Publicidade

07 de Maio de 2014 - 06:00

Projeto 'Se essa nota fosse minha...' leva concertos didáticos a alunos de escolas municipais

Por RENATA DELAGE

Compartilhar
 
Luis Leite e Maíra Delgado se apresentaram ontem, na Escola Municipal George Rodenbach, no Bairro Grama
Luis Leite e Maíra Delgado se apresentaram ontem, na Escola Municipal George Rodenbach, no Bairro Grama

"Quem já ouviu falar em Folia de Reis?", indaga a musicista Maíra Delgado a uma plateia que mistura a crítica adolescente à curiosidade. A pergunta, que logo recebe respostas positivas, vem acompanhada dos sons do tambor mineiro - ou, caixa de folia, como ela explica aos estudantes da Escola Municipal George Rodenbach, do Bairro Grama. A instituição foi a quinta a receber o projeto "Se essa nota fosse minha...", que tem apoio da Lei Murilo Mendes e vem levando concertos didáticos a escolas da rede municipal da cidade.

Ministrados por Maíra, percussionista do Quinteto São do Mato, e pelo violonista, compositor e educador Luis Leite, os concertos serão levados a dez escolas de bairros distintos, sendo assistidos, em cada uma delas, por um público composto por até 200 jovens. A ideia é propor uma performance musical que chame a atenção para diversos conceitos como ritmos, instrumentos, influências culturais, e possibilite a interatividade da plateia.

"Buscamos proporcionar a eles esse encontro com a música ao vivo, algo diferente do que está no rádio, misturando o clássico com o popular. Já no início, tocamos um funk para nos aproximar dessa plateia e podermos apresentar também um pouco de Villa-Lobos, Bach, samba, choro", diz Maíra, que se reveza nos instrumentos de percussão.

O carioca responsável pelo Programa de Bacharelado em Violão da UFJF, Luis Leite, que assume o violão nos concertos, também destaca a importância de possibilitar aos estudantes uma experiência musical verdadeira. "Participando, eles entendem que cada um tem o seu papel para alcançar a harmonia", observa.

A necessidade de apresentar experiências muitas vezes distantes da realidade dos jovens foi motivadora, segundo os músicos, que já se envolveram em projetos sociais anteriormente. "Algumas das escolas visitadas nunca tiveram qualquer aula de música. E a recepção tem sido muito boa, temos uma resposta sempre muito espontânea. O interessante desse público adolescente é a sinceridade, demonstram imediatamente o que gostam e o que não gostam também", avalia Maíra.

Segundo a vice-diretora da Escola Municipal George Rodenbach, Rita de Cássia Reis, todas as atividades artísticas são recebidas com muito entusiasmo pelos alunos. "A primeira resistência deles em relação ao novo logo é quebrada, e eles acabam se envolvendo e interagindo", diz. "Em seu universo, acabam ouvindo apenas determinados tipos de música, como o funk. Essa é uma oportunidade cultural importante, já que estão nos trazendo uma arte tão rica", complementa.

Confirmando o exemplo da educadora, Andressa Agostinho da Silva, de 15 anos, conta gostar de funk. Embora não se interesse por tocar instrumentos musicais, a jovem participou da apresentação, acompanhando, com as mãos, o ritmo ditado pelos músicos. "Gostei bastante", diz.

 

 

'A música pode estar perto deles'

Vindos de escolas diferentes, Luis e Maíra se juntaram para concretizar o projeto que pesquisam há algum tempo e busca promover o encontro entre vertentes musicais, possibilitando a democratização da arte. Mestre pela Universidade de Música de Viena (Áustria) e doutorando em Música pela UNI-RIO, Luis Leite atua há cinco anos no curso de música da UFJF. "Juiz de Fora é uma cidade muito musical. Acredito que o curso de música tem afetado positivamente a cena local. As pessoas que se formam estão produzindo, muitos dos professores têm experiências no exterior e transmitem esses conhecimentos aos músicos locais, temos colhido frutos dessa profissionalização", avalia o professor, que morou por dez anos fora do Brasil, a estudo e a trabalho, e esteve envolvido em projetos em mais de 20 países.

Junto à UFJF, desenvolveu e atualmente coordena os projetos de extensão "Violões na Casa", série mensal de concertos de violão na Casa de Cultura, e "Palco itinerante", que organiza concertos semanais em asilos, lares de portadores de deficiência, abrigos de moradores de rua, oferecendo uma plataforma para os alunos de graduação se aperfeiçoarem na arte da performance musical ao mesmo tempo que leva cultura e arte para aqueles sem acesso direto a elas. Leite já se apresentou ao lado de grandes nomes da música brasileira e do jazz, como Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Greg Osby e Antonio Sanchez.

Maíra Delgado, por sua vez, é formada em Ciências Sociais pela UFJF e estudou música popular na Escola Portátil de Música (UNI-RIO). Como percussionista do Quinteto São do Mato realizou, nos últimos anos, duas turnês na Europa e uma turnê na Argentina. Na área da arte-educação, trabalhou como professora de percussão do programa "Gente em primeiro lugar", da Funalfa, por dois anos, atuando em nove polos de desenvolvimento da Prefeitura e realizando mais de 180 oficinas.

Com o projeto "Se essa nota fosse minha...", os músicos buscam ainda desmitificar a figura do compositor, estimulando os alunos a acreditarem em seu potencial criativo. "É importante ver o que a arte provoca neles. Nosso papel é incentivá-los nesse sentido, de que você pode ser um profissional da área que desejar. Talvez um dia essas crianças se lembrem desse concerto e queiram se dedicar à música", projeta Maíra, abordando ainda a necessidade de expor o trabalho a partir de uma linguagem lúdica e acessível.

"O objetivo é assumir esse papel sensibilizador. Mostrar que a música é algo que pode estar perto deles. É humana, artesanal", completa Luis.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você leva em consideração a escolaridade do candidato na hora de votar?