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01 de Maio de 2014 - 06:00

ENTREVISTA/Gregório Duvivier, escritor e ator

Por JÚLIA PESSÔA

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Fundador da Porta dos Fundos falou sobre seu trabalho literário ontem em Juiz de Fora
Fundador da Porta dos Fundos falou sobre seu trabalho literário ontem em Juiz de Fora

Gregório Duviviver esteve ontem em Juiz de Fora. "Que Gregório, aquele cara do Porta dos Fundos?". Sim, o cara do Porta dos Fundos, canal de humor que mais cresce no Youtube segundo dados do próprio site, fundado por Gregório junto a outros grandes nomes atuais do gênero, como o multimídia Fábio Porchat e Antônio Tabet, do site Kibeloco. Mas Duvivier é também o cara da TV aberta, da TV fechada, do cinema, do teatro, dos roteiros para todas essas mídias (além da internet) e , embora nem todos saibam, o cara da poesia e da literatura.

A visita à cidade na noite de ontem se deu por conta desta última faceta, em um bate-papo realizado no Cine-Theatro Central promovido pela série "Grandes escritores", do Sesc, que já trouxe para cá nomes do calibre de Zuenir Ventura, Adélia Prado, Ignácio de Loyola Brandão e Affonso Romano de Sant'Anna. "Sou fã de todos. O Sesc tem muito bom gosto. Fico felicíssimo de estar no meio", diz Gregório em entrevista à Tribuna.

Além do encontro, o evento promoverá duas oficinas: "O texto escrito, o texto falado e o humor" ministrada pelo ator e diretor Felipe Saleme no dia 10 de maio, das 10h às 13h, e "Inspirações", ministrada pelo dramaturgo e também ator Rodrigo Portella no dia 11 de maio, das 14h às 17h. Ambas terão como ponto de partida o trabalho de Gregório Duvivier, sendo a primeira focada em sua atuação no humor e a segunda, em seus dois livros de poesias: "A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora" e "Ligue os pontos: Poemas de amor de Big Bang". Os interessados devem se inscrever pelo telefone 3215-1098.

Embora tenha alcançado uma fama avassaladora fazendo piada, Gregório tem uma estrada longa na literatura. Seus primeiros flertes com a escrita começaram aos 10 anos de idade, mas foi na época em que cursava a Faculdade de Letras da PUC-Rio que parte das poesias publicadas foram escritas. Ainda assim, a fina ironia do humor aparece em sua produção poética rica em imagens cotidianas, referências lúdicas e brincadeiras com a forma e a linguagem dos poemas, que frequentemente ganham ares de crônicas e têm o Rio e suas diversas caras como norte e pano de fundo, trabalho elogiado por mestres do naipe de Ferreira Gullar e Millôr Fernandes.

Além da poesia, Gregório, também colunista do jornal "Folha de São Paulo", se desdobra entre deadlines dos diversos projetos em que está envolvido. "É nessa ordem: Porta dos Fundos (escrevo dois por semana e gravo, em geral, um, e estou escrevendo o filme do Porta), "Folha" (um texto por semana), poesia (escrevo quando puder) e projetos futuros (um filme, uma peça, um livro)", diz ele, para quem o aperto de prazos não é uma mordaça à criatividade, mas sim um convite a ela. "A periodicidade é um estímulo fantástico. Se não fosse a obrigatoriedade, não teria escrito nem a metade dos vídeos que escrevi."

De fato, a fuga à zona de conforto e a ousadia marcam não apenas os textos de Gregório (em qualquer que seja a mídia), mas também seu trabalho como ator e humorista, que não raramente esbarra em assuntos polêmicos, varridos para debaixo do tapete da sociedade. Recentemente, foi disponibilizado o último episódio de "Viral", minissérie de humor do Porta dos Fundos sobre a Aids, com texto de Fábio Porchat e Gregório como protagonista. "A informação é a melhor arma contra o preconceito. Não se pode ter medo de falar de determinados assuntos, especialmente daquilo que ninguém quer falar. A Aids é um tema tabu, quase proibido. Por isso nos interessamos. O resultado foi muito surpreendente. Muita gente voltou a falar da Aids, que estava meio esquecida, como se fosse uma doença datada. Infelizmente, não é, e está mais viva do que nunca."

Tribuna - Atualmente diversas das suas facetas de escritor estão em plena atividade, como roteirista, poeta e cronista. Como elas se relacionam no seu cotidiano e como costuma ser seu processo criativo para cada uma?

Gregório Duvivier - O processo criativo é ditado pelo prazo. Queria ter mais disciplina para conseguir escrever sem prazo. No entanto, sempre escrevo em cima do laço. A obrigação da escrita é o que me motiva. Por isso, assumo uma quantidade enorme de compromissos: com o Porta, com a "Folha", com a Cia. das Letras. Não paro de me comprometer. É o que me inspira.

- Muitos dos seus escritos tratam do cotidiano, como grandes cronistas e poetas o fazem. Qual é o grande trunfo do dia a dia como inspiração?

- Viver é o melhor combustível para escrever. Acredito numa literatura que seja vinculada ao dia, à vida, ao leitor. Não podemos desprezar o mundano. É nele que se esconde a poesia mais pungente, porque o leitor se identifica e diz: 'é de mim que ele está falando'. Essa identificação é fundamental quando se escreve uma crônica.

- Que influências literárias você enxerga em seu trabalho como escritor?

- No ramo da crônica, gosto muito dos clássicos: Paulo Mendes Campos e Rubem Braga são mestres, mas o meu preferido é o Veríssimo, que só escreve crônicas perfeitas, irretocáveis. Não há uma frase fora do lugar. A Adriana Falcão é também uma cronista genial, impecável. O Brasil tem muitos cronistas geniais. Na poesia, gosto muito de três: Vinicius, Bandeira e Drummond formam, pra mim, a santíssima trindade.

- Sua poesia mescla haikais, poemas concretos, sonetos e formas livres e mais contemporâneas. Sem se ater necessariamente ao formalismo das classificações e das técnicas, como você se definiria como poeta?

- Tento escrever desprovido de maneirismos e virtuosismos verbais - embora essa frase tenha sido maneirista. Acho que a poesia, quanto mais cotidiana, mais forte ela é. A poesia tem que falar do leitor, para o leitor, com o leitor, mas sem desprezá-lo. As metáforas velhas são insuportáveis. Acho que a boa poesia é inusitada e, ao mesmo tempo, simplíssima.

- Como você faria uma comparação entre "A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora" e "Ligue os pontos"?

- O primeiro livro tinha mais experimentações formais. Gostava mais de brincar com a métrica clássica, com o poema concreto e outras restrições formais. Hoje em dia, prefiro o verso livre, mas encaixado num bloco. Minha única restrição é o bloco, e nem mesmo essa eu respeito muito. O amor continua sendo uma obsessão, assim como o Rio de Janeiro.

- Você fez o curso de letras, escreve desde os 10 anos e a escrita sempre esteve permeando seu caminho. Como o humor e a atuação apareceram na sua vida?

- Sempre quis escrever. O teatro foi um acidente de percurso. Entrei no Tablado e me apaixonei. Nunca mais quis sair de lá. Mas continuei escrevendo. No fundo, são trabalhos parecidos. Quando escrevo, falo o texto em voz alta, interpreto. Quando atuo, tento imaginar que estou inventando aquele texto na hora. Nos dois casos, é um trabalho de interpretação.

- No Porta dos Fundos - como em outros trabalhos como ator - , você atua em roteiros escritos por outras pessoas. Quais as diferenças entre atuar em algo que você escreveu e algo escrito por outras pessoas?

- Quando eu mesmo escrevi o texto, tenho que imaginar que foi outra pessoa que escreveu. Se eu lembrar que fui eu que escrevi, não decoro o texto nem dou a menor importância para aquilo. Quando foi outra pessoa , eu preciso decorar, tratar com respeito e reverência... Esse respeito é necessário.

- Em entrevistas anteriores, você e o Fábio Porchat - e os outros integrantes do Porta - já falaram sobre a liberdade criativa que o formato proporciona. Você acha que essa ausência de amarras é um dos fatores que contribuíram para o sucesso do Porta? Como roteirista, como você busca subterfúgios para escrever para formatos que não permitem essa liberdade?

- A liberdade é um conceito relativo. O que eu gosto de escrever para o Porta é o oposto: tem uma restrição formal grande. Precisa ser um texto que tenha de dois a quatro minutos, seja muito engraçado, ninguém nunca tenha escrito e é preciso que a gente consiga produzir - porque embora a gente esteja crescendo, ainda existem restrições orçamentárias, é claro. A restrição é muito útil, ela liberta. Quando dizem para a gente "escreve sobre qualquer coisa", é mais difícil do que quando a gente já tem um tema pré-estabelecido.

- Literatura, TV, internet ou cinema? Ou "tudo ao mesmo tempo e agora"?

- Cada uma de uma vez! Tenho tentado fazer uma coisa de cada vez. Essa agonia de fazer tudo ao mesmo tempo é desesperadora. Você acaba não estando presente em lugar nenhum.

- A vida já é agora? Desde quando?

- Tenho tentado! Mas nunca é. Essa é a dificuldade. A gente está sempre empurrando. Às vezes é o contrário, a gente está tentando pescá-la de volta. Os momentos em que a vida foi agora são raríssimos mas - ou talvez por isso mesmo- são os melhores do mundo.

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