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06 de Abril de 2014 - 06:00

Diante do acesso democratizado à tecnologia, especialistas e profissionais debatem uso de recursos pelo público para fins artísticos

Por JÚLIA PESSÔA

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"Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". O lema que norteou o Cinema Novo nos idos dos anos 1960 e 1970 parece hoje ter extrapolado os limites do cinema. Com o avanço das tecnologias digitais, estamos todos - ou, ao menos, a grande maioria - não só com câmeras, mas computadores, aplicativos, gadgets e uma infinidade de aparelhos e dispositivos à nossa disposição - ainda que nem todos tenham, como ansiavam os cinemanovistas, ideias na cabeça-, permitindo ao cidadão comum, sem qualquer formação específica, a produção de conteúdo e bens artísticos ou culturais.

Figura proeminente neste ambiente é a do "produsuário", termo cunhado por Axel Bruns que funde "produtor" e "usuário" e reflete bem o papel do público na atualidade, sobretudo de arte e cultura. " Com a inclusão digital avançando e a interface da tecnologia se tornando cada vez mais presente, acaba sendo inevitável um embate ou talvez uma convergência entre a produção de sentido e a reapropriação de sentido que os gadgets possibilitam diante do conteúdo artístico tradicional", explica o pesquisador de estética, redes e tecnocultura Felipe Xavier.

Autor do artigo "O modelo artístico não é mais uma referência", Nicolas Thely, professor de arte, estética e humanidades da Universidade de Rennes, na França, estuda a emergência do trabalho amador frente à disponibilidade dos recursos. "As práticas emergentes com o uso da tecnologia permitem que os procedimentos artísticos sejam repetidos sem que, de fato, haja conhecimento sobre isso", pontua ele. "A figura do amador, para mim, significa a emergência de uma nova subjetividade, um novo olhar, assim como novas práticas que se inserem na cultura de massa. A diferença é que os artistas são, de fato, profissionais no que fazem: eles voluntariamente imprimem a diferença de seu trabalho em relação ao dos amadores", acrescenta.

Doutor em poéticas visuais, o juiz-forano Ricardo Cristofaro também argumenta neste sentido, destacando que a apropriação do público em geral do fazer artístico não significa, necessariamente, a desprofissionalização ou desvalorização do trabalho do artista. "Como existe facilidade para usar a tecnologia como ferramenta de trabalho, o que faz diferença são as ideias. Existem tecnologias avançadas que são expostas como se fossem trabalhos artísticos, em mostras, e causam surpresa porque o púbico não conhece, nunca viu no cotidiano. Mas há uma confusão disso com a intensidade poética de uma obra de arte realizada com a utilização da tecnologia."

Para Cristófaro, este simulacro de profissional frente ao empoderamento do usuário de tecnologias não se restringe ao domínio da arte e da cultura e não representa, necessariamente, a intenção em ocupar o espaço que cabe aos artistas. "Há que se pensar que as pessoas têm necessidade de experimentação e nem sempre isso tem intenções artísticas. Essa desconfiança em relação à tecnologia é histórica e aconteceu diversos momentos, com a fotografia, o cinema, a internet... a tecnologia adentra a prática artística até o ponto de se instaurar dentro dela. Neste processo, somente as coisas boas sobrevivem", opina o artista.

'Tirar foto não te torna um fotógrafo'

  Atuante em uma das linguagens mais afetadas pelo desenvolvimento da tecnologia - com o boom de câmeras, smartphones e aplicativos para a divulgação de imagens -, a fotógrafa Julia Milward defende que atualmente é fácil fazer uma fotografia e mesmo exibi-la, mas isso não precede a formação e a dedicação que o trabalho artístico requer. "Tirar foto não te torna um fotógrafo. Pode ser o início de uma carreira artística, mas se a pessoa não se dedicar a pesquisa, leitura sobre a história da arte, da fotografia, vai acabar sendo mais uma superfície temporária no intocável mundo da internet", opina ela. "A profissão requer mais do que uma técnica e uma tecnologia", opina a profissional.

 A produção de conteúdo cultural também é impactada, basta parar e pensar: recentemente, quantas vezes você mesmo disse ou ouviu frases como "Na internet todo mundo se acha blogueiro de moda ou crítico de alguma coisa"? Jornalista, a juiz-forana Alline Valverde atua profissionalmente em São Paulo como blogueira de moda e artes em geral, e acredita que esta possibilidade é a marca de uma geração. "O uso da tecnologia foi incorporado no dia a dia, e é irrelevante negar isso: é um caminho sem volta. A democratização do acesso não desmerece a atividade em si, pelo contrário, só valoriza o olhar por trás da câmera, a ideia por trás do texto, e por aí vai." 

  Para o músico Paulo Beto, o maior efeito da democratização dos recursos eletrônicos ocorre quando o trabalho artístico é voltado para fins essencialmente mercadológicos. "No mercado de trilhas sonoras, por exemplo, o cara que as faz precisa somente ter o domínio do aparato tecnológico, sem conhecer absolutamente nada de música. E quem contrata os serviços não está interessado em um trabalho artístico, mas naquilo que atende a demanda. O problema é que estas pessoas sem formação musical muitas vezes aceitam trabalhos com pagamento que músico nenhum aceitaria, justamente por ter o conhecimento do valor artístico do que faz, e isso acaba desvalorizando, literalmente, o trabalho do músico."

 

Novos pincéis, lentes e poesias

A gastronomia também não fugiu aos impactos da modernidade digitalizada, seja pela onda do "faça você mesmo" ou pela falsa noção de que qualquer aficionado por cozinha  esteja apto a ser crítico do assunto. "A febre dos programas de culinária há alguns anos fez blogs de gastronomia pipocarem e as pessoas banalizarem um pouco o ofício de quem trabalha com comida. O Instagram também foi muito forte neste processo: a pessoa faz um feijão com arroz, fotografa com filtro e 'gourmetiza' o prato", opina a juiz-foana Ingrid Borges, tecnóloga em gastronomia pelo Hotel Escola Senac Grogotó e assistente de produtos da rede carioca Gula Gula.  

  Completamente transformado pelos avanços tecnológicos ao longo dos anos em termos de práticas, linguagens, formas e estéticas, o cinema tem hoje um número massivamente maior de realizadores do que em outras décadas, com a democratização do acesso a equipamentos como as câmeras e o desenvolvimento de softwares para edição, montagem, finalização e diversas outras etapas da produção de um filme. Para o cineasta juiz-forano Marcos Pimentel, este processo não foi acompanhado, entretanto, de um aumento na qualidade das produções. "Vinte anos atrás, só existia uma maneira de fazer um filme. Hoje, a tecnologia possibilita inúmeros caminhos para isso, e as pessoas querem, cada vez mais, satisfazer seu anseio autoral. O que importa para fazer um filme não é a câmera que se usa, mas o discurso cinematográfico, o que o diretor tem a dizer, e isso continua sendo raro. Por isso temos tantas produções sendo feitas e tão poucas cuja mensagem nos toca de alguma forma."

Para o pesquisador Felipe Xavier, em qualquer linguagem, a tecnologia permitiu que trabalhos artísticos - amadores e profissionais - fossem incorporados na emergência de um novo conceito de arte na contemporaneidade. "Além disso, graças às manifestações artísticas, podemos ter um vislumbre da nossa própria realidade atual enquanto civilização, que está cada vez mais inserida e individualmente coletivizada em sua própria voz. No fim das contas, estamos vivenciando agora a repetição eterna dos debates humanos sobre subjetividade e produção artística, por meio de uma gama enorme de novos pincéis, lentes e poesias."   

 
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