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01 de Julho de 2014 - 07:00

Por Admir Betarelli

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#naovaitercopa, #melhorcopadetodosostempos, #deuzebranobolao.... Em retrospecto, as mudanças parecem ser a única constante na Copa do Mundo do Brasil. Na arena econômica, qual o melhor palpite?

Desde a sua confirmação, em meados de 2009, a Copa de 2014 tem levantado um debate acerca dos prováveis custos e benefícios para a economia brasileira. Dois estudos indicaram que a preparação do evento teria um impacto modesto de 0,2% no PIB. No curto prazo, parece ser evidente que os investimentos em reformas e construção de estádios e infraestrutura urbana geraram, em alguma medida, ganhos econômicos ao impulsionar atividades ligadas à construção civil e ao nível de emprego no país. Esse impulso foi complementado pela demanda adicional por turistas brasileiros e estrangeiros no comércio e serviços das cidades-sede, com impactos na renda e emprego locais.

Recentemente, o Ministério do Esporte divulgou que a Copa está gerando cerca de um milhão de empregos no país, o que equivale a mais de 15% dos 4,8 milhões de empregos formais registrados ao longo do governo Dilma. Contudo, esses empregos adicionais têm grandes chances de serem meramente temporários. Tome-se como exemplo os empregos adicionais gerados pela Copa-2006 na Alemanha e pela Copa-2010 na África do Sul, quase totalmente temporários. Como agravante, o aumento na renda gerada pelos novos postos de trabalho e na demanda por produtos e serviços tem impactos negativos nos preços. E, diante dos contratos indexados à inflação, afeta outros setores, como o imobiliário (aluguéis), gerando um ciclo vicioso.

A despeito disso, a Copa 2014 deve deixar obras importantes, correto? Mais ou menos. O total de investimentos previstos para receber a Copa passou de R$ 15,4 bilhões em 2010 para cerca de R$ 25,5 bilhões em 2013. Destes recursos, cerca de 32% representam reforma ou construção de estádios, enquanto que obras de mobilidade urbana atingem aproximadamente 27%. Esses números sinalizam que a Copa do Mundo do Brasil não foi utilizada prioritariamente como regeneradora da infraestrutura urbana, ao contrário do que ocorreu nas Olimpíadas de Barcelona (1992) e de Seul (1988). Uma infraestrutura urbana plenamente revitalizada poderia gerar ganhos econômicos significativos, por fornecer um impulso à produtividade da própria economia. Estima-se que a melhoria da infraestrutura urbana seja capaz de gerar um acréscimo de 0,4% no PIB brasileiro no longo prazo, após o evento.

Os benefícios de um megaevento esportivo são destacados como forma de justificar o financiamento dos investimentos e os prováveis custos após o evento. No Brasil, os esforços dos municípios-sede para suportar esses custos podem acarretar em elevação significativa e duradora de sua dívida e, por consequência, na redução de outros gastos e/ou elevação dos impostos. Recentemente, a UOL Esporte apurou que o financiamento das obras previstas para a Copa-2014 aumentou em 30% (média) o endividamento de oito cidades-sede do Mundial. As prefeituras desses municípios contraíram R$ 3,7 bilhões em empréstimos com a União e via BNDES. Vale lembrar que somente em 2006, 30 anos após a realização dos Jogos Olímpicos em Montreal, a cidade conseguiu sanar sua dívida, de cerca de R$ 2,8 bilhões.

Os custos que o setor público enfrenta por financiar estádios podem ser ainda maiores, pois incluem não investimentos em outras áreas, como saúde e educação, e gastos com a própria manutenção das obras. Um estudo da consultoria KPMG apurou que o ranking de custo por assento nos estádios construídos no mundo apresenta dez brasileiros entre os 20 mais caros. O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é o campeão do Brasil, ocupando a terceira posição no ranking (custo total de R$ 1,43 bilhão e de R$ 20.700 por assento). O problema torna-se ainda mais sério se não houver um planejamento da demanda pós-evento para os estádios construídos, o que implica em altos custos de manutenção por insuficiência adequada de operação. Nesse quesito, a Arena da Amazonas, com capacidade 44.500 pessoas e baixa demanda provável pós-Copa, é a que mais preocupa. Olhando em retrospecto, a Copa do Mundo é nossa, bem como o ônus econômico que ela vai deixar.

 

Admir Betarelli

Conjuntura e Mercados Consultoria Jr.

Faculdade de Economia/UFJF

E-mail: cmcjr.ufjf@gmail.com

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