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12 de Janeiro de 2014 - 07:00

As cidades de Goianá e Rio Novo vivenciam enfraquecimento econômico desde o fim das operações comerciais no terminal Itamar Franco

Por GRACIELLE NOCELLI

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Criado com investimento de quase R$ 170 milhões e a proposta de alavancar o desenvolvimento da Zona da Mata mineira, o Aeroporto Presidente Itamar Franco tem causado impactos contrários na região. As cidades de Goianá e Rio Novo, que sediam o equipamento, vivenciam enfraquecimento econômico desde o fim dos voos comerciais no terminal, em 4 de junho do ano passado. De acordo com empresários locais, a diminuição do fluxo de pessoas com potencial de consumo e as demissões de funcionários que trabalhavam no aeroporto têm gerado grandes prejuízos. A situação tem prejudicado, também, a instalação de novos empreendimentos. Mas as dificuldades não se restringem ao comércio e prestação de serviços do entorno. No saguão do Itamar Franco, lanchonete, lojas, locadoras de veículos e atendimento de táxi estão vazios. Ainda sem perspectivas concretas para 2014, as esperanças se voltam para a realização do processo de licitação para exploração do terminal que será aberto pelo Governo do estado, mas ainda sem data definida para acontecer.

Em Goianá, cidade com 3.659 habitantes, conforme dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a interrupção do transporte de passageiros no aeroporto refletiu diretamente nas vendas do comércio. "A movimentação na cidade diminuiu muito. Antes recebíamos os viajantes, quem vinha buscar alguém no aeroporto e as pessoas que passavam pela região e tinham a curiosidade de conhecer o terminal. Agora tudo isso acabou", lamenta a proprietária do Restaurante e Pizzaria da Praça, Lecir Volpato.

Já o microempresário Carlos José Araújo, que possui supermercado e mercearia na cidade há 28 anos, afirma que as demissões feitas no terminal foram o principal baque para os seus negócios. "Os passageiros do aeroporto não eram meu principal público, mas os trabalhadores sim. Com as pessoas desempregadas, as vendas diminuíram." Ele relembra que, após o aeroporto ser inaugurado, o comércio da região viveu bons momentos. "A renda que circulava na cidade era maior e isso retornava para o setor, também havia maior fluxo de consumidores de fora."

Foi aproveitando o funcionamento do Itamar Franco que os proprietários do Hotel e Restaurante Celiano decidiram investir na infraestrutura do empreendimento. "Os quartos foram ampliados, colocamos frigobar e instalamos internet. Como não somos uma cidade turística, os passageiros eram nosso público", explica Celiano Coutinho. "Infelizmente, não tivemos tempo para obter o retorno do investimento. Sem os voos, o movimento está muito fraco."

O setor hoteleiro de Rio Novo, que possui 8.712 habitantes, segundo o IBGE, também sentiu os impactos negativos da suspensão das linhas no Itamar Franco. "A própria tripulação se hospedava aqui", diz o proprietário do Mhajol Plaza Hotel, Humberto Guimarães Nogueira. "A nossa taxa de ocupação caiu consideravelmente, cerca de 40%. O fim dos voos enfraqueceu a economia da cidade, até as indústrias deixaram de vir para cá." A prefeita de Rio Novo, Virgínia Ferraz (PRP), confirma que há empreendimentos que estão aguardando definição do aeroporto para se instalarem na cidade. "Esperamos que o retorno dos voos aconteça logo, assim como o desenvolvimento das atividades cargueiras. O terminal é fundamental para o nosso crescimento econômico."

Na Pousada e Restaurante Pérola Negra, "a freguesia se afastou", conforme o proprietário, Albino Benedito Duarte. "Nossos hóspedes eram os viajantes, por isso, a redução do movimento já era esperada. Mas até as vendas e encomendas de refeições feitas pelos moradores da cidade diminuíram. Acredito que seja por conta do desemprego", analisa. A vendedora da loja Mais Fashion, Madalena do Carmo Xavier, tem a mesma percepção. "Tivemos queda de 40% nas vendas. A procura por artigos de lembranças diminuiu porque não temos mais a movimentação de consumidores de fora, mas a queda na venda de roupas e material escolar foi por causa do rendimento da população que caiu."

Além do corte de funcionários feito pela administradora do aeroporto, a Multiterminais Alfandegados, outros profissionais que atuavam diretamente no local também perderam emprego. "Alguns colegas que atendiam exclusivamente o terminal tiveram que mudar de ramo, pois não há mais demanda", garante o taxista Armando Faria de Oliveira. Ele relata que a falta de passageiros faz diferença para toda categoria. "A maior parte dos viajantes era de outras cidades. Uma corrida para Juiz de Fora custa cerca de R$ 120, para Ubá, R$ 150, e Cataguases, R$ 180", exemplifica. Hoje os profissionais são acionados apenas quando não há teto no aeroporto juiz-forano Francisco Álvares de Assis (Serrinha), e as aeronaves precisam pousar no Itamar Franco.

 

Histórico

O encerramento dos voos no Itamar Franco ocorreu depois que a Azul Linhas Aéreas, única companhia que operava no local, decidiu transferir as atividades para o aeroporto da Serrinha. De acordo com a empresa, a medida foi exclusivamente comercial. "Seria inviável operar em dois aeroportos tão próximos. Não há demanda na região para isso", declarou o diretor de planejamento, Marcelo Bento. Segundo a Azul, depois da transferência, quando há problemas meteorológicos que não permitem condição de pouso no Serrinha, a companhia utiliza o Itamar Franco. "Isso não ocorre com frequência definida, apenas quando verificamos esse tipo de problema", informou em nota.

 

 

Estudo prevê ações de desenvolvimento

A pedido da Agenda Regional de Desenvolvimento da Zona da Mata, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) elaborou um plano diretor para estimular o desenvolvimento integrado das cidades do entorno do Aeroporto Presidente Itamar Franco. "Traçamos um diagnóstico econômico evidenciando as potencialidades dos municípios de forma a criar ações estratégicas de desenvolvimento que aproveitem o aeroporto", explica o gerente de projetos do Escritório de Gerenciamento de Projetos (EGP) da instituição, Patric Lasmar. A proposta foi entregue em dezembro e está orçada em R$ 2,5 milhões, com prazo de execução previsto para um ano e oito meses. "Após a captação de recursos, o plano diretor será executado. A expectativa é que 166 cidades participem conosco."

O coordenador da Agenda, Jackson Fernandes Moreira Júnior, diz que a iniciativa partiu de demanda dos próprios municípios. "Estabelecemos uma convergência de esforços em prol do desenvolvimento econômico da região." Ele destaca que em fevereiro será realizada nova reunião para definir o trabalho para captação de recursos. Sobre a ausência de voos comerciais no aeroporto, Jackson afirma que o plano diretor prevê ações a longo prazo. "O estudo é bem abrangente e voltado para a utilização do Itamar Franco como terminal de cargas. A ideia é poder explorar o nosso potencial logístico, transformando o aeroporto em um grande hub." Ele acredita que o desenvolvimento das atividades cargueiras poderá estimular a atração de companhias aéreas para retorno dos voos comerciais. "Uma coisa irá impulsionar a outra, acredito que o aeroporto não tem motivos para ficar parado. A licitação, a conclusão da estrada e o estímulo ao terminal de cargas vão tornar o cenário favorável para os voos comerciais."

 

Expectativa

Esta também é a expectativa do empresário Juarez Coutinho. Ao contrário daqueles que aguardam definição sobre o aeroporto para instalar empreendimentos no entorno do local, ele irá inaugurar hotel direcionado ao público executivo, daqui a algumas semanas, ao lado do terminal. "Nunca pensei que o aeroporto ficaria parado. Imagino que essa situação é temporária e, por isso, continuo investindo sem medo."

 

 

Licitação ainda sem data definida

Sobre a ausência de voos no Aeroporto Itamar Franco, a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop) voltou a afirmar que a trata-se de "uma decisão unilateral da companhia aérea" e que "a empresa que administra o aeroporto tem trabalhado continuamente para a captação e atração de novos voos". Informações de bastidores afirmam que a Gol Linhas Aéreas estaria interessada em operar no local. Procurada pela Tribuna, a empresa declarou "que está sempre avaliando novas oportunidades que agreguem valor ao seu negócio. Porém, no momento, não há nenhuma novidade sobre o assunto." A assessoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que não há pedido de novos voos para o terminal. A Multiterminais Alfandegados não se posicionou sobre o assunto.

Diante da indefinição sobre o futuro, as expectativas se voltam para a realização da licitação que prevê a parceria público-privada para a exploração do aeroporto. De acordo com a Setop, o prazo da concessão será de 30 anos, e o valor estimado da licitação é de R$ 146,8 milhões. "O primeiro aeroporto regional de Minas a ser transferido para essa modalidade será o Itamar Franco. Nesse regime, a remuneração da empresa administradora estará diretamente ligada ao atendimento ao usuário e ao desempenho em geral."

Conforme a pasta, ainda não há data definida para a realização do processo de licitação. Inicialmente, a audiência pública que antecede o lançamento do edital foi marcada para novembro do ano passado e, depois, postergada para dezembro, mas acabou não sendo realizada. Segundo a Setop, uma nova data não foi agendada. Apesar disso, a expectativa é que a concorrência seja realizada ainda este ano.

Outra modificação nos prazos anunciados pela secretaria é com relação à conclusão das obras para a construção da estrada que liga a BR-040, próximo à Barreira do Triunfo, em Juiz de Fora, ao entroncamento com a MG-353, na localidade de João Ferreira. Prevista para dezembro de 2014, a finalização do projeto deve ocorrer no primeiro semestre de 2015. Somente para o trecho de 13,8 quilômetros, o Governo Estadual investiu R$ 51 milhões.

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