A bebida alcoólica mais tradicional do Brasil está recebendo novos estímulos para ganhar status de destilado nobre. Prova disso é o crescimento do número de alambiques que buscam certificação e se profissionalizam no estado. Somente em Minas Gerais, 221 cachaças de destilarias conseguiram certificado no Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), sendo 33 delas na Zona da Mata. A principal aposta é que os eventos esportivos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 ajudem o país a divulgar sua bebida mais conhecida e, consequentemente, projetem os produtores mineiros no mercado internacional.
Apesar de ser a terceira bebida destilada mais consumida do mundo, perdendo para a vodca e o shochu (bebida típica do Japão, destilada a partir da cevada, batata doce ou arroz), o Brasil exporta somente 1% de sua produção anual, de cerca de 1,3 bilhão de litros, segundo o Centro Brasileiro de Referência da Cachaça (CBRC). O México, por exemplo, produz 260 milhões de litros anuais e exporta metade desse volume.
Ainda de acordo com informações do CBRC, uma das principais barreiras da bebida no mercado hoje é a falta de padronização e também as produções de pequenas quantidades por parte dos alambiques, o que dificulta o atendimento à demanda do mercado externo. Existem hoje no país quatro mil marcas de cachaça e 40 mil produtores.
Para o fiscal agropecuário do IMA e responsável pela certificação de cachaça da coordenaria regional do órgão em Juiz de Fora, Jeferson Paes dos Santos, o principal entrave para a expansão do mercado são os alambiques clandestinos, que, segundo ele, representam 90% do total de destilarias no estado. Porém, de acordo com ele, muitos estão buscando a profissionalização para aproveitar o bom momento da bebida no mercado. "Antes, a cachaça era um artigo consumido apenas por pessoas mais velhas, de classes mais baixas. Agora, vemos muitos jovens procurando a bebida, e as pessoas estão mais dispostas a pagar mais caro por produtos de melhor qualidade."
A expectativa do instituto para 2012 é que o número de cachaças certificadas no estado cresça pelo menos 10%.
Profissionalização é aposta de produtores
As 33 cachaças de alambiques certificados na Zona da Mata estão localizadas nas cidades de Abre Campo, Além Paraíba, Barra Longa, Carangola, Dom Silvério, Espera Feliz, Eugenópolis, Guaraciaba, Mar de Espanha, Oratórios, Pedra Dourada, Porto Firme, Santa Cruz do Escalvado, São João Nepomuceno, Raul Soares, Rio Casca e Santo Antônio do Grama. Deste total, 15 são orgânicas.
Paulo Roberto Alves, que destila a cachaça Canônica, de Além Paraíba, é um dos produtores que mantêm a fabricação orgânica. "Com química, é difícil obtermos um produto de qualidade máxima", comenta. A Canônica é produzida desde 2003 e entrou no mercado em 2005.
Presente há pouco mais de dois anos no mercado, a cachaça Taruana, produzida em Taruaçu, distrito de São João Nepomuceno, ficou classificada como a sétima melhores bebida do estado em premiação promovida pelo Governo de Minas, no ano passado. A cachaça é produzida desde 2007 na Fazenda São Luiz, mas só passou a ser comercializada depois de legalizado o processo no Ministério da Agricultura, em 2009. Atualmente, a produção anual é de 30 mil litros.
Segundo o produtor, Fernando de Castro Furtado, a preocupação de vender um produto de qualidade fez com que o alambique buscasse a certificação do IMA e também do Inmetro, sendo a primeira destilaria de Minas a receber o selo do instituto nacional. "Atingimos 100% de conformidade com as norma do Inmetro." Comercializando o produto em Juiz de Fora, Ubá e cidades vizinhas, o produtor diz que está se preparando para o plantio da cana-de-açúcar orgânica. Para apresentar o produto, Furtado participa de exposições e oferece degustação em eventos.
O produtor da cachaça Barrosinha, Eduardo Dutra dos Santos, possui também uma marca própria voltada exclusivamente à exportação, a Bossa Nova. Tendo como principais clientes os Estados Unidos (Denver) e a Inglaterra (Londres). A valorização do real frente ao dólar, no entanto, reduziu o ritmo de exportações. "Tenho cem caixas paradas. Atualmente, não está valendo muito a pena."
Já Antero Ferreira Junior, proprietário Fazenda Novo Calambau, em Mar de Espanha, está há 15 anos no mercado e trabalha com uma produção anual de 60 mil litros, de quatro marcas (Fonte Velha, Caipirona, Leviana e Manuel e Joaquim). A última é produzida exclusivamente para a rede de bares com o mesmo nome, no Rio de Janeiro.



$msg
Mais comentários