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02 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Estudantes abrem mão de salários, apostando na experiência como diferencial, e oferecem serviços pela metade do preço da concorrência

Por FABÍOLA COSTA

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Primeira empresa júnior de MG e terceira do Brasil, a Masci está há 23 anos no mercado
Primeira empresa júnior de MG e terceira do Brasil, a Masci está há 23 anos no mercado
Com 21 anos de atuação, a Campe foi a primeira a obter a certificação de qualidade ISO 9001
Com 21 anos de atuação, a Campe foi a primeira a obter a certificação de qualidade ISO 9001

As empresas são pequenas, mas reúnem grandes marcas em seus portfólios. Os integrantes ainda não deixaram as salas de aula, mas conquistam espaço no mercado, oferecendo soluções ao meio empresarial a preço de custo. São acadêmicos, mas contam com a retaguarda de mestres para a execução dos projetos. Enquanto 24% das pequenas e médias empresas do país fecham as portas antes de completar dois anos, há empresas juniores (EJ) com mais de duas décadas de atuação na cidade. O faturamento de cada negócio pode chegar a R$ 100 mil por ano, conforme estimativa divulgada pelo Núcleo de Empresas Juniores (NEJ) da UFJF. Se para os universitários é a oportunidade de ingressar, atuar e se qualificar no mercado, para os clientes é a chance de contar com ampla oferta de serviços pela metade do preço cobrado pelo concorrente sênior. Ao todo, 15 delas atuam em Juiz de Fora.

A primeira empresa júnior de Minas Gerais - e a terceira do Brasil - é juiz-forana. A Masci - Machado Sobrinho Consultoria Integrada - está há 23 anos no mercado, oferecendo serviços, como plano de negócios e de marketing, assessoria financeira e pesquisa de mercado. É formada por 21 estudantes, que cumprem jornada de 20 horas semanais. Eles não são remunerados, mas recebem da instituição descontos nas mensalidades, que variam de 25% a 100%. Conforme o diretor de Marketing da Masci, Henrique Itaborahy de Queiroz, 22 anos, por não remunerar os membros da empresa, é possível reduzir custos e praticar valores menores. "Em relação aos concorrentes, nossos preços variam em até 300%."

Conforme Henrique, os gastos para prover a Masci giram em torno de R$ 3.500 por mês, viabilizados através dos contratos firmados com clientes. "Além de conseguir manter a empresa, ainda buscamos cursos para os integrantes estarem capacitados." O aluno do 5º período do curso de engenharia de produção da Faculdade Machado Sobrinho destaca os ganhos da experiência, como realizar network, administrar uma empresa no início da carreira e exercer cargos de liderança. "As maiores dificuldades estão relacionadas à alta rotatividade e à motivação, ou seja, tentar manter pessoas dentro da empresa mesmo sem receber salários."

No mercado há 21 anos, a Campe Consultoria Júnior, vinculada à UFJF, foi a primeira empresa júnior do mundo a obter a certificação de qualidade ISO 9001. "Provamos que nossa consultoria é de alta qualidade e conquistamos empresas grandes. Elas veem que nosso trabalho se equipara ao de consultorias de mercado e por isso nos procuram", orgulha-se o presidente, Derkian Damasceno, 22. A Campe é formada por 20 estudantes. Todos trabalham voluntariamente e, ao final da gestão, recebem certificado de participação, que é incorporado ao currículo.

Derkian não divulga em quanto o serviço oferecido pela empresa júnior é mais barato, mas reconhece ser mais acessível. O recurso obtido com a venda dos projetos - a única fonte de receita da empresa - é revertido para o negócio (infraestrutura, softwares e material institucional), além de cobrir custos de gestão e capacitação dos integrantes, por meio de cursos e treinamentos. "A empresa júnior possibilita ao empresário adquirir um serviço que, via de regra, apenas grandes empresas poderiam pagar." Já para o aluno, é destacada oportunidade de praticar o que se aprende em sala de aula, além do desenvolvimento pessoal e profissional. Na avaliação do estudante do 6º período de administração da UFJF, a maior dificuldade é conciliar os estudos com a atividade empreendedora. Além do volume de trabalho, ele cita desafios a serem vencidos diariamente, como cobrança dos clientes, necessidade de cumprimento de prazos e tomada de decisões estratégicas. A Campe desenvolve projetos nas áreas de marketing, finanças, recursos humanos, gestão e produção.

 

Parcerias

Há sete anos, o Sindicato do Comércio (Sindicomércio) realiza pesquisas de campo com a Masci Consultoria. Além do comportamento do consumidor em datas comemorativas, também são realizadas consultas junto ao empresariado sobre a entidade de classe. "Valorizamos esse tipo de trabalho", destaca o presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti. Com a parceria, avalia, além de o estudante ter contato direto com consumidores e empresários, fortalecendo o chamado network, também é possível reduzir custos, já que, assim como o sindicato, a empresa júnior não tem finalidade lucrativa. Conforme Beloti, um dos resultados do trabalho foi a criação de um departamento de recursos humanos na entidade, mediante demanda apresentada pelos empresários em uma das sondagens realizadas pelos universitários.

A Haec Congel firmou parceria com a Campe Consultoria para desenvolver projeto de estruturação e organização do negócio. Conforme o diretor Hélio Abreu, o trabalho está em curso. Embora ainda não possa avaliar os resultados, fez elogios ao tratamento oferecido pelos alunos. "É um pessoal da melhor qualidade, muito atencioso." Além do apoio ao empreendedorismo jovem, "temos que dar toda a oportunidade para que desenvolvam o trabalho deles", diz. O diretor reconhece que o custo acessível favorece a contratação por empresas de diversos perfis. "Acredito que o custo benefício se justifique."

 

 

Experiência favorece inserção

O analista do Sebrae João Paulo Palmieri destaca a força das empresas juniores. "Instituições de ensino utilizam desse mecanismo para engrandecer o currículo dos alunos." Ele elogia o trabalho tutorial realizado por professores e coordenadores dos cursos, adequando a produção dos alunos às necessidades do empresariado. "As empresas juniores, muitas das vezes, conseguem oferecer um bom trabalho a um preço abaixo da realidade de mercado." É dele a estimativa de redução média de 50% ante os valores praticados pela concorrência. A avaliação é compartilhada pelo Núcleo de Empresas Juniores (NEJ).

Para Palmieri, o acompanhamento dos professores reduz o risco de problemas com o serviço prestado. Na sua avaliação, porém, um projeto assessorado ou não por uma empresa júnior deve ter envolvimento direto do empresário para que seja bem-sucedido. Além da possibilidade de empresas juniores ganharem vida própria e se tornarem empresas médias, o analista destaca a chance de inserção do profissional júnior no mercado.

Este foi o caso do universitário Pedro Conforte da Silva Lemos, 21. Depois de integrar a equipe da Campe e antes mesmo de se formar, ele conquistou uma vaga em uma das empresas parceiras: a U&M Mineração e Construção. Pedro, que participava dos treinamentos oferecidos pela empresa, concorreu a uma vaga, estagiou por mais de um ano e, há dois meses, foi efetivado como assistente de pessoal. Para ele, que vai se graduar em setembro em administração de empresas, a experiência "faz toda a diferença". Embora valorize o conhecimento teórico adquirido em sala de aula, o universitário ressalta a importância da vivência prática exercida na empresa júnior. "Aprendi muito."

O diretor-presidente do NEJ, Ícaro Bolotari, contabiliza 15 empresas juniores na cidade, sendo 11 na UFJF. Segundo ele, a clientela é formada prioritariamente por negócios locais, embora identifique interesse também de empresas de outros estados. Na sua opinião, as empresas juniores impactam a economia, com a formação de capital humano mais preparado para o mercado, o desenvolvimento de uma cultura empreendedora e o suporte oferecido aos empresários. Para Ícaro, hoje elas estão capacitadas para cobrir a maior parte das lacunas verificadas no mercado juiz-forano. Ainda assim, há o estímulo à criação de novas iniciativas em outros cursos, com o objetivo de suprir as necessidades ainda existentes.

 

UFJF não descarta criar bolsa para integrantes

A UFJF reconhece a importância das empresas juniores e apoia a iniciativa. "É um orgulho para a instituição", afirma o secretário-geral da UFJF, Sebastião Marsicano Ribeiro Júnior. Ele cita o apoio concedido aos estudantes, com a cessão dos espaços institucionais para funcionamento das empresas e o atendimento às demandas apresentadas, como fornecimento de equipamentos em caso de necessidade e a viabilização de transporte para viagem, possibilitando a participação de alunos em eventos correlatos. Segundo o secretário-geral, embora alguns participantes contem com bolsas oferecidas pela instituição, não há uma específica para quem trabalha nas empresas juniores. Ele não descartou a possibilidade de criação. "Quem sabe? É uma ideia", disse. Conforme Júnior, além das empresas já existentes no campus, há uma mobilização para criação de uma empresa júnior em Governador Valadares, que teria caráter multidisciplinar.

O diretor-executivo da Fundação Educacional Machado Sobrinho, Miguel Luiz Detsi Neto, avalia que a Masci, embora seja uma empresa júnior, realiza um trabalho de "qualidade superior". Miguel destaca o pioneirismo no estado e a sua importância ao promover a integração dos alunos com o mundo do trabalho e com outros cursos, por meio das consultorias. O diretor destaca o apoio da instituição à iniciativa, com professores à disposição dos alunos, a disponibilização de estrutura física e a compensação com desconto nas semestralidades. "O trabalho deles é reconhecido no mercado como master", orgulha-se.

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