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08 de Julho de 2014 - 07:00

Por Fernanda Finotti C. Perobelli, Rodrigo Rodriguez, Alisson Vasconcellos, Beatriz Machado, Claudia Faria, Igor Almeida, Lucas Picardi, Matheus Dilon e Rodrigo Garcia

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Em 30 de junho de 1994, matéria especial da Tribuna ("Real - sua nova moeda") anunciava: "a inflação tem queda brusca e terá que ser mantida em nível baixo". Parecia lei, e foi. Vinte anos e pelo menos oito crises depois, o Plano Real é, de longe, o mais bem sucedido plano de estabilização monetária da história do Brasil. Seu principal objetivo: acabar com os incríveis índices de inflação suportados pelos brasileiros (2.300% a.a. apenas em 1993), que consumiam o poder de compra dos cidadãos e criavam um clima de insegurança generalizado.

A eficácia do Real se destaca quando comparada à de seus antecessores - um conjunto de fracassos na tarefa de debelar a hiperinflação pela via do corte de zeros, congelamento de preços e escassez de bens (quem não se lembra do Plano Cruzado, de 1986, quando a carne bovina simplesmente desapareceu do mercado?). Como a inflação é resultado do excesso de gastos quando comparados à oferta de bens e serviços, os planos falhavam ao não atacar esses componentes, concentrando-se no valor nominal da moeda, que é consequência e não causa da inflação.

Tome o exemplo do açúcar: o pacote de cinco quilos, que custava CR$ 17.600 um dia antes da implantação do plano, passou a ser vendido por R$ 6,40 no dia seguinte. Mas não bastava simplesmente dividir tudo por 2.750 (a taxa de conversão entre CR$ e R$). Por isso, a primeira etapa do plano consistiu em eliminar gastos governamentais excessivos (daí as privatizações, que livraram o Governo do compromisso de investir em atividades não essenciais). A segunda fase foi a criação de um padrão monetário estável, a URV (depois transformada em Real), atrelada à taxa de câmbio diária, mantida em torno de R$/US$ 1. Logo no primeiro mês de vida da nova moeda, a inflação caiu de 46,58% a.a. (junho) para 6,08% a.a. (julho); a taxa de consumo de itens considerados "de elite" (como o iogurte e o frango) explodiu nas classes C e D. E, com o fim do imposto inflacionário, houve, entre 1993 e 1995, redução de 18,47% na população miserável do país, um dos melhores índices da história.

Nos primeiros anos (1994-1999), a âncora cambial mantinha a paridade real-dólar. O grande problema desse sistema era a dependência ao influxo de dólares na economia (a enxurrada de dólares disponíveis mantinha a moeda norte-americana desvalorizada). Entretanto, para que houvesse atração permanente de dólares, a taxa de juros era mantida alta, a fim de compensar os riscos dos investidores externos. Como consequência, houve aumento da dívida pública interna (indexada aos juros). Além disso, o real valorizado levou a uma alta das importações (baratas) e à diminuição das exportações (caras), o que gerou estagnação interna e desemprego. O cenário se tornou insustentável em 1999. Houve então a maxidesvalorização do real (de R$/US$ 1,32 para R$/US$ 2,16 entre janeiro e março de 1999), e o Brasil passou a adotar o sistema de metas de inflação, abandonando a âncora cambial. Por esse sistema, o governo abriu mão do único artificialismo do plano (a âncora) e passou a se comprometer com o controle rígido dos gastos públicos para manter a inflação no centro de uma meta pactuada (atualmente, 4,5% a.a., podendo chegar a 6% a.a.).

Após 20 anos de sucesso, o real passa por uma nova crise. Há um debate em torno da dualidade inflação x crescimento. Para estimular este último, o Governo tem optado por desconsiderar o pilar do plano, a austeridade fiscal, aumentando consistentemente seus gastos (e a demanda) com programas assistencialistas e congelamento de tarifas públicas (energia, combustível), ao invés de investir em medidas de estimulo à oferta (como redução do custo Brasil). Com a demanda superior à oferta, 2014 deve fechar com a inflação acima do teto da meta (em torno de 7% a.a.). Apesar de distantes no tempo, os períodos de inflação catastrófica que vivemos não devem ser esquecidos. A estabilidade dos preços é, na verdade, o primeiro passo para o crescimento sustentável e não sua oponente.

 

Fernanda Finotti C. Perobelli, Rodrigo Rodriguez, Alisson Vasconcellos, Beatriz Machado, Claudia Faria, Igor Almeida, Lucas Picardi, Matheus Dilon e Rodrigo Garcia

Conjuntura e Mercados Consultoria Jr.

Faculdade de Economia/UFJF

Email: cmcjr.ufjf@gmail.com

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