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23 de Março de 2014 - 06:00

Número de MPEs e MEIs cresceu exponencialmente na cidade nos últimos anos, mas se manter no mercado não é tarefa fácil

Por GRACIELLE NOCELLI

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O sonho de ter o próprio negócio tem se tornado realidade para um número cada vez maior de pessoas. Em Juiz de Fora, só no ano passado, foram abertas 4.888 micro e pequenas empresas (MPEs), segundo o Sebrae Minas. O número corresponde a quase um terço do universo de 18 mil pequenos negócios em atuação no município, estimados pela instituição. Com relação aos micro empreendedores individuais (MEIs), a cidade fechou 2013 com 10.928 formalizações, número 33 vezes maior do que o registrado em 2009, ano em que a figura jurídica foi criada, de 316. Mas as facilidades para abertura de um negócio não se repetem quando o assunto é mantê-lo. Segundo o Sebrae, quase metade (46,22%) dos MEIs juiz-foranos estão inadimplentes (ver arte). A entidade não possui dados sobre MPEs, mas na luta diária para sobreviverem no mercado, empresários mostram que nem todos os casos são de sucesso.

Há seis anos, a cabeleireira e manicure Thalyta Ribeiro, 27 anos, decidiu montar um salão de beleza. "Eu tinha experiência na área, já havia conquistado meus clientes e decidi arriscar", relembra. Mas a trajetória não foi fácil. "Fiquei apenas um ano no mercado, pois não dei conta dos encargos. O dinheiro que entrava ia direto para o aluguel e as despesas fixas." Logo após a experiência, ela voltou ao ramo como funcionária, mas não abandonou o sonho de ser empresária. "Em 2011 me regularizei como MEI e abri um salão com outras parceiras. Nosso esquema é diferente de sociedade, dividimos as despesas e cada um tem o seu próprio lucro." A opção de se tornar micro empreendedora, segundo ela, ocorreu pelas vantagens que são oferecidas. "É um valor mais barato para arrecadação da Previdência e, também, há facilidades de empréstimo com os bancos."

O analista do Sebrae Gustavo de Freitas Magalhães explica que, uma vez regularizado, o MEI tem os mesmos direitos de qualquer trabalhador formal. "Ele passa a existir para o Estado, de uma maneira muito mais acessível, já que o valor de contribuição é menor."Para se formalizar como MEI, o empreendedor deve comprovar faturamento anual de, no máximo, R$ 60 mil. Para as MPEs, o teto é de R$ 360 mil por ano.

 

Inadimplência

Mensalmente, os MEIs arcam com uma guia de arrecadação no valor aproximado de R$ 40, referente aos impostos municipais, estaduais e federais. Apesar do custo baixo, o percentual de empreendedores inadimplentes em Minas Gerais é alto. A Zona da Mata é a quarta região do estado com maior número de pessoas em débito, um total de 37,05% dos formalizados. Em Juiz de Fora, quase metade dos empreendedores não estão em dia com as contas.

Na unidade do Sebrae, cerca de dez atendimentos por dia são relacionados à inadimplência de MEIs. "O não pagamento está muito associado a ausência de conhecimento sobre como gerar o boleto, a dúvida em relação à conclusão da formalização e a desistência da atividade sem o devido cancelamento", explica Gustavo. "Os índices são preocupantes, pois o MEI inadimplente tem o exercício da atividade prejudicada - ele perde a oportunidade de renovar o registro, emitir nota fiscal, abrir outra empresa, dentre outros."

Preocupada em não integrar as estatísticas e continuar garantindo os direitos relativos à atividade, a empreendedora Ísis Mageste, 28 anos, buscou a unidade do Sebrae para a reemissão de boletos. No ano passado, ela se regularizou como MEI no trabalho de transporte de cargas. "Antes eu era promotora de vendas, já estava acostumada a viajar. Agora atuo por conta própria, e acho ótimo. Meus planos são de crescer na área, para isso, pretendo tirar carteira D e ampliar meu negócio."

O crescimento da atividade empreendedora em Juiz de Fora é justificado pelo analista do Sebrae Gustavo de Freitas Magalhães como reflexo da dinâmica econômica vivida nos últimos tempos. "O mercado se mostrou propício para o desenvolvimento de novos negócios, o que é muito interessante, pois há aumento da geração de riquezas na cidade." Ele destaca, ainda, uma "valorização" da figura de empresário. "Vemos muitos jovens que optam por abrir um empreendimento antes mesmo de tentar uma vaga no mercado de trabalho."

Mas é justamente para a ideia errônea de que montar o próprio negócio pode ser sinônimo de glamour ou uma alternativa mais fácil para inserção no mercado que especialistas alertam quem deseja abrir um empreendimento. Consultor e sócio de cinco grandes empresas, Roberto Saretta conta que no início da carreira também imaginou que seria mais fácil ser o dono do próprio negócio. Hoje ele profere palestras sobre o tema, orientando empresários. "O empreendedor precisa se preparar, estudar muito e buscar capacitação." Ele garante que para a longevidade dos negócios é preciso "persistência e muito trabalho."

A ausência de planejamento financeiro também pode acarretar no fim prematuro do empreendimento. "Abrir o negócio é um risco. É preciso avaliar o mercado, a demanda, as possíveis oscilações e ter o entendimento de em quanto tempo se terá retorno do investimento. Isso é possível por meio de planejamento. É preciso quantificar o recurso necessário para montar o negócio, arcar com as despesas e ter o capital de giro", orienta Gustavo. Para o consultor empresarial e autor do best seller "Revolucione seus negócios", Carlos Hilsdorf, é preciso compreender que o lucro é uma meta e não uma consequência. Segundo ele, para ter sucesso é fundamental "planejamento comercial e financeiro coerentes com o tempo de implantação, maturação e retorno do investimento."

Hilsdorf afirma que "é preciso entender que não basta ter capital e um sonho para transformá-los em um bom negócio. Esta é uma excelente inspiração, mas sucesso depende de fatores bem mais concretos." Para ele, muitos decidem empreender pelo romantismo de poderem decidir o que fazer e quando fazer. "No entanto, o empreendedor deve estar preparado para um nível de dedicação e trabalho muito mais intenso." Dentre os desafios que o empreendedor está prestes a encontrar, o especialista elenca liderar outros colaboradores, enfrentar as burocracias do sistema, estar atento aos concorrentes, buscar novos conhecimentos em gestão e lidar com as oscilações do mercado.

Há quatro anos, a empresária A.M., que preferiu não se identificar, montou o próprio negócio na área de beleza e estética. "Os três primeiros anos de empresa são muito difíceis, pois são muitas contas para pagar. Só depois começam os lucros." Com 17 anos de experiência na área e capacitação concluída pelo Senac, ela conta que enfrentou dificuldades inesperadas. "Precisei fazer empréstimos e só consegui superar as dívidas graças à ajuda da família", relembra. "Decidi me tornar empresária porque tinha clientela para atender. Mas, naquele momento, faltou um olhar mais empresarial na hora de gerir os negócios."

Depois de algum tempo economizando dinheiro, o vendedor M.L., que preferiu não se identificar, abriu o próprio comércio, em 2010. "Peguei parte do que havia juntado e investi num estabelecimento próprio. Minha ideia era deixar de trabalhar para os outros e, também, fazer render o dinheiro que ficaria parado." Na época, ele deu oportunidade para amigos e familiares trabalharem no empreendimento. "Não contratei pessoas por experiência profissional, mas por amizade. Queria ajudar quem estava precisando, mas isso refletiu de forma negativa." Com o tempo, o empresário percebeu que a situação estava atrapalhando os negócios. "A concorrência é muito grande e se você não faz o melhor, não sobrevive. Eu também não tinha experiência como patrão, e as coisas foram ficando difíceis. Decidi fechar as portas antes de perder mais dinheiro e prejudicar estas relações que eram muito próximas."

A situação vivida por M.L. é um dos principais desafios a serem superados pelos empreendedores, na análise do consultor Carlos Hilsdorf. "Não se deve confundir a pessoa física, e aqui também falamos em caixa, com a pessoa jurídica do negócio, o que pode conduzir rapidamente à falência", orienta. "Errar não é o problema, mas sim termos condições e fôlego para retomar nossa busca pelo sucesso, apesar do erro."

Na avaliação do analista do Sebrae Gustavo de Freitas Magalhães, "o empresário é responsável por pensar o negócio." Ele destaca, que esta não é uma tarefa fácil. "É preciso planejar e, também, enxergar o mercado em que está inserido." Para o especialista Roberto Saretta, algumas variáveis determinam se o negócio será bem ou mal sucedido. "Isso vai desde a aceitação do produto, validação de mercado, concorrência, equipe, capital de investimento, tecnologia e até os sócios."

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