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06 de Abril de 2014 - 06:00

Entrevista / Moyseis Marques, sambista

Por JÚLIA PESSÔA

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Nascido em Juiz de Fora, Moyseis Marques expande as fronteiras do samba em disco de voz e violão
Nascido em Juiz de Fora, Moyseis Marques expande as fronteiras do samba em disco de voz e violão

A voz aveludada ao telefone não deixa dúvidas de que quem fala do outro lado da linha faz dela um instrumento, musical e de trabalho. Aos 35 anos, Moyseis Marques é um dos nomes mais proeminentes da atual geração de sambistas da Lapa, no Rio de Janeiro, embora faça questão de destacar que o termo não limita o gênero musical em termos espaciais ou de diálogos com outras vertentes. "O 'samba da Lapa' é da cidade inteira, de todo o Brasil. Este termo é meio mercadológico, criado por rádios, mercado fonográfico e outros meios de difusão da música. Não escolhemos ser o samba 'de lá', mas isso ajuda a referenciar, identificar uma geração de artistas que estava produzindo e ocupou a Lapa porque era o lugar que havia para ser ocupado", diz o músico.

Nascido em Juiz de Fora e tendo se mudado para o Rio com apenas 20 dias de vida, Moyseis começou a se enveredar pela música profissional em 1998. Em 2001, começou a tocar em bares do bairro carioca que ajudou a revitalizar por meio do samba, junto a nomes como a já consagrada fora dos arcos Teresa Cristina, além de Marquinhos de Oswaldo Cruz, Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti, Pedro Miranda, entre tantos outros. De lá para cá, foram seis anos dando aulas de música brasileira para cantores na Califórnia, três bandas fundadas (a queridinha do público e habituée em Juiz de Fora Casuarina, Forró na Contramão e Tempero Carioca), quatro CDs ("Moyseis Marques", 2007, "Fases do coração, 2009, e "Pra desengomar", 2012, e o mais recente "Casual solo", de voz e violão, lançado no início do ano) e duas indicações para o Prêmio da Música Brasileira.

No novo disco, gravado na Califórnia e feito com adesões dos músicos norte-americanos Brian Morin (violão de sete cordas), Brian Rice (percussão) e Harvey Wainapel (clarone), Moyseis extrapola o samba. Em "Casual solo", o músico dá voz a parcerias feitas com João Callado, Marcello Gonçalves, Mauro Aguiar, Moacyr Luz (na inédita 'Amor de sol nascente') e Vidal Assis, mas também se exercita como intérprete. Flertando com diferentes vertentes musicais, ele sai da zona de conforto, abordando composições de peixes grandes como Bob Marley ("Is this love?"), Jards Macalé ("Anjo exterminado"), Luiz Carlos da Vila ("Horizonte melhor"), Ray Noble (The very thought of you") e Toninho Horta ("Aqui,ó").

Engajado com sua música, o autodeclarado "mineiro fajuto" questionou um evento ocorrido no mês passado na Fundição Progresso, promovido por uma rádio carioca, o Samba Social Clube, que se vendia como o maior encontro de samba da atualidade, e tinha estrelas como Jorge Aragão, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, entre outros, mas deixou de contemplar artistas que, como ele, estiveram na base do movimento de retomada cultural da Lapa. "Quero ser conhecido pela minha obra. A música proporciona uma série de outras coisas, e parece que até certo ponto elas atualmente estão se tornando maior do que a arte em si. É aquela coisa de ter que reduzir letras para 'publicizar' etc. A chamada 'geração da Lapa' uniu a universidade da noite à universidade propriamente dita e acabou criando um movimento noturno que foi crescendo ao longo dos nos. Aí vem uma empresa grande e vê que isso dá lucro, cria 'o maior encontro de samba' e não nos chama? É como se dissessem: 'agora que o samba está grande não precisamos mais de vocês'", conta o artista, que planeja agora a gravação de um DVD com a síntese de seus quatro trabalhos.

 

Tribuna - Você nasceu em Juiz de Fora, cresceu na Vila da Penha e é um dos ícones do samba atual da Lapa. Como todas essas referências se reúnem na sua música?

Moyseis Marques - Acho que minha ancestralidade mineira acaba surgindo involuntariamente na minha música. Neste último disco que gravei, tem uma música do Toninho Horta, depois de muitos anos fui descobrir que era conterrâneo de Geraldo Pereira, Clara Nunes, outra grande referência, além de Milton Nascimento e de todo o Clube da Esquina. Minha vivência no subúrbio do Rio com certeza também é determinante para a música que faço hoje. Passei a infância e a adolescência entre os anos 1980 e 1990 em meio a uma grande efervescência do samba, quando estavam em voga artistas como Lecy Brandão, Jorge Aragão... o Cacique de Ramos estava surgindo. E também vivia isso nos pagodes em que ia, na época do auge de grupos como Raça Negra, Só Pra Contrariar, que estavam direto nas rádios. Isso tudo acabou construindo um inconsciente musical que culminou na minha carreira, de quase 15 anos dedicados exclusivamente ao samba.

 

- Qual a importância da Lapa no processo de difusão histórica do samba e na retomada dele nos últimos dez ou 15 anos?

- A Lapa sempre teve um papel muito importante para a sobrevida do samba. Mas a de hoje não é a mesma de Geraldo Pereira, de Madame Satã, de Noel (Rosa). Hoje diria que ela é responsável por 90% da vida noturna do Rio, além de ser uma Lapa mais democrática. O samba de lá hoje reúne todos os tipos de samba já feitos: o mais antigo e tradicional, quase rural, os de carnaval, os que têm influências nordestinas, enfim, é um gênero musical que assimila tudo isso. Harmonicamente, na minha opinião, ele se aproxima mais do jazz e da bossa nova do que do samba de raiz, tem mais a ver com o que se convencionou a chamar de MPB. Falo em convenção porque Chico Buarque, João Bosco, Caetano Veloso, Gilberto Gil são grandes expoentes dela e são compositores que fazem de tudo, inclusive samba. Mas conservamos aquele tempero, aquela batucada característica: o repique de mão, o tantã, e outros elementos. O samba ficou mais harmônico mas não ficou erudito, não deixou de ser popular. Essa geração de músicos da Lapa é sem preconceitos, vai do forró à bossa e faz todo tipo de samba, samba-rock, samba-jazz, não apenas de raiz. Queremos também caule, folhas e frutos, mas com a raiz bem regada (risos).

 

- E também há democracia nos espaços de divulgação desta música?

- Não, e isso não é de agora, é algo antigo, só vai mudando de nome: jabá, permuta, caixa de rádio... O que eu questiono mais é a não democratização destes espaços. Antigamente as rádios tocavam as músicas porque 'gostavam delas', e hoje há todo um mercado de músicas feitas para tocar no rádio. Minha geração vive uma fase de transição em que a internet está avançando cada vez mais na divulgação do trabalho, mas a rádio ainda é um dos maiores canais para isso. Como vou saber sobre a recepção da minha música se ela não toca na rádio?

De olho neste nicho, muita gente confunde o popular pelo popularesco, que é muito do que se ouve aí e é o tipo de música rasa, de fácil assimilação, entretenimento puro. Acho que a música cumpre diversos papeis, inclusive o de entreter, mas o que tenho visto é este entretenimento assolando a poesia.

 

- Como você compara o "Casual solo" com outros trabalhos seus?

- Os outros discos são exclusivamente de samba. O "Casual solo", para mim, é como se fosse meu primeiro álbum novamente. Ele marca meu retorno ao violão, algo que foi o lado compositor que chamou. Nele, tive a oportunidade de mostrar tudo que me influenciou: MPB, forró, valsa, muitas coisas, e claro, o samba. Visto o manto de sambista com prazer, só não gosto que me reduzam a ele. É um assunto com o qual tenho intimidade, e vou fazer para sempre, mas tenho tentado ir além dele. A poesia está muito presente neste disco, e acho que, muitas vezes, em trabalhos anteriores, ela pode ter sido relegada a segundo plano por causa da orquestração e da batucada. É como se estivesse me sentindo dono, de fato, da minha música. Pela primeira vez, me sinto muito livre. A voz e o violão dão uma pegada romântica, e, de fato, há declarações de amor à minha filha, ao Rio, à natureza, enfim, sou um cantor romântico, eu acho. Jazzista e pagodeiro, não tem como fugir disso (risos).

 

- Pretende fazer um lançamento do disco em Juiz de Fora?

- Poxa, lamento ainda não ter tocado na minha cidade natal, onde tenho muitos fãs, pelo que acompanho nas redes sociais. Entrei em contato com lugares para fazer show, e a resposta que obtive foi a de que "não trabalhavam com música autoral". Achei isso muito estranho. Sou do samba, também toco clássicos, mas até eles são autorais, alguém os fez! (risos). Acho isso uma castração ao ímpeto criativo, em um momento em que o frescor está tão escasso. Ainda não consegui, mas vou seguir tentando cavar este espaço.

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