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16 de Março de 2014 - 06:00

Colecionadores garimpam e encontram relíquias em brechós, feiras livres e em páginas da internet

Por RENATA DELAGE

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Aquarela de Terrick Williams, achada em venda
Aquarela de Terrick Williams, achada em venda

 

Obras de pintores famosos, documentos históricos, peças fotográficas raras. Não somente galerias de arte ou museus históricos guardam raridades. Elas também poder estar dispostas em bancas de feira, entulhadas em garagens ou, ainda, escondidas em meio ao infinito emaranhado de anúncios na web. Vez ou outra, tais peças despertam olhares de colecionadores, artistas ou admiradores e saem do "anonimato".

Qual não foi a surpresa do chargista da Tribuna de Minas, Mário Tarcitano, ao descobrir que havia adquirido, por poucos trocados, duas aquarelas que poderiam ser obras de um dos pintores londrinos mais famosos do seu tempo. "Tinha o hábito de ir a uma venda de garagem, na casa de uma 'senhorinha' que morava no mesmo bairro que eu. O espaço era cheio de coisas importadas, que, segundo ela, tinham pertencido a algum parente que havia morado na Europa", conta Tarcitano, que, em seus "garimpos", já adquiriu peças diversas, como uma vitrola dos anos 1970 e até cadeiras do antigo Cine São Mateus, que hoje decoram sua casa.

Em meio à quinquilharia, duas pequenas aquarelas (cerca de 18cmX25cm), com aspecto já bem envelhecido, chamaram a atenção do cartunista. Ao indagar pelo valor das peças, a senhora lhe disse que custavam R$ 50, cada, e ele optou por não levá-las naquele dia. Retornando várias vezes ao local, para outras aquisições, Tarcitano não deixava de inquirir sobre as tais aquarelas a senhora, que, no fim das contas, acabou aceitando, pelas duas, R$ 15. Ao chegar em casa, retirou com cuidado a moldura já gasta e deparou-se, no verso de uma das telas, com nome e provável graduação de seu autor, bem como da obra: "Terrick Williams, ARA - Tree shadows - Cassis".

Não foi difícil, com o auxílio dos sites de busca, encontrar a biografia do pintor britânico John Terrick Williams (1860-1936), membro da Royal Academy de Londres, reconhecido, em sua época, como um dos pintores de maior sucesso da capital. Também foram encontrados registros de obras semelhantes atribuídas ao autor. "Achei interessante e optei por ficar com as duas aquarelas, que têm técnicas e dimensões parecidas, embora só uma esteja identificada", diz o chargista, que, só em 2013 - cerca de dez anos depois da descoberta -, com a ajuda de uma amiga que mora na Inglaterra, conseguiu encaminhar as obras para avaliação. A aquarela com indicações no verso foi reconhecida como legítima pela casa de leilões Bonhmas, de Londres, e, desde o fim do último ano, é anunciada em sua página na web, com lances previstos entre 600 e 800 libras (cerca de R$ 2.300 e R$ 3.100).

 

 

Cultura da barganha

O gosto pelo garimpo também é cultivado pelo artista plástico Petrillo. "Gostar de comprar arte é um vício", ri. À frente da galeria Hiato, o artista é alertado diariamente sobre o que circula no meio por intermédio de catálogos que chegam ao espaço. Mas, ainda assim, para ele, é a internet que figura como a ferramenta fundamental na atualidade para quem gosta de explorar. "Existem várias casas de leilão confiáveis no Brasil. Quando se aprende como funciona, você começa a se interessar e ficar de olho", diz o colecionador, que, certa vez, comprou, pela internet, uma obra do artista plástico local Dnar Rocha, locada em São Paulo. "Lá ele não era tão conhecido como é aqui, e o quadro estava em uma espécie de 'liquidação'", diz.

"É claro que existem mercados que fogem da nossa escala, que oferecem obras cada vez mais caras, mas um leilão - virtual ou não - é um espaço bem democrático. O público é bem diversificado, e as oportunidades sempre aparecem", avalia Petrillo, contando ainda já ter adquirido um tapete persa (4mX5m) por uma "ninharia" em um leilão de um espólio.

Abdicando de qualquer vaidade de colecionador, o artista plástico Vianno Rheim é um nato "caçador de relíquias", que são, muitas vezes, encaminhadas a acervos diversos. Objetos antigos de decoração - hoje tão valorizados pelo conceito "vintage" - e eletrônicos estão entre as preferências do artista, frequentador assíduo de feiras, como a famosa Feira da Avenida Brasil, aos domingos, além de brechós e páginas da rede. "Há quem busque por estética, por funcionalidade, mas o colecionador só para quando não tem mais dinheiro ou espaço", brinca. "A demanda existe, sempre existiu, na verdade, pois esse processo de troca, de barganha, é cultural."

Duas obras de Dnar Rocha - revendidas a particulares - também foram encontradas na feira pelo artista. "Para se certificar da autenticidade é preciso conhecer o que está procurando, mas, é claro, você sempre encontra coisas de todo tipo e, invariavelmente, assume um risco", avalia. Entre os achados mais inusitados de que se recorda, está uma pedaço de uma peça portuguesa encontrada por um conhecido na feira. "Era uma cabeça quebrada em ouro maciço, pesando mais de 3kg", conta.

 

 

Outros valores

Falar de valores significa, entretanto, caminhar por trilhas das mais pessoais. Para o tatuador e artista plástico Elisandro Calheiros, o hábito de garimpar em nada está ligado a investimento, mas os custos da arte contribuíram para voltar seu foco a certo tipo de busca. "Coleciono o que me agrada aos olhos, quase sempre coisas não tão óbvias, que, se ainda são não trabalhadas de forma artística, podem vir a ser, independentemente de seu valor de mercado", diz o tatuador, que há alguns anos se interessa por gravuras. "Até pouco tempo, a gravura não tinha valor artístico. Ainda hoje, você pode ter acesso a trabalhos de determinados artistas por um preço mais acessível", observa.

A pesquisa - não apenas por gravuras, mas por objetos diferenciados - é constante. Por meio do site de compra e venda Mercado Livre, Calheiros pôde adquirir obras de artistas nacionais que admira, como Renina Katz e Evandro Carlos Jardim, um dos maiores gravadores do país. "Não há fronteiras", conclui.

Referência no resgate de acervos fotográficos antigos, que, muitas vezes, vão parar no lixo, o fotógrafo Sérgio Neumann também já se deparou com peças raras nas frequentes idas a feiras livres, brechós e acervos pessoais da cidade. Uma das peças de destaque encontradas, segundo ele, é um aparelho para visualizar fotografias estereoscópicas (3D) em vidro, usado para fotografias dentárias, do fim do século XIX. "Nem podia imaginar que o recurso 3D já era utilizado na época", ressalta.

Explorando a feira na Avenida Brasil, Neumann identificou, entre os artigos à venda, fotografias do compositor e pianista do século XIX Franz Liszt. Autografadas, as imagens, mostravam o músico em seu ateliê. Indagando o expositor se teria mais imagens como aquelas, ouviu um sim como resposta e foi convidado a ir à casa do homem, para poder ver as peças com mais calma.

Na manhã de segunda-feira, como conta o fotógrafo, ele foi à procura do endereço indicado, para os lados do Bairro Grama. Do barraco simples, feito de madeira de construção, foi convidado pelo pessoal da casa, ainda sonolento, a entrar. O sol forte, que entrava pelas frestas da madeira, ofuscou por alguns segundos a visão do fotógrafo. "Quando fui levantando o olhar do chão de terra batida, vi uma enorme mesa de jacarandá, com tampo de casco de tartaruga e madrepérola, um piano alemão e outros móveis antigos", conta.

A história contada pela mulher da casa foi que, por muito tempo, havia trabalhado para um senhor alemão já bem idoso, no Rio de Janeiro. Sem parentes, a funcionária foi a única a acompanhá-lo durante a doença que o levou à morte. "Segundo ela, várias pessoas começaram, então, a ir à casa em que moravam para cobrar dívidas do tal senhor, levando vans inteiras de móveis, quadros e peças de arte. Ela abandonou a casa, veio para a cidade e trouxe consigo o pouco que havia restado."

Analisando o material, Neumann encontrou não apenas mais fotografias do século XIX, mas partituras de época, livros raros, documentos vindos da Alemanha. "Arquivos como esses, encontrados com famílias da cidade, se não vão para a feira de domingo, acabam indo para o lixo. É, muitas vezes, uma perda irreparável, pois são uma grande fonte de pesquisa social, econômica e histórica da nossa cidade."

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