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06 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Com diferenças de popularidade, Orkut e Facebook completaram dez anos; especialistas e usuários avaliam as plataformas

Por JÚLIA PESSÔA

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"O que falar sobre esta pessoa que eu tanto considero? Bom, vamos lá..." Qualquer um que esteve conectado às redes sociais na última década certamente se lembrará da expressão clássica que introduziu muitos dos chamados depoimentos do Orkut, em que se deixava um testemunho sobre outro usuário, no auge desta plataforma, lá pelos idos de 2004 ou 2005. Um tanto esquecido pelos internautas, o Orkut completou dez anos no dia 24 de janeiro- sim, ele ainda existe! Ainda mais surpreendentemente para muitos, o Facebook- a rede das "curtidas"-, também soprou dez velinhas poucos dias depois, no dia 4 de fevereiro.

Irrelevante no cenário de usuários brasileiros em seus primeiros anos, o Facebook de Mark Zuckerberg atualmente é a principal rede social utilizada não apenas por aqui, mas em quase todo o mundo, prova disso é que a abordagem das fontes para esta matéria se deu quase inteiramente pelo chat da rede, enquanto a página do Orkut - no qual, sim, a repórter ainda está inscrita, embora não utilize a conta - nem mesmo completou seu carregamento. O "Face"- como vem sendo chamado intimamente pelos brasileiros - foi responsável, inclusive, pela evasão de muitos usuários do seu parceiro de idade Orkut, deixando-o na atual situação de esvaziamento.

Para o especialista em redes sociais Renan Caixeiro, um dos fatores para esta diáspora do Orkut se deu porque, ao contrário da rede de Zuckerberg, a plataforma não soube se adaptar às necessidades dos usuários a partir das mudanças que ocorrem no ambiente on-line. "O Orkut não estava preparado para o acesso móvel, e, quando esta tecnologia passou a ser utilizada em massa, a rede foi perdendo usuários, ou fazendo com que eles se tornassem inativos, ainda que tivessem uma conta." Renan acrescenta, ainda, que o principal motor de interação do Orkut eram os tópicos discutidos em comunidades, modelo que evoluiu pouco com o passar dos anos. "Estes debates já ocorriam nos fóruns da internet e não avançaram muito na rede social. Já no Facebook, o foco sai da discussão de temas e vai mais para a interação dos usuários entre si e com os conteúdos postados por seus contatos."

Consultor em tecnologias, André Machado acrescenta que o Orkut perdeu espaço porque não soube tornar a rede social mais segura - era comum a dispersão de vírus e spams nos scraps (mensagens) - e com um design mais moderno, fluido. "Por outro lado, como foi a primeira rede social de massa no Brasil, ele foi essencial para que as pessoas começassem a entender a internet e suas potencialidades, pois foi por meio das discussões em suas comunidades e dos papos com amigos por lá que muitos estrearam sua vida on-line."

A gerente de projetos digitais Ana Paula Nunes destaca que outro ponto interessante do Orkut são as comunidades, que acabam servindo como meios de manifestação da identidade dos usuários na internet. "As comunidades definiam as pessoas no Orkut, por meio de seus gostos e preferências. Além disso, eu costumava rir muito com o nome e descrição de algumas. Os fóruns também eram ambientes bacanas para discussão, porque todos os inscritos compartilhavam os mesmos interesses." A especialista explica de maneira sucinta o efeito-cascata de saídas da rede social criada pelo turco Orkut Büyükkökten - caso você esteja curioso para saber de onde o nome veio. "Durante anos, foi 'cool' ter uma conta no Orkut, mas as pessoas começaram a migrar para o Facebook, e estar no Orkut deixou de ser legal. As redes sociais são formadas por pessoas, e elas querem estar onde seus amigos também estão."

 

 

Com a palavra, os usuários

Ex-usuário do Orkut, o dentista Alvaro Junqueira, que se considera um 'heavy user' das redes sociais - com alta frequência de acesso -, acredita que a plataforma se tornou obsoleta frente a outras ferramentas oferecidas pela rede de Zuckerberg. "O Facebook é mais fácil: tudo que você faz aparece na tela dos outros usuários, você sempre recebe a notificação. No Orkut, você tinha que ir à página de outra pessoa. A troca de ideias e informações ocorria apenas nas comunidades, tornando a coisa menos pessoal. O chat do Facebook também facilita ainda mais, acabando não só com o Orkut como com o MSN, programa de mensagens instantâneas, que já havia desbancado seu antecessor, o ICQ."

Para a estudante Diênifer Diniz, também fora do Orkut, um dos atrativos do Facebook, além da adesão em massa de seus amigos, é a possibilidade de ter controle sobre a privacidade em qualquer tipo de postagem, selecionando as pessoas que podem ver o que se publica. "Além disso, no 'Face' você pode dar uma espiadinha na página dos outros, que ele não mostra ao usuário que você esteve lá", brinca a usuária, lembrando que o Orkut possuía uma ferramenta que denunciava os "fuxiqueiros" da conta alheia.

Ao contrário de Alvaro e Diênifer, a jornalista Lidiane Souza não conseguiu abrir mão de sua conta na rede, embora admita não acessá-la há mais de um ano. "Acredito que tenho um apego pessoal às coisas que postei ali, como fotos, e às que deixaram para mim, como depoimentos. É uma memória virtual da minha vida adulta, me sinto satisfeita de saber que a informação continua ali, não se perdeu."Apesar de não largar o Orkut, a jornalista também cedeu aos encantos do "Face". "Com a facilidade atual de acesso à internet, seja pelos computadores portáteis ou pelos celulares, é difícil eu ficar desconectada. Chego a afirmar que a forma mais fácil de me achar é mandando mensagem pelo Facebook! Mas a rede social não faz parte apenas da minha vida pessoal. Atuo como assessora de imprensa, e uma das primeiras ações foi criar uma página oficial da instituição em que trabalho no Facebook. Temos tido um bom retorno sobre as notícias postadas lá."

 

 

Soberania questionável

Na visão do especialista em redes sociais Renan Caixeiro, tanto o Orkut quando o Facebook foram fundamentais na transformação das relações pessoais e como novas ferramentas de comunicação. "Ambos foram pioneiros como redes sociais de massa na internet, diferentemente de redes como o Twitter, o Instagram e o LinkedIn, por exemplo, que possuem um público muito específico. Cada um em seu período de popularidade, os dois foram canais importantes para a discussão de temas relevantes para a sociedade e mesmo de mobilização de pessoas em torno de causas relevantes no momento. Com eles, as redes passaram a fazer parte da vida das pessoas." Renan pondera, no entanto, que, como qualquer outra rede social, o Facebook só manterá sua "soberania" se conseguir se adaptar às demandas dos usuários. "Aplicativos como o Whatsapp e o Snapchat garantem a troca de conteúdos instantânea entre um grupo restrito de contatos - algo que o Facebook não faz com a mesma eficiência -, e vêm ganhando muita força com a popularidade dos smartphones."

A gerente de conteúdos Ana Paula Nunes observa a integração do Facebook com redes como o Twitter (microblog de mensagens com até 140 caracteres) e o Foursquare (geolocalizador) como um ponto positivo, já que os usuários buscam plataformas diferentes para atender objetivos específicos - e quem concentra as informações em um lugar só sai ganhando. "Estamos cada vez mais propensos a interagir com temas/assuntos que estejam dentro do nosso leque de interesses. A comunicação está seguindo essa tendência, está cada vez mais segmentada e voltada para nichos", diz ela, que também acredita que, algum dia, o Facebook possa perder a majestade. "Redes sociais são formadas por usuários com gostos e necessidades que mudam frequentemente."

No mesmo tom, o consultor em tecnologias André Machado acredita que a rede de Zuckerberg já está, inclusive, sendo trocada por outras ferramentas por variados motivos. "Entre os jovens, por exemplo, ele vem perdendo aceitação, seja por questões de privacidade ou porque os pais desses adolescentes adotaram o Facebook como forma de se conectar ao mundo. Mas como a rede social ainda tem bilhões no bolso, eles podem se reinventar com facilidade. O problema é que precisarão inovar e muito para se manter concorrendo com gigantes como Google (que vem ganhando um bom terreno com seu Google+ lá fora). Tudo isso é saudável, e a renovação é necessária no mundo da tecnologia. Caso contrário, ainda estaríamos esperando passar da meia-noite para pagar um pulso só na internet discada."

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