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30 de Março de 2014 - 06:00

Empresas alegam dificuldades de encontrar pessoas capacitadas; Ministério do Trabalho diz que potencial de mão de obra é de 24 mil trabalhadores

Por BÁRBARA RIOLINO

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 Departamento de Políticas para Pessoas com Deficiência encaminha candidatos ao mercado
Departamento de Políticas para Pessoas com Deficiência encaminha candidatos ao mercado

Apenas 26% das 2.435 vagas destinadas a pessoas com deficiência estão ocupadas em Juiz de Fora, conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego no município, baseado no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), referente a dezembro do ano passado. Estas vagas são provenientes de 133 empresas com matriz na cidade cadastradas até a data, que possuem mais de cem funcionários em seu quadro e, por isso, precisam cumprir a Lei 8.213, que garante cotas de 2% a 5% para pessoas com deficiência ou em reabilitação (ver quadro). Com base no Censo 2010, o Ministério do Trabalho estima que existam na cidade mais de 24 mil pessoas, com idades entre 15 e 64 anos, com potencial para ocuparem estas vagas, sendo mais de nove mil delas com ensino superior completo.

A dificuldade em preencher os 74% restantes, segundo as empresas, está em encontrar trabalhadores aptos a exercerem a função requerida por elas. "A grande reclamação que temos hoje, principalmente por parte da indústria, é que as vagas disponíveis estão localizadas em setores operacionais, que por si só, oferecem grande risco aos trabalhadores. Em função de boa parte dos deficientes não apresentar qualificação - segundo grau completo, noções de informática, cursos técnico e superior - sobram vagas em ambientes administrativos", destaca a advogada da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Poliana Martins. Para ela, outro fator que pode estar atrelado a dificuldade de contratação é o recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago pelo Governo aos trabalhadores deficientes considerados "incapacitados para a vida independente e para o trabalho". O valor pago é de um salário mínimo, equivalente hoje a R$ 724. Para receber o benefício, porém, a pessoa deve ser componente de família com a renda mensal per capita inferior a um quarto do salário mínimo.

Em algumas organizações, a busca por pessoas com deficiência é tão grande quanto a procura por profissionais que não se enquadram na cota. "O Bahamas tem passado por um processo de expansão, que exige estar sempre com processos de seleção em aberto. Levamos o lema de 'empresa cidadã', e sempre buscamos incluir em nosso quadro pessoas com deficiência. Temos funcionários que estão na casa há quase 20 anos. Mesmo assim, ainda não atingimos a cota estabelecida em lei. Temos a consciência de que é a empresa que precisa se adequar aos deficientes, e não ao contrário", ressalta a coordenadora de recrutamento e seleção do Grupo Bahamas, Sandra Marotta Neves Valente. Atualmente, a empresa procura por uma assistente social com deficiência para ocupar vaga na empresa. "Nossa meta é abrir vagas para atender a todo tipo de capacitação, incluindo a superior".

Também com essa preocupação, a Esdeva Indústria Gráfica realiza, de forma contínua, a busca pela contratação de pessoas com deficiência, não apenas para cumprir a cota legal, mas como forma de combate ao preconceito e de reconhecimento da igualdade profissional. "Recentemente realizamos um trabalho com nossos colaboradores destacando a importância da integração da pessoa com deficiência no ambiente de trabalho, abordando dicas de relacionamento, a importância do respeito à diversidade, e informando sobre os tipos de deficiência", diz a analista de RH da Esdeva, Alessandra de Oliveira. Segundo ela, a dificuldade para encontrar profissionais é grande. "Com o mercado cada vez mais aquecido e diante da grande demanda das empresas da cidade por esses profissionais, temos o desafio diário de reter nossos colaboradores." Alessandra reconhece que, mesmo utilizando de diversos mecanismos para a divulgação das vagas na empresa, ela ainda enfrenta problemas para contratar profissionais com deficiência, pois o índice de retorno às divulgações é baixo."Divulgamos nossas vagas por meio de anúncios publicados no jornal e fazemos solicitações de candidatos ao Naepd (Núcleo de Atendimento Especial à Pessoa com Deficiência, hoje transformado pela Prefeitura em Departamento de Políticas para Pessoas com Deficiência e Direitos Humanos) e algumas vezes solicitamos ao Ministério do Trabalho a relação de pessoas inscritas a procura de trabalho."

De acordo com a assessoria da Santa Casa, o principal entrave para o recrutamento de pessoas com deficiência tem sido a falta de candidatos com a escolaridade exigida pelo hospital (conhecimentos básicos em informática e/ou ensino médio). "Os candidatos que possuem qualificação adequada costumam ter algum tipo de benefício e acabam não se sentindo atraídos pelo salário", diz a nota. A estrutura física do hospital, datado de 1940, também é destacado pela assessoria como fator que "restringe ainda mais o universo de candidatos". "Para cumprir a meta, o hospital recorre ao setor de reabilitação do INSS para recolocar no mercado os profissionais que precisam mudar de função devido a algum acidente."

 

Qualificação

A psicóloga e consultora em Gestão de Pessoas Roseane Cancela ressalta que não existe na cidade um perfil definido na contratação de deficientes, mas entre as áreas mais procuradas estão administrativa, atendimento e operacional. "A maior dificuldade é realmente a qualificação - pesam a baixa escolaridade, a falta de conhecimento em informática e, algumas vezes, a alta rotatividade dos profissionais", afirma. Para a especialista, a questão da escolaridade precisa ser revista. "Muitos candidatos não têm o ensino médio completo, o que para algumas empresas é um dificultador. Grande parte dos currículos recebidos indicam somente o ensino fundamental e, algumas vezes, ainda incompleto. É importante buscar dar continuidade aos estudos, fazer cursos profissionalizantes nas diversas áreas, de acordo com a área de interesse, e aprofundar os conhecimentos em informática, pois com o desenvolvimento tecnológico, o domínio dessa ferramenta é fundamental para o processo de contratação", orienta.

 

Aposta na mudança de cultura

Na visão da chefe do Departamento de Políticas para Pessoas com Deficiência e Direitos Humanos da Prefeitura, Thaís Altomar, a razão para a dificuldade de encontrar profissionais pode estar no perfil das vagas oferecidas. "Por muito tempo, as empresas tinham, de forma geral, o seguinte discurso: 'não somos acessíveis às pessoas com deficiência pois elas não são capacitadas'. Nos últimos anos, houve um movimento muito grande, tanto por parte de ONGs como do poder público, na conscientização dos deficientes para a busca pela qualificação. A mudança foi grande, mas as empresas não se adequaram."

Para ela, é preciso trabalhar três vetores importantes para garantir o cumprimento da lei de inclusão: mudança na estrutura física, promovendo a acessibilidade; conhecimento e implantação de "tecnologias assistivas" (com oferta de intérpretes e de programas de computador voltados para deficientes, entre outros facilitadores); e "acessibilidade atitudinal" - ações que promovam o conhecimento das deficiências e capacitem empresa e colaboradores para lidar com as diversidades. "As empresas precisam se abrir, uma vez que a pessoa com deficiência não parou de se qualificar. Ela termina o ensino médio e ingressa em uma faculdade ou curso técnico, faz mestrado, doutorado, não para de estudar. Elas fazem a parte delas", argumenta Thaís.

O número de deficientes que possuem curso superior em Juiz de Fora - mais de nove mil - segundo dados do Censo 2010, demonstra que o acesso à educação, de fato, cresceu entre esta parcela da população. No entanto, boa parte dos 24 mil deficientes presentes na cidade tem como renda mensal de meio a um salário mínimo. Para o auditor fiscal do Ministério do Trabalho, José Tadeu de Medeiros, a maioria das empresas precisa rever a forma com que enxerga o trabalho dos deficientes. "Quando abrirem vagas para cargos com maior escolaridade, rapidamente conseguirão preencher", aposta ele. José Tadeu questiona a hipótese de o pagamento do BPC agir como dificultador no acesso à mão de obra. "A faixa de pessoas que recebe o BPC é muito pequena, e em muitos casos, o rendimento final não chega a um salário mínimo."

 

Acompanhamento

O procurador do trabalho Wagner Gomes do Amaral ressalta que o trabalho da entidade preza pelo fomento da inclusão da pessoa com deficiência no mercado, a partir da mudança na cultura por parte das empresas, tanto em questões relativas a acessibilidade quanto ao reconhecimento destas pessoas como ser humano. Atualmente, 24 empresas que receberam, no ano passado, a notificação recomendatória, são acompanhadas para se adequarem em três quesitos: inclusão, acolhimento sem discriminação e acessibilidade no ambiente de trabalho. "Existe sim uma grande dificuldade em se encontrar mão de obra e, quando a empresa aceita contratar, quer aquela que a deficiência seja mínima. Não há uma cultura de inclusão nas empresas."

 

Portal reúne vagas ofertadas

Dentro do Departamento de Políticas para Pessoas com Deficiência existe um trabalho de encaminhamento ao mercado de trabalho, que está atrelado ao portal JFEmpregos, destinado ao cadastro de pessoas e vagas em diversos segmentos, incluindo oportunidades para pessoas com deficiência. Até a tarde de sexta-feira, havia 1.540 postos em aberto, sendo 183 direcionados para deficientes. "Nós orientamos as pessoas com interesse em ingressar no mercado direcionando-as às ferramentas existentes. Também trabalhamos para que elas corram atrás sozinhas, para que se candidatem não só para as vagas de deficientes, mas para aquelas dentro de sua área de atuação. As pessoas com deficiência precisam entender que são cidadãos profissionais como qualquer outra pessoa".

Segundo a chefe do Departamento de Trabalho, Emprego e Renda da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda (Sdeer), Leila Abrahão, desde que o JFEmpregos foi criado, em junho de 2012, houve uma mudança tanto no perfil das vagas ofertadas aos deficientes, quanto nos currículos cadastrados. "Temos atualmente 481 currículos cadastrados de pessoas com deficiência, incluindo aquelas que possuem curso superior. Esta mudança sinaliza a necessidade da inclusão e da acessibilidade."

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