia: 'Tá pensando que o Cícero é como a gente? Ele é louco de verdade!' Aí dizia a mesma coisa para o Cícero: 'Tá pensando que o Batalha é como a gente? O Batalha é louco de pedra!' (rsrs). Depois, às gargalhadas, eu e o Cícero o indagávamos: 'Waly, o que te faz pensar que alguém possa ser mais pirado que você?' (rsrs).

 

- De acordo com a editora TextoTerritório, desde o primeiro livro publicado, você teve "a qualidade de sua poesia reconhecida por nomes que são referência na cultura brasileira, no entanto seu trabalho continuou em relativo ostracismo". Já tentou encontrar respostas para esse ostracismo?

- Ora, é claro que eu gostaria de que meus livros ou minhas músicas fossem mais conhecidas, nasci para isso! Agora não tenho muita ideia porque não são. É verdade que o meu temperamento não ajuda muito, raramente saio de casa (cada vez menos, para ficar em casa com meus filhos e esposa curtindo), também sou muito tímido, e isso não facilita a venda do peixe e tal... Bem, talvez seja um pouco disso, mas hoje prefiro acreditar que as coisas têm seu tempo.

 

- O livro "Toda poesia", de Paulo Leminski, comandou as prateleiras dos mais vendidos. Estamos vivendo um novo momento da poesia?

- Quero crer nisso, também a obra completa do poeta Waly Salomão está entre os livros mais vendidos de ficção, quem sabe?

 

- Em "Cidade fundida", você escreve: "Alimenta-se de toda guerra, circula-se da morte-novelo. Nunca existiu senão à esmo. Nunca vai senão à merda". Contudo, depois escreve que essa mesma cidade é seu sonho infantil, seu beijo roubado, seu bate-papo animado... Você é feliz com a cidade que tem?

- Claro que não, muito de nossa sociedade está em ruínas, contudo, quem tiver coragem que ouse um périplo por ela. Mesmo diante de tantas mazelas, sou um apaixonado pela cidade, e, muitas vezes, onde eles veem bueiros eu enxergo delícias e vice-versa.

 

- Você acha que estamos caminhando para acabar com o estigma de Rio de Janeiro "cidade partida"? Fiz essa mesma pergunta para o Zuenir Ventura, e ele disse que, pela primeira vez, está vendo uma política de segurança na direção certa, ainda que estejamos longe de acabar com a "cidade partida"...

- Acho que ele está equivocado de cabo a rabo, sempre esteve, aliás. Ele faz parte daquela "visão sociológica" que tão superficialmente vê a cidade bipartida, aliás, o meu livro "Cidade fundida" vê justamente de maneira oposta.

 

- A poesia deve ser engajada?

- Não acho, sempre que assim a fiz, me arrependi amargamente. Hoje, tenho mais medo de poesia engajada do que dentista, polícia e bandido. (rs)

 

- A música exige de você uma outra postura? Um outro olhar?

- Claro! Quando vou letrar alguma música do Moacyr Luz, por exemplo, não o faço como se fizesse para o Agenor de Oliveira, e assim é com todos os meus parceiros (Dú Basconça, Paulinho Lêmos, Mano Kinho e Roberta Nistra). Pois, quando componho com eles, penso em suas obras, as tradições que eles perseguem, o caminho que a melodia que me enviaram estabelece.

 

- Por que decidiu relançar suas poesias pela TextoTerritório?

- Primeiramente porque os livros antigos já não existiam e também porque a proposta editorial de meus amigos Alexandre Faria e Oswaldo Martins (editores) foi irrecusável, pelo bom gosto e pelo imenso carinho que tiveram com a minha obra. Aliás, vocês precisam conhecer os outros poetas da editora, como por exemplo Capilé e Elesbão.

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