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16 de Março de 2014 - 06:00

Cada vez mais consolidado como forma de ingresso no mercado de trabalho, modelo também é alternativa de empresas na busca por talentos

Por BÁRBARA RIOLINO

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Edvaldo entrou como estagiário e hoje coordena setor
Edvaldo entrou como estagiário e hoje coordena setor
Aos 23 anos, Melquisedeque é analista de remuneração da MRS
Aos 23 anos, Melquisedeque é analista de remuneração da MRS

Os programas de estágio, cada vez mais consolidados como caminho para o primeiro emprego, devem direcionar ao mercado de trabalho local, ainda neste ano, cerca de dois mil estudantes de níveis médio e superior. A projeção é do Centro de Integração Empresa-Escola regional Zona da Mata (CIEEMG), entidade filantrópica voltada para o apoio à juventude estudantil. Além disso, dados da coordenação de estágios da Pró-Reitoria de Graduação da UFJF (Prograd/UFJF) revelam que a universidade encaminha, a cada semestre, cerca de 500 alunos para estágios não obrigatórios. Tais números somam-se ainda às oportunidades oferecidas por programas de seleção acordados diretamente entre empresas e faculdades particulares.

Especialistas da área de seleção concordam que, diante da oportunidade de aplicar, na prática, a teoria aprendida em sala de aula, os estudantes ganham amadurecimento e crescimento, tanto profissional como pessoal. Mas são cada vez mais comuns, também, os casos de estagiários efetivados nas empresas antes mesmo de colocarem a mão no diploma. Só nos últimos dois anos, a MRS Logística efetivou 40% de seus estagiários. "Eles foram aproveitados não só nas áreas em que atuaram, mas em outras, pois o estágio permite que eles sejam observados", explica a gestora de Treinamento e Desenvolvimento da MRS, Simone Souza.

Ela destaca que, dos 300 estudantes que compõem o quadro de estagiários da empresa, 150 estão na cidade. "Juiz de Fora é um grande celeiro de profissionais. Os alunos são bem orientados quanto à inserção no mercado de trabalho e chegam bem preparados para concorrer às vagas", avalia Simone. Ilustrando as estatísticas está o analista de remuneração Melquisedeque Fernandes, de 23 anos. Após ser selecionado em um dos processos, em fevereiro de 2010, ele estagiou por um ano e dois meses no setor de Recursos Humanos. Depois, foi contratado como assistente e, em seguida, passou a ocupar o cargo de analista. "Aprendi muito e pude demonstrar meu trabalho, criando o diálogo entre teoria e prática", explica Melquisedeque, que é formado em ciências econômicas e cursa pós-graduação em finanças.

A experiência na MRS foi a segunda de Melquisedeque com programas de apoio profissional a estudantes. Aos 15 anos, o analista atuou como menor aprendiz na Mercedes-Benz, onde trabalhou por três anos. "Este período me ajudou a ter noção do mercado de trabalho e pude amadurecer. Foram experiência diferentes, ambas fundamentais para minha carreira", comenta. Também adepta dos programas de estágio, a planta local da Mercedes conta hoje com 28 estagiários, de níveis técnico e superior. O gerente de Recursos Humanos, Newton Lino, destaca que estes jovens chegam de instituições públicas e particulares com um grande potencial a ser explorado. "A empresa busca por estudantes que estão no penúltimo ou último ano do curso, priorizando aquele que esboça interesse em aprender. As efetivações acontecem conforme a abertura de vagas, não obedecendo um índice anual."

A unidade juiz-forana da Votorantim Metais abriga atualmente 35 estagiários - 19 de nível técnico e 16 de nível superior - que atuam nas áreas operacional e administrativa. A expectativa é encerrar 2014 com 40 estagiários no quadro. Conforme explica a gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da empresa, Marisa Magalhães Ulhoa, a seleção destes estudantes acontece por meio de parcerias diretas com escolas técnicas e faculdades. "Nos últimos dois anos efetivamos, em média, 31% de nossos estagiários. Durante todo o ano, a empresa abre seleções internas, e o estagiário que tiver interesse pode participar do processo seletivo e concorrer a uma vaga de efetivo mesmo com seu contrato de estágio vigente", explica.

A Esdeva Indústria Gráfica também tem políticas de estágio em níveis técnico e superior. Atualmente, 13 estagiários compõem o quadro, e a expectativa é chegar a 20 neste ano. Em 2013, 27% dos 18 estudantes em atuação na gráfica foram contratados. Em 2012, esse índice foi ainda maior, de 47%. "O estágio é um grande instrumento de inserção do jovem no mercado de trabalho, mas só cumpre o seu verdadeiro papel quando existe esta troca harmônica entre os objetivos da empresa e os do estudante. A via deve ser de mão dupla: a empresa precisa cumprir seu papel de conduzir e orientar as atividades do estagiário, proporcionando ganhos educacionais e profissionais, e, em contrapartida, ele deve se comprometer com a empresa de forma dinâmica", analisa a gerente de RH e Serviços da Esdeva, Elisa Maria Vitoretti Garcia.

Ciente das "regras do jogo", o coordenador de Planejamento e Controle de Produção (PCP) da Esdeva, Edvaldo Pires da Silva Neto, 26 anos, colhe frutos após anos de trabalho dedicados ao PCP, onde ingressou como estagiário no final de 2008. Efetivado na gráfica após um ano de estágio, ele teve uma passagem pela área de expedição, mas retornou ao seu setor de origem no ano passado, sendo promovido à coordenação em dezembro. "Determinação e comprometimento foram os valores que trabalhei enquanto estagiário e sigo buscando aplicá-los até hoje", ressalta Edvaldo, formado em ciências econômicas.

 

 

Educação sofre com falta de candidatos

Os cursos de nível superior que mais se destacam na oferta de vagas na cidade, segundo dados do CIEEMG, são administração, direito e pedagogia. O último é o mais carente na cidade. "Entre os parceiros do CIEE da região, 92 são escolas dos ensinos infantil e fundamental, tanto públicas como privadas. Cada uma delas pode proporcionar um estagiário para cada professor para atuar como auxiliar em sala de aula, porém, o número de estudantes em educação não atende a esta demanda, principalmente em Juiz de Fora", pontua a supervisora do CIEEMG, Célia Maria de Almeida Tellado.

Reforçando a tendência verificada no CIEEMG, a coordenação de estágios da Pró-Reitoria de Graduação da UFJF (Prograd/UFJF) diz que o curso de administração é o que mais recebe documentos para estágios não obrigatórios, seguida pelo direito e pela engenharia civil. Segundo a coordenadora do setor, Eliete Cunha, o volume de documentos que chega até o setor indica que há uma demanda significativa no mercado. "Se considerarmos o número de regulamentações para estágios obrigatórios, encaminhamos cerca de três mil por semestre. Boa parte destes estudantes cumpre o estágio curricular em instituições da própria universidade", acrescenta.

Estudantes dos cursos de administração, engenharias (civil, mecânica, produção e elétrica), direito, economia e comunicação social estão entre os mais frequentemente procurados pelas empresas ouvidas pela Tribuna.

 

 

 

Custo menor dá margem a abusos

A diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais (ABRH-MG), Eliane Vasconcellos, chama a atenção para as responsabilidades das empresas diante do estagiário, que precisa ser visto como instrumento de renovação e não como solução para baixar cursos. "Os tributos e obrigações que as instituições precisam desembolsar para manter um trabalhador são muito altos, por isso muitas optam pelos estagiários. É preciso pensar, porém, que são as pessoas que formam o perfil de uma empresa, e quando o ambiente é formado apenas por jovens, mas inexperientes e imaturos para a função, as decisões ficam prejudicadas. Dosar perfis inovadores aos já maduros e com bagagem ajuda na formação profissional de todos", defende.

O mestre em Sistemas de Gestão e em Relações Internacionais e Reitor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES-JF), Carlos Henrique Paixão, diz que os abusos estão mais perto do que se imagina. Em Juiz de Fora, estão presentes, principalmente, em pequenas e médias empresas e no poder público. "Devido a oferta de estudantes na cidade, os objetivos do estágio estão se invertendo - as organizações têm se preocupado mais em garantir mão de obra do que na formação do estudante. Há casos, inclusive, de estagiários serem responsáveis por projetos. Do ponto de vista legal, isso deveria ser impraticável", afirma.

Paixão acrescenta que, em muitos casos, os estudantes acabam se sujeitando a esta função por depender do dinheiro proveniente da bolsa auxílio para custear os estudos e o orçamento familiar. "É uma cultura difícil de ser revertida. O estagiário acaba se tornando uma figura menos onerosa em relação a um colaborador formal." A psicóloga organizacional especializada em Gestão Estratégica de Pessoas Melina Lemos reforça: "A relação entre empresa e estagiário deve ser baseada na descoberta e na possibilidade de explorar procedimentos e novas tendências. Ambos têm que ganhar nessa interação", ressalta.

 

Lei exige acordo com instituição de ensino

A Lei 11.788, sancionada em 2008, regulamenta direitos e deveres tanto dos estudantes quanto das empresas e faculdades na realização de estágios obrigatórios e não obrigatórios, em todo o território brasileiro. A lei obriga que o estágio seja educativo e supervisionado, contemplando o desenvolvimento profissional de alunos de ensino regular em instituições de educação superior, de educação profissional, de ensino médio, da educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional da educação de jovens e adultos.

Entre as determinações impostas pela lei está a celebração de um termo de compromisso entre o estudante, a instituição de ensino e a empresa ou órgão público, indicando a carga horária máxima a ser cumprida pelo estudante - até quatro horas por dia (20 horas semanais) para alunos de educação especial e dos anos finais do ensino fundamental; e até seis horas diárias (30 horas semanais), no caso de estudantes do ensino superior, da educação profissional de nível médio e do ensino médio regular. O contrato não pode exceder dois anos.

A lei também assegura ao estudante um período de recesso de 30 dias sempre que o estágio tenha duração igual ou superior a um ano, sendo remunerado quando o estagiário receber bolsa ou outra forma de contraprestação. Em estágios inferiores a um ano, os dias de recesso devem ser concedidos de maneira proporcional.

Segundo a supervisora do CIEEMG, Célia Maria de Almeida Tellado, no caso de estágios obrigatórios, não se faz necessário dar bolsa auxílio. "Quando existe a bolsa, o valor mínimo é de R$ 360, sendo que a maioria paga em torno de R$ 650. Outras podem chegam a valores superiores, de até R$ R$ 1.600. Fazemos um trabalho junto às empresas no sentido de valorizar o estágio com boa remuneração. É uma forma de atrair o estagiário e fazer com que este permaneça maior tempo na empresa."

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