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08 de Junho de 2014 - 06:00

Instituto de Artes e Design da UFJF inaugura galeria expondo obras de professores. Em seis anos, cursos se multiplicaram, e perfil contemporâneo se consolida

Por MAURO MORAIS

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Instituto de Artes e Design abriga, hoje, cerca de 900 alunos e cinco bacharelados, além de licenciatura e pós-graduação
Instituto de Artes e Design abriga, hoje, cerca de 900 alunos e cinco bacharelados, além de licenciatura e pós-graduação
Obra "Nada de novo sobre a face do corpo", de Valéria Faria
Obra "Nada de novo sobre a face do corpo", de Valéria Faria

O som de um violino se cruza com os manequins vestidos em um tecido leve e usando acessórios exuberantes. Os grafites se multiplicam pelos murais, pelas paredes e retiram a sisudez de uma caixa de luz. As fotografias dividem espaço com os desenhos que observam outros desenhos, esses pendurados em varais. Pelos corredores, passam jovens e nem tão jovens, de diferentes tribos, com os cabelos de diferentes cores, com as roupas em diferentes tons e estilos. Na casa onde se formam artistas, há um movimento fazendo jus ao compasso do relógio. Cada segundo existe. O frescor resiste no Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF, que nos últimos seis anos ampliou seu quadro de professores e alunos, todos ocupando, hoje, um agigantado prédio numa das regiões mais altas do campus, próximo ao Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt).

Em 1969, havia apenas um departamento, dedicado ao desenho e pertencente ao Instituto de Ciências Exatas (ICE). Anos mais tarde, já desmembrada, a seção ganhou contornos mais criativos. Se em 2008 havia apenas um curso de graduação em artes na cidade, hoje somente a universidade oferece cinco bacharelados: interdisciplinar em artes e design, música, moda, design, cinema e artes visuais; além de dois cursos de licenciatura, em artes visuais e em música; uma especialização em moda, cultura de moda e arte e um mestrado em artes, cultura e linguagens. Atualmente o IAD conta com cerca de 900 alunos, sendo 840 ingressos na graduação.

Em 2012, o Ministério da Educação, através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), concedeu conceito 4 (a nota pode variar de 1 a 5) ao curso interdisciplinar. O crescimento estrutural da instituição refletiu, então, no ensino. Distante do tradicionalismo dos cursos de belas artes país afora, o instituto juiz-forano foca no contemporâneo, em pleno diálogo com seu tempo.

Conquista dos tempos em que o curso de artes ainda estava atrelado à área dos cálculos matemáticos, uma pequena galeria, no ICE, servia de espaço para as experimentações de alunos e professores, mas acabou sendo abortada quando a mudança de endereço foi consolidada. Ampla, podendo servir a grandes instalações e outros trabalhos em formatos superlativos, a galeria Guaçui (homenagem ao falecido professor Cláudio Márcio de Aguiar Pinto, conhecido como Guaçui, um dos envolvidos na luta, nos anos 1990, por um ambiente expositivo), inaugurada essa semana dentro do complexo do instituto, marca um momento e confirma a tendência da escola diante das mais urgentes práticas artísticas nacionais e internacionais.

Na estreia do espaço, "Contágio" reúne professores, dos mais experientes aos mais jovens, em exposição de múltiplos suportes e discursos, mas firme na coerência de explanar o que ainda há por romper nas artes visuais.

 

 

 

Experiência, existência e lições

"O artista - decepcionando os mais românticos - não é nenhum ser bizarro, exótico, uma 'avis rara'. É somente alguém que escolheu se afastar um pouco para poder se entregar integralmente a sua experiência existencial", escreveu Arlindo Daibert em texto presente em seu "Caderno de escritos", publicação póstuma, de 1995. Professor do curso de artes e artista atuante, ele ocupa "Contágios" com sua tela "Flemish nights", de 1985, na qual se vê, sob os olhares do casal Arnolfini - personagens do quadro de Jan van Eyck -, o próprio Daibert em ato sexual. Para além do diálogo com a tradição e com os subtextos que a própria obra referenciada impõe, salta aos olhos a destreza de um artista preocupado em frequentar o que não é estável, o caminho mais tortuoso, aquele que desestabiliza. Da mesma geração, Leonino Leão, falecido em 1989, exibe um díptico sem título no qual demonstra seu domínio do desenho, das cores e sua atenção para a forma.

Hoje professor apenas da pós-graduação no Instituto de Artes e Design, Afonso Rodrigues revela sua coleção de afetos e memórias em "Mínimas de amor", objeto no qual reúne frases como "O chão que você pisa" a uma pequena caixa de modelo antigo com areia dentro e uma borboleta empalhada. "Minha ideia era fazer um comentário das representações de afeto, mas me atendo ao que é o contrário das máximas de amor, as pequenas promessas, as pequenas lágrimas", conta Rodrigues. Também discutindo os desvãos da memória, Valéria Faria se volta à própria casa para a concepção da instalação "Nada de novo sobre a face do corpo". Fotografias de seu álbum de família, tratadas em procedimento digital, dividem espaço com um couro envelhecido (extraído das cadeiras da mesa de jantar da casa de sua mãe) e também exposto em molduras do passado, daquelas cheias de detalhes. "É uma grande admiração pelo que é antigo, não apenas pela artesania, mas pelo montante de significados", diz, para em seguida completar: "No retrato está o fragmento do tempo".

Já em "Simpatia", instalação de Sandra Sato, há um retorno à antiga técnica da cerâmica, que à artista serve de comentário ácido do presente. Rústico, nu do esmalte, o pote em terracota recebe douradas inscrições da marca Louis Vuitton. Ao lado, a cerâmica alva ocupa o lugar de um vidro refletivo de um espelho de mão. "('Simpatia' contém) a crítica irônica sobre a sociedade de consumo, tão explorada na pop art quanto no artesanato e na arte ingênua; a desconstrução do utilitário obtida com a substituição da matéria-prima; a conversação com outros materiais", explica Sandra em texto do catálogo. Lírica, a videoperformance de Priscilla de Paula, "Capítulo 3", mostra a artista vestida apenas, sobre a cabeça e o dorso nu, com uma peça de tricô, que vai sendo desfiada à medida em que recita parte do romance "Casa tomada", de Julio Cortázar.

Uma das pesquisas mais recentes de Ricardo Cristofaro, a fotoescultura "Plongée" mostra um trampolim no meio de um lago rodeado por árvores. "Não sei quem construiu esse trampolim, mas comecei a vê-lo como uma escultura e me chamou atenção sua relação da forma com o entorno. Na fotoescultura, é tensionado o trânsito entre o que é tátil e o que é visual", pontua o professor e artista, que apresenta, ao lado da montagem, uma caixa contendo água e terra encontrada no lago. Completam, ainda, a exposição, os professores Adriana Gomes (com a videoarte "De pessoas e peixes e pássaros"), Edna Rezende (com a fotografia e pintura "?Te molesta mi amor?"), Eliane Bettocchi (com o objeto "Mitografia"), Fabrício Carvalho (autor da instalação "Tiltedarc") e Pinho Neves (que assina "O beijo", com referência aos trabalhos de Magritte, Rimbaud e Verlaine).

 

 

Paisagem em processo

Ao mesmo tempo em que a Galeria Guaçui reserva obras visivelmente referenciadas, há nela o frescor da experimentação, característica desejada por Valéria Faria, professora responsável pela Coordenação de Integração do Bacharelado Interdisciplinar. "É necessário que o aluno conheça esse lado mais humano dos professores, acesse nossas inquietações, nossas buscas, nossa pesquisa artística. Mas também gosto muito da ideia de circuito universitário, de expor a produção dos alunos e de outras instituições, promovendo o intercâmbio", pontua. Segundo ela, um edital de ocupação, não muito burocrático, será lançado no próximo mês. "A galeria não vai funcionar apenas para os alunos poderem expor suas obras, mas para que vivenciem o que é montar uma exposição, para que os dotados da habilidade de escrever exerçam a ideia do trabalho de curador, da crítica. Esse espaço é um laboratório", define Ricardo Cristofaro, diretor do Instituto de Artes e Design.

Expor o trabalho de professores serve, ainda, para confirmar um caminho de atrevimento trilhado pela instituição ao longo dos anos. "A área de artes tem essa tendência a uma certa ousadia. Isso é do próprio corpo docente, de experimentar outros modelos de ensino, que é o que nós fazemos. Esse modelo está sendo bem aceito pelos alunos. Pode existir algo a ser concertado? Sim, estamos sempre discutindo", aponta Cristofaro. "Os cursos de arte só sobrevivem com a presença de professores teórico-práticos. É essa experiência, que provém da inserção na sociedade, que torna rico o curso. O perfil do professor de artes hoje é o perfil de um artista pesquisador", completa. "São dois fazeres distintos e complementares. Dar aula exige conceito, fluxo. E fazer arte também passa por isso. O professor de artes não pode abandonar o ateliê, porque como fazedor ele reflete, em sala de aula, as questões reais", acrescenta Afonso Rodrigues.

No instituto repleto de laboratórios, entre eles um bem equipado estúdio para as disciplinas de cinema, há espaço também para as aulas de música oferecidas individualmente. A escola se arma do que há de mais novo e busca, assim, formações mais consolidadas, segundo afirma Cristofaro. "O artista hoje não opera mais de forma disciplinar. Então, como organizar um curso se o artista atual opera muitas vezes de forma multidisciplinar? Será que faz sentido ter disciplina com nomes disciplinares como pintura? Será que faz sentido ensinar desenho se o que vemos cada vez mais é uma espécie de artista que transita?", indaga o diretor, apontando para a disciplina "Ateliê de criação e construção da forma", do bacharelado interdisciplinar em artes e design, que possibilita experimentações tanto em escultura, quanto em pintura, desenho, fotografia ou outros suportes.

"O que é o profissional de artes hoje? Qual o papel do artista hoje? Não podemos ter disciplinas congeladas no tempo, que não seja repensada a todo momento, dentro da formação desse profissional. A natureza da própria área é essa dinâmica", comenta Cristofaro. Mas, nesse universo contemporâneo, qual o lugar das tradições? Se para romper é necessário um profundo conhecimento, não haveria de ter lugar para o que já é estabelecido? Segundo o diretor do instituto, é importante ter um profissional informado, conhecedor, mas também é primordial produzir artistas dispostos ao que é novo. "Arte é tradição, desde sempre, mas a boa arte surge na transformação. Se você não acredita na transformação, irá pensar no que já foi pensado, e isso é muito óbvio."

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