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23 de Janeiro de 2014 - 07:00

Codirigido por egressos da UFJF, 'Nossa pintura' mostra cultura dos Kayapós e é apresentado em Tiradentes

Por JÚLIA PESSÔA

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Fábio Nascimento (foto) e Thiago Oliveira gravaram o documentário em uma semana em tribo no sul do Pará
Fábio Nascimento (foto) e Thiago Oliveira gravaram o documentário em uma semana em tribo no sul do Pará

"Do mesmo jeito que a mídia e o branco de forma geral procuram retratar os índios, eles também estão pensando sobre este contato." É esta a certeza que o estreante como cineasta e antropólogo do Museu do Índio Thiago Oliveira procura transmitir ao falar sobre o curta-metragem "Nossa pintura", que estreia no próximo dia 28 na Mostra de Cinema de Tiradentes. Gravado no sul do Pará, o documentário retrata a tradição da pintura de corpos no cotidiano da tribo dos Mebêngôkre-Kayapó e é codirigido por Fábio Nascimento, ex-aluno da UFJF, formado em cinema pela Sorbonne Nouvelle, na França.

Segundo Fábio, a pintura é uma espécie de elemento que costura diversos aspectos culturais dos Kayapós, algo que o curta procurou retratar. "Tem muito a ver com o embelezamento, mas também de afirmação de identidade em relação ao branco. Além disso, é um processo muito particular de manutenção da cultura: a pintura está relacionada aos rituais, às danças, e ela própria tem suas tradições, ligadas a colheitas, fabricação da tinta, escolha dos grafismos, a maioria destes inspirada no ambiente em volta deles", observa o diretor.

Thiago acrescenta que, na afirmação de identidade, a pintura atua como se fosse um processo de construção dos corpos, permeando toda a vida da aldeia. "Uma parte do filme mostra uma das mulheres que pinta dizendo: 'a gente não cresce sozinho, cresce com a pintura e os ornamentos'. É uma coisa bonita de se pensar, aquelas mulheres estão construindo todos os corpos da aldeia, um trabalho contínuo, feito ao longo de uma vida: quando alguém nasce, a primeira coisa a fazer é pintar o corpo, e o das pessoas que morrem também é enfeitado. Do mesmo modo, cada festa tem uma pintura característica, e os padrões também variam de acordo coma idade e outras características. É algo que move a vida cultural deles de diversas formas."

A princípio, Thiago e Fábio (ambos egressos da UFJF) iriam, enviados pelo Museu do Índio, à aldeia Moxkarakô, às margens do Riozinho, subafluente do Xingu, para registrar uma oficina sobre uma coleção de grafismos corporais feitos em telas de tecido. Contudo, a possibilidade de expandir o material surgiu ainda no Rio de Janeiro, antes que chegassem à aldeia, durante uma semana de inserção de três índios no universo audiovisual, para que eles mesmo passassem a documentar a tribo. "Neste tempo, fomos conversando sobre o que faríamos quando chegássemos à aldeia e percebemos que a pintura era um processo intergeracional de fabricação da cultura, de um ponto de vista histórico e mitológico. Quando chegamos lá, não houve dúvida, e o roteiro foi se reconstruindo conforme fomos gravando", explica Fábio.

Para Thiago, o contato prévio com a tribo em projetos anteriores, bem como a relação dos Kayapós com o Museu do Índio, foi fundamental para a construção do curta-metragem. "O filme mostra esta proximidade, mas não deixa de ter um olhar estrangeiro sobre aquela cultura, porém com uma perspectiva de diálogo com quem os está retratando. Isso produziu um resultado interessante. Por um lado, dá voz aos indígenas para que eles falem sobre si e suas tradições, se afirmando com orgulho em relação a elas. Por outro, mostra que eles também estão refletindo sobre aqueles que estão ali para filmá-los e que acabam sendo vistos por seus costumes, hábitos roupas, comidas... e sobretudo sobre este diálogo silencioso entre culturas", analisa Thiago.

Thiago acredita que a exibição de "Nossa pintura" em Tiradentes pode ajudar a mostrar os índios de uma forma pouco conhecida ou pouco difundida. "Para mim, foi uma surpresa, mais ainda por estar em uma mostra competitiva, com critérios como a inovação de linguagem cinematográfica. A questão indígena é mostrada para nossa sociedade o tempo todo, e poder ajudar a mostrá-los de uma maneira diferente do retrato habitual é muito gratificante, ainda mais para um público considerável, e com a perspectiva de exibir em outros festivais depois deste."

Em coro, Fábio acrescenta que a experiência como diretor durante a realização já foi o maior legado do curta, gravado em uma semana com participação de quatro índios pesquisadores e documentadores: Akijabor, Axuapé, Bepunu e Pawire, todos de sobrenome Kayapó. "Ganha-se muito de aprendizado sobre o ser humano, o olhar se transforma com a surpresa de novos pontos de vista sobre situações habituais. Experiências como esta são muito valiosas por isso: transformam nossa relação com o espaço e o tempo", conclui Fábio.

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