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06 de Maio de 2014 - 07:00

Por Fernanda Finotti Cordeiro Perobelli

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É bastante provável que você já tenha ouvido o termo 'efeito borboleta' pelo menos uma vez na vida. Segundo a boa e velha cultura popular, o termo é usado para descrever a situação em que o bater de asas de uma simples borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo. Não sem razão, analistas se referem às turbulências econômicas como legítimos exemplos de efeitos borboleta.

Ao ler um jornal ou assistir ao noticiário na TV, você já deve ter se perguntado o porquê de tanto interesse pelo que se passa na longínqua região da Criméia (onde fica isso mesmo?) ou mesmo nas conferências do sisudo Banco Central Europeu. Se você ainda não encontrou resposta a essa questão e, pior, já até perdeu o interesse pelo noticiário, talvez essa coluna, que, a partir de hoje, passa a ser publicada, às terças-feiras, na Tribuna, te ajude a entender porque os sistemas econômicos estão sempre mudando à mercê de 'efeitos borboleta' e porque a Criméia pode ser mais perto do que você imagina.

Para começar a entender o porquê disso, imagine uma situação ideal na menor unidade econômica que existe: sua família. Imagine que você saiba quanto vai receber no mês e que gastará em conformidade com esse orçamento. Você aplicará as eventuais sobras (poupança) no sistema financeiro, a uma taxa de juros conhecida, e fará planos para os rendimentos a serem obtidos no futuro, de tal modo que sua aposentadoria seja tranquila. O banco onde você escolheu depositar sua poupança vai emprestá-la a uma empresa que queira fazer investimentos de longo prazo, gerando emprego e renda. Nesse país de prosperidade, o Governo arrecada impostos de maneira não abusiva (como há várias empresas produzindo lucro e várias pessoas recebendo renda, pode recolher pouco de uma base grande de contribuintes) e, principalmente, jamais gasta mais do que arrecada, podendo ser ele próprio motor de saúde, educação, logística e infraestrutura. Bom, não?

Pois agora, imagine o contrário. Também começando dentro de uma simples família... Essa segunda família gasta mais do que ganha. Ante a 'fatalidade' de não conseguir fechar as contas do mês, toma dinheiro emprestado, pois não consegue (ou considera muito custoso) reprogramar os gastos. No mês seguinte, ao descobrir que não pode pagar o valor tomado emprestado, fica inadimplente. O problema se agrava, mês após mês, de tal maneira que o descontrole da família se alastra, pois o dinheiro que a família tomou emprestado no sistema financeiro não era do sistema e, sim, de outras famílias, que lá colocaram suas poupanças. Como esse dinheiro não foi direcionado para investimentos produtivos (capazes de gerar receitas e lucros), não há como devolvê-lo aos poupadores. As empresas também foram prejudicadas, pois não tiveram recursos para investir. O Governo teve que criar um programa assistencial para a família descontrolada, já estando ele mesmo em franco descontrole financeiro, pois não há impostos suficientes a serem arrecadados de empresas e nem de famílias (há famílias perdendo o emprego e a renda em decorrência da perda de vigor das empresas). Some-se a isso patologias não econômicas, como a corrupção, e o que se tem é um Governo gastando mais do que arrecada, vendendo títulos para obter os recursos de que necessita (normalmente elevando as taxas de juros da economia para estimular tal venda), empresas sem recursos para investir e, no fim da cadeia, famílias sofrendo com a perda do emprego e de seus rendimentos.

Numa economia globalizada (onde os fluxos de renda transitam entre famílias, empresas e governos do mundo inteiro), o bater de asas de uma borboleta na Criméia pode detonar não apenas o Brasil, mas, muito pior, seu emprego, sua renda e sua aposentadoria feliz. A essa altura, esperamos já tê-lo convencido de que a economia, não apenas a doméstica, mas a do mundo inteiro, é assunto para ser discutido no almoço de domingo, na frente das crianças de preferência, para que elas aprendam, desde muito cedo, a importância da educação e da saúde econômico-financeiras.

 

Fernanda Finotti Cordeiro Perobelli

Conjuntura e Mercados Consultoria Jr./UFJF

E-mail: cmcjr.ufjf@gmail.com

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