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11 de Março de 2014 - 06:00

Casa que fez escola nas artes plásticas da cidade, Associação de Belas Artes Antônio Parreiras completa 80 anos em 2014

Por RENATA DELAGE

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Carlos Bracher pintou o trabalho desenvolvido na instituição
Carlos Bracher pintou o trabalho desenvolvido na instituição

Ao falar do futuro, só o que se tem são especulações ou previsões. Contudo, as especulações do presidente Lucas Amaral sobre a continuidade da Associação de Belas Artes Antônio Parreiras (Abaap) caminham pelo campo da certeza. "Sempre haverá alguém para seguir em frente. É uma história muito importante para alguém ter coragem de simplesmente deixar acabar", diz, garantindo abster-se de nostalgias. A instituição, que fez escola na cidade, completa 80 anos em 2014. "A casa sempre esteve repleta de gente de muito talento, mas o que mais a destaca é a vontade de aprender de quem vem a ela. Deixando de lado talento e técnica, o que realmente importa ao formador é saber que contribui para que as pessoas sejam capazes de analisar e apreciar arte", completa.

As comemorações relativas à data já começaram com exposição, no último mês, reunindo obras de artistas que se destacaram nos primeiros 20 anos da associação. Ainda em março, a mostra "Artistas da casa" apresentará ao público trabalhos de alunos e professores da Abaap. Também no primeiro semestre, Juiz de Fora será o tema da exposição com obras de artistas que já passaram pela Parreiras e, em maio - como se dá todos os anos, de forma ininterrupta desde 1950 -, aniversário da cidade, o local sediará o Salão Municipal. No segundo semestre, as demais mostras estarão suspensas, em função da realização de um salão aberto ao público em geral, no qual serão aceitas obras de técnicas diversas. Ainda estão sendo programadas exposições sobre os 80 anos da instituição em outros espaços da cidade, como a já confirmada para o Forum da Cultura.

Consolidada ao longo dos anos, passando por fases distintas, a Parreiras viveu sua época áurea no início da segunda metade do século XX. "Nas décadas de 1950 e 1960, a instituição tinha muito prestígio, era a única na cidade voltada às artes plásticas, único lugar onde se podia frequentar para trocar ideias, aprender", diz Amaral, que intitula a fase como "hegemônica". No período, a casa congregou a maioria dos pioneiros da fase precedente (Angelo Bigi - falecido em 1953 -, Silvio Aragão, Heitor de Alencar, Carlos Gonçalves, Américo Rodrigues, entre outros) e, ainda, outros pintores experientes, mas que, até então, não faziam parte da sociedade.

A instituição acolheu também uma nova geração que contribuiria para a modernização da pintura em Juiz de Fora. Renato Stheling, Dnar Rocha, Wandyr Ramos, Nivea Bracher, Carlos Bracher, Ruy Merheb, Reydner Gonçalves, Celina Bracher e Roberto Vieira estão entre os jovens artistas cujas aspirações mais modernas e diferente formação intelectual fizeram história na Parreiras. "Essa nova geração foi incentivada pela personalidade de outros dois pintores muito ligadas a ela: Décio Bracher e Roberto Gil", acrescenta Amaral.

 

Simples e acolhedora

A simplicidade sempre esteve atrelada à história da Abaap, fundada como Núcleo Antônio Parreiras, em 6 de setembro de 1934, que homenageava o pintor mais popular da época e que havia estado na cidade para elaborar a "Jornada dos mártires", hoje no acervo do Museu Mariano Procópio. Formado, em sua maioria, por artistas do antigo Núcleo Hipólito Caron - criado em 1922 por César Turatti -, o novo núcleo visava o estudo e a difusão das artes plásticas na cidade. "A origem da maioria dos integrantes era bem modesta. Eram pintores de parede mesmo, que buscavam se aperfeiçoar, trocar experiências com os colegas e aprender com os mestres", conta Amaral, que escreveu o livro "A Parreiras e seus artistas", publicado em 2004.

Percebendo as fragilidades do núcleo, então desativado, o pintor de Belo Horizonte Aníbal Mattos, que veio à cidade para expor no Palace Hotel, orientou e incentivou os artistas a retomarem o grupo e registrá-lo, surgindo assim a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras. A mudança para associação veio nos anos 2000, já que a nova denominação, legalmente, melhor representava a instituição.

Quase "nômade", a Parreiras não apenas trocou de nome ao longo de sua trajetória, mas, sobretudo, mudou diversas vezes de endereço. "No começo, as reuniões aconteciam em bares, ocasião na qual os mais experientes, como Ângelo Bigi, Silvio Aragão e Carlos Gonçalves, davam palpites nos trabalhos dos outros e combinavam onde se encontrariam para pintar", conta o presidente. Até chegar ao prédio onde está hoje, na Estação Ferroviária, os artistas fizeram arte na primeira sede da Rua Halfeld; no antigo prédio da Mecânica Mineira, na esquina da Av. Rio Branco com a Getúlio Vargas; no galpão que existia atrás do Edifício Juiz de Fora - e que pegou fogo, certa vez, destruindo os documentos mais antigos da sociedade -; em uma casa "caindo aos pedaços", como conta Amaral, na Rua Mister Moore; e em uma pequena sala, cedida por Itamar Franco, na Galeria Sirimarco.

 

Filhos ilustres

Entre os diversos artistas revelados pela Parreiras, quatro se destacaram nacionalmente, tendo recebido bolsas de estudos no exterior. Inimá de Paula é um dos nomes citados por Lucas Amaral como dos mais importantes da história da casa, reconhecido como o maior pintor fauvista do Brasil. De origem humilde, o artista chegou à cidade para servir ao Exército, indo às noites à Parreiras para pintar. "Quando saiu do Exército, não tinha para onde ir, mas queria continuar pintando. Com isso, chegou a morar na sede do núcleo, que funcionava no local de uma antiga mecânica. O documento mais antigo que retrata a Parreiras por dentro é uma pintura sua.

Posteriormente, segundo o presidente da Apaap, Inimá mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conseguiu patrocínios importantes, que viam a beleza de sua arte, bem como da figura do "artista-operário". "Ele ganhou um prêmio e foi para Paris, onde teve contato com as novas tendências da época. Saiu daqui expressionista, mas retornou fauvista. A diferença entre os estilos é basicamente psicológica. O fauvismo é mais alegre, sem a tristeza ou a melancolia do expressionismo", observa Amaral. Inimá de Paula, que ficou conhecido como o mestre mineiro das cores, dá nome a um museu em sua homenagem, em Belo Horizonte.

Outro dos destaques da casa foi Edson Motta, que sacrificou sua própria obra para salvar a dos outros, como dizia o amigo Carlos Drummond de Andrade. Sobrinho de César Turatti, teve contato com as artes ainda garoto na cidade, mas também foi para o Rio de Janeiro aprofundar-se nos estudos. Na capital fluminense, criou uma instituição similar aos moldes do núcleo juiz-forano, o Núcleo Bernardelli, importante casa da arte moderna brasileira. Motta também ganhou bolsa de estudos na Europa, mas teve de voltar ao Brasil em função da guerra, escolhendo ficar em Juiz de Fora até o fim do auxílio. Em seguida, conseguiu bolsa para estudar em Harvard, nos Estados Unidos, onde se especializou em história da arte e restauração. No fim da Segunda Guerra, participou dos esforços para restaurar obras danificadas no período. Voltando ao país, embora não tivesse a mesma estrutura para desempenhar o trabalho que no exterior, tornou-se referência no setor.

Jayme Aguiar, pintor acadêmico bastante influenciado pelo impressionismo, também passou pela casa, recebendo prêmio de bolsa de estudos na Europa. Carioca, Jayme viveu em Juiz de Fora dos 7 aos 25 anos e voltou ao Rio na década de 1950, mas sempre se considerou um artista juiz-forano. Fez parte do grupo heterogêneo formado por pioneiros da Antônio Parreiras no início da década de 1940 e permaneceu em atividade até pouco antes de sua morte, em 2008.

Tido como filho dos mais ilustres, Carlos Bracher é o remanescente de uma geração. Morando há anos em Ouro Preto, descende de uma família que vinculou seu nome não apenas à Parreiras, mas às artes plásticas na cidade. "Falar da Parreiras é falar da vida profunda da gente", diz à Tribuna o artista, que conquistou reconhecimento no Brasil e no exterior. "Todos que ali estivemos presenciamos, naquele instante, algo de verdadeiramente extraordinário. Experiência humana e existencial inigualável, que levamos para toda a vida. Éramos jovens, empenhados em realizar nossos sonhos, sonho da arte."

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