Publicidade

11 de Julho de 2014 - 08:44

Um dos principais artistas e produtores de Juiz de Fora, Marcelo Panisset chega aos 50 anos de uma vida dedicada à música

Por JÚLIO BLACK

Compartilhar
 
Baterista da banda Eminência Parda e sócio do Cultural Bar lembra histórias do rock local
Baterista da banda Eminência Parda e sócio do Cultural Bar lembra histórias do rock local

Em 1976, os britânicos do Jethro Tull lançaram a música "Too old to rock'n'roll, too young to die" ("velho demais para o rock'n'roll, jovem demais para morrer"), sobre um roqueiro que já havia passado pelo melhor de seus dias, quase uma relíquia de tempos que não voltariam mais. Ao final, porém, o vocalista Ian Anderson decreta que "nunca se é velho demais para o rock and roll se você é jovem demais para morrer". E este é, definitivamente, o caso do músico, produtor e empresário Marcelo Panisset, que chegou aos 50 anos no último dia 3: com mais de 30 deles dedicados à música, o baterista do Eminência Parda não pensa em parar e comemora hoje, no Cultural Bar (do qual é um dos proprietários), seu meio século de vida, com direito a show dos grupos Rock Celebration e Fato Consumado a partir das 23h.

O artista, homenageado com o título de Cidadão Benemérito de Juiz de Fora em 2012, pelos seus serviços prestados à música, recebeu a Tribuna para lembrar um pouco de sua história com a arte, que começou dentro da própria casa, na infância. "A música acabou se tornando algo natural para mim. Minha família sempre foi ligada à música. Meu pai, Luiz Affonso, além de ser funcionário público, era crítico musical, então havia festa em nossa casa praticamente todo dia. Artistas como Sueli Costa e Guarabyra (da dupla Sá e Guarabyra) apareciam por lá. Eu e meus dois irmãos acabávamos acompanhando tudo isso", conta Marcelão, como também é conhecido.

Com toda essa agitação cultural, não demorou para ele passar de espectador a atração, quando o pai lhe deu de presente um par de baquetas e avisou que ele iria tocar com Big Charles, outro conhecido artista da cidade. "Na verdade eu nem queria muito, mas funcionou. Depois acabei entrando para a Hudson Coelho e Contrabanda, em 1982, um grupo meio que parecido com a Blitz, com muita gente no palco, que só tocava música autoral. Foi uma época mágica, que durou até 1987", relembra. Como viver de música não era fácil, Marcelo veio a trabalhar por 11 anos na antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA), o que não impediu que assumisse as baquetas do Eminência Parda, uma das mais famosas bandas da cidade, em 1989, permanecendo no posto até hoje.

Histórias com o grupo não faltam. Com o respeito e reconhecimento conquistado na região, a banda passou a tocar em várias cidades de Minas e Rio de Janeiro. A fama, porém, chegava aos ouvidos alheios antes do som do grupo, o que acabava gerando situações inusitadas. "Fomos contratados para tocar em uma festa de 15 anos, e o pai da aniversariante disse que havia chegado a hora da valsa. E a gente não sabia nenhuma! Um dos integrantes conhecia uma valsa, apenas, e tivemos que tocá-la repetidamente. Em outra oportunidade, o público começou a cobrar que tocássemos música lenta, o que não era nosso estilo. Fomos tocar 'Me chama', do Lobão, e eles cobravam que tocássemos ainda mais devagar. Quase fomos linchados, precisamos usar os pedestais para afastar o público do palco."

 

 

Músico, produtor e empresário

Enquanto se dividia entre a RFFSA e a Eminência Parda, o lado produtor e empresário de Marcelão começou a surgir. Na antiga estatal, ele era um dos responsáveis, junto com os amigos (entre eles Edson Leão, vocalista do Eminência), do Musical Reffesa, no Estação Arte, e do Sinais de Vida em JF, com trabalhos autorais de músicos de Juiz de Fora. Com o grupo aumentando o volume de shows, comprou uma Kombi para o deslocamento de todos. "Além de baterista, também assumia o posto de produtor e empresário da banda e também encarava o volante da Kombi. Percebi que precisávamos de equipamento de som para os shows e adquiri o Animasom."

Quem também lembra dessa época é Edson Leão. "Não tínhamos sequer equipamento de ensaio e muito menos dinheiro, nossa estrutura foi sendo construída em grande parte pela atitude do Marcelo de arriscar. Marcava um show no DCE, por exemplo, e avisava: 'compramos um alto-falante para pagar com o dinheiro do show'. O detalhe é que não tínhamos nem público consolidado, a ideia era sair da inércia na marra e levar gente para poder pagar. Depois vinha uma caixa de som, uma aparelhagem completa, a ideia de alugar equipamento, juntar dois anos de cachê para gravar o primeiro CD sem lei de incentivo."

Edson destaca que o grupo apoiou a ideia do baterista de encampar o Prova Oral, bar próximo à UFJF que estava para fechar e considerado por Marcelo o local cultural mais importante de Juiz de Fora na época. "Nós tocávamos no Prova Oral no início dos anos 90, e, quando os donos (Jussara e Baretta) resolveram se desfazer do negócio, sugeri que assumíssemos", diz Marcelo, que encarou a empreitada ao lado dos parceiros Wesley Carvalho e Danniel Goulart.

Com o nome de Prova Oral Cultural Club, foram três anos de agitação até a mudança formada para as proximidades do Estádio Municipal, onde funcionava o Bar UFO - ficando apenas como Cultural Club. "A inauguração foi com um show do Celso Blues Boy e teve de ser feita em um hangar do aeroporto. Foi um divisor de águas, ali que passei, enfim, a ganhar dinheiro. Infelizmente, tivemos problemas com uma juíza que morava nas proximidades e precisamos nos mudar de novo."

O transtorno acabou por ser benéfico, pois a mudança para um espaço na Avenida Deusdedit Salgado, no Teixeiras, tornou o Cultural Bar and Roll no espaço cultural que marcou a cidade. "Era uma loucura, iam até 900 pessoas por noite para assistir aos artistas locais ou a nomes como Los Hermanos, Nação Zumbi, Cláudio Zoli, Celso Blues Boy e Blues Etílicos", conta. Depois, recebeu a proposta para montar uma nova casa nas proximidades, no Salvaterra, com capacidade para 1.800 pessoas, que é onde o Cultural Bar funciona desde 2008.

Com estrutura ainda melhor (que inclui estúdios de ensaio e gravação no subsolo), o espaço já recebeu show dos Paralamas do Sucesso, Zeca Baleiro, Titãs, Kid Abelha, Ira!, Lenine, Zé Ramalho, Nando Reis, entre outros. "Uma coisa que me deixou feliz foi ver o Erasmo Carlos tocar no Cultural. O primeiro disco de rock que ouvi foi dele", relembra. Outro motivo de orgulho foi ter Milton Nascimento, seu ídolo número um, subindo ao palco do Cultural para participar da gravação do DVD ao vivo da cantora Verônica Sabino.

Marcelo diz ter a sensação do dever cumprido, e que o título de Cidadão Benemérito é um dos maiores reconhecimentos do trabalho que fez na cidade que diz amar. Mesmo assim, diz ainda ter lenha para queimar. "Nós planejamos gravar o quarto CD do Eminência Parda, assim que me recuperar da fratura na perna direita. O que me assusta é saber que ainda tenho que matar um leão por dia, você acaba dando a vida pelo rock. Um dia planejo parar, comprar uma casa em Ibitipoca e curtir uma vida mais tranquila." Nada mal para quem ainda é jovem demais para o rock and roll.

 

 

Referência cultural

Um dos motivos para a longevidade de Marcelo Panisset no meio musical não é apenas ser um empresário de sucesso. As amizades que fez ao longo de três décadas de rock o tornaram uma referência cultural em Juiz de Fora. Um desses parceiros de longa data é o compositor Hudson Coelho, com quem tocou na Contrabanda entre 1982 e 1987 e que atualmente é funcionário público, mas sem se desligar totalmente da música: ele participa do bloco de carnaval Parangolé Valvulado. "A gente fazia rock autoral com raízes mineiras, e tínhamos vigor para enfrentar qualquer parada. Fizemos um bom barulho na cidade, viajamos muito. Era uma época legal, em que um dia você estava na garagem e no outro explodia. Vivemos isso", diz Hudson, padrinho de uma filha de Marcelo, que considera um irmão. "Ele é meu melhor amigo. Acompanhei nesse tempo o grande empresário que ele se tornou junto com Wesley, eles são os heróis da resistência."

Desde 1991 no Eminência Parda, o guitarrista Danniel Goulart chegou a ser um dos sócios das duas primeiras encarnações do Cultural. Para ele, o senso empresarial de Marcelo ajudou o grupo em suas realizações, como a gravação de três álbuns e um DVD, além de ser uma pessoa que o ajudou imensamente a se estabelecer na cidade (ele veio do Tocantins). "O Marcelão me levava aos shows, me ajudou a conhecer muita gente. É um cara com um coração enorme, nos coloca para cima e tenta melhorar a vida dos amigos. Além disso, é um excelente produtor, tem um ótimo senso estético, artístico e empresarial", elogia o músico e também jornalista, que ainda empresta seu tempo à Fantástica Banda Invisível (a FBI) e toca com outros artistas locais.

Amigo de Marcelo há mais de 30 anos, Edson Leão (vocalista do Eminência Parda e de inúmeros projetos, como o Parangolé Valvulado e FBI) lembra que a Hudson Coelho e Contrabanda era um grupo "mítico em Juiz de Fora" na época. "Eles foram uma referência no circuito musical estudantil, fazendo um mix de MPB, rock, irreverência e lirismo. Foi o pessoal de outro grupo, o Raízes Gerais, que me apresentou ao Marcelo e ao Hudson. Quando vi, estávamos trocando ideias sobre música na casa dos pais do Marcelo." Para Edson, o espírito do amigo de transformar em realidade o sonho de produzir cultura de forma profissional foi fundamental. "O Marcelo, ao lado do Wesley Carvalho, dos demais integrantes do Eminência e das equipes com quem atuou em produção e sonorização, ajudou a desenvolver na cidade uma mentalidade de buscar conjugar profissionalismo nas produções, com a valorização da música popular enquanto arte, nadando sempre contra a corrente de cenários de crescente predomínio das formas mais rasas de música como entretenimento."

Wesley Carvalho, parceiro no Eminência e sócio no Cultural Bar, é outro a destacar a capacidade catalisadora do amigo. "Ele tem um olhar empresarial para coisa. Era capaz de de chegar e dizer 'vamos juntar dez amigos para comprar uma Kombi para a banda'."

 

Galeria de Imagens

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o subsídio do Governo vai alavancar a aviação regional?