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03 de Abril de 2014 - 06:00

Instalação projeta 'O quarto do artista em Arles', do impressionista holandês, permitindo ao espectador a reelaboração da subjetividade do pintor

Por MAURO MORAIS

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Rafael Ski Fernandes acerta os detalhes da exposição que começa amanhã e une o clássico ao tecnológico
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Entre a pintura e o espectador há um espaço físico que ora é abismo repleto de formalidades, ora é mero detalhe. Rompendo a distância e sugerindo uma interação que a arte clássica não comporta, a instalação que reproduz "O quarto do artista em Arles", que se apresenta no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas amanhã, sexta-feira, às 20h, e segue em cartaz até o próximo dia 27, insere o pintor Vincent Van Gogh na contemporaneidade das experiências sensoriais, conferindo-lhe a coerência constantemente discutida. Com medidas beirando o absurdo, toda a cena retratada pelo quadro de 1888 é projetada de forma a possibilitar a entrada do espectador no quarto e, sob uma perspectiva forjada no centro da galeria, o ambiente é visto de maneira exata como a pensada pelo impressionista holandês. "Esse é um quarto normal, onde todas as peças são paralelas, porém distorcidas. Existe uma coerência em tudo, nada é aleatório. Todo o trabalho do Van Gogh é um livro aberto, ele nunca escondeu as pinceladas, usa as cores cruas, brutas. Poeticamente falando, ao olhar um aposento o dele existe uma imersão, o que fizemos é essa imersão de forma literal", comenta o idealizador do projeto, Rafael Ski Fernandes.

Financiada pela Lei Murilo Mendes, a instalação se aproveita da robustez da obra reproduzindo em detalhes o que se imaginaria impensável, já que na pintura cama, cadeiras e mesa parecem flutuar em uma imagem que subverte a noção de perspectiva clássica. "Foi enlouquecedor, porque a principal dificuldade é não ter um marco zero, algo em que poderíamos confiar. Muita gente, para desenhar uma cabeça, primeiro faz o olho e depois faz o esboço restante. Em nosso caso não tínhamos nada", conta Rafael, que lançou mão de uma cuidadosa pesquisa arquitetônica para planejar o espaço. "Quando começamos a pesquisar e perceber toda a força que o Van Gogh tem no trabalho dele, constatamos que seria um absurdo fazer tudo em MDF, então, corremos atrás de madeira maciça para ter mais vida nesse quarto", completa, apontando o trabalho dos artistas Guilherme Melich e Luís Carbogim na pintura e entalhe da releitura em terceira dimensão.

"Em nossa homenagem ao artista, tentamos ser o mais verdadeiro e o mais respeitoso possível. Obviamente, estamos longe de alcançar toda a força que ele tinha no pincel. Inicialmente não precisaria de todos os detalhes, o software daria conta, mas a pesquisa nos pediu mais atenção à minúcias", afirma o idealizador, cuja proposta se iniciou com a manipulação de um programa de computador que remete ao trabalho dos pincéis. "O primeiro protótipo do projeto, que inspirou isso tudo, era um código livre que pegava um pixel da tela e corria com ele pela foto. Adaptei para que passasse da foto para uma câmera ao vivo, com o programa acompanhando com uma textura próxima à pincelada", explica Rafael, destacando que a programação final foi criada pelo espanhol Chema Blanco. Durante todo o período da exposição, os espectadores poderão ser fotografados, utilizando o efeito do software, dentro do aposento, imprimindo o registro no postal da mostra.

No site de "O quarto do artista em Arles" (www.oquartodoartistaemarles.art.br) também será possível entender a instalação. Um software de realidade aumentada apresenta o cômodo em 3D, com as medidas iguais as utilizadas para a produção do quarto. Ao colocar o selo do postal diante da webcam, o ambiente é projetado na tela do computador e, qualquer movimento das mãos, altera o aposento, que poderá ser visto em sua totalidade.

 

'Havia alguma coisa'

À medida que a instalação foi ganhando forma, também foi se intensificando e se espalhando pela grande equipe do projeto o desejo por conhecer, mais profundamente, a vida de Van Gogh. Reproduzido outras duas vezes, em 1889, o cômodo no qual Van Gogh viveu durante alguns meses, em Arles, pertence a grandes museus europeus, estando o primeiro sob a posse do Museu Van Gogh, em Amsterdã, e os outros dois no Instituto de Artes de Chicago e Museu d'Orsay, em Paris. Contudo, segundo Rafael Ski Fernandes, a grandeza do artista não está no fato de ter sido reconhecido posteriormente a sua morte, em 1890, mas no homem que foi durante sua vida. "Ele sempre fez denúncias, nunca quis pintar o girassol mais bonito porque o burguês da época queria um girassol bonito na sala. Isso nem passava pela cabeça dele. Ele acreditava no que fazia, mesmo que os senhores, que só davam lugar àqueles que só pensam como eles, não pensassem assim", diz, completando: "Tudo o que ele fez tinha ele por inteiro. A pintura do quarto representa uma espera ansiosa por um sonho em construir uma sociedade de artistas. Ele esperava o Gauguin chegar, e vários elementos são duplos, o que indica essa ansiedade. Apesar de tudo o que acontecia, ele sempre mantinha a esperança".

A admiração pelo pintor impressionista também se apresenta na história em quadrinhos que acompanha a exposição. Com roteiro sensível de Homero Nogueira, arte bastante original e reverente ao trabalho de Van Gogh feita por Teo e pesquisa de Rafael, "Vincent" recorre à afetividade expressa nas cartas deixadas pelo pintor, entremeando alucinações referentes à trajetória do artista na leitura do último dia de sua vida. Baseada em uma nova biografia, "Van Gogh: A vida", que desmente a hipótese do suicídio, a HQ joga luzes sobre o pensador. "Pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isso nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma coisa para o melhor, ficaria contente e diria: Enfim, afinal havia alguma coisa", escreveu Van Gogh, em carta, confirmando seu discurso constante e preocupado.

"Na sociedade, do jeito que ela é, a testemunha de um louco não é válida. Me incomodava o fato de todo mundo acreditar que ele se suicidar era uma opção óbvia: 'É lógico, ele era louco, cortou a orelha'. Isso é ignorar tudo de genial que ele fez. Se ele não se suicidou, há um argumento a menos que a burguesia tem para reduzir toda a denúncia que ele fez. Quando ele pinta um girassol não é uma flor comum, há todo um olhar para um mundo desigual. Esse é o grande legado deixado na arte do século XX. Ele se preocupava com a cor, igual aos impressionistas da época, mas trazia uma raiva do lugar que ele via", aponta Rafael, ressaltando a predileção do pintor por personagens humildes, capazes de refletir o lado desamparado de uma França sempre representada pelo luxo. No quarto do artista em Juiz de Fora fica visível que não havia apenas "alguma coisa". Ainda há algo muito maior, capaz de saltar da pintura, sorvendo o espectador.

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