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13 de Maio de 2014 - 07:00

Por Luiz Lima, Wilson Rotatori, Fernanda Perobelli e bolsistas

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Pouca gente se lembra, mas a palavra "economia" tem origem no grego: "oikos" (casa) e "nomos" (costume, lei). Em tradução livre, "regras ou administração da casa". Vale então a pergunta: como anda a administração do Brasil? Entre 2008 e 2009, o mundo foi sacudido por crises nos EUA e Zona do Euro. Os desequilíbrios nas contas dos chamados PIIG's (Portugal, Espanha, Irlanda, Itália e Grécia) decorreram de um velho erro econômico: gastar mais do que se arrecada e se endividar para fechar as contas sem promover ajustes necessários. Em 2008, o estouro da bolha imobiliária americana deixou investidores receosos de aplicar recursos nas duas regiões e obrigou os governos a injetar trilhões de dólares nas economias, de modo a evitar uma corrida dos poupadores ao sistema financeiro, quebrando empresas e famílias tomadoras desses recursos. Após esse 'antitérmico' emergencial, iniciou-se o tratamento: era preciso enxugar gastos públicos e elevar a arrecadação por meio de impostos de empresas produtivas e de famílias com renda. Enquanto as medidas não surtissem efeito, o vigor econômico e os capitais migrariam da Europa e EUA para o resto do mundo. A tendência seria o fortalecimento das economias e moedas dos países emergentes.

Nesse cenário, o Brasil tinha boas chances de ser o destino escolhido pelos capitalistas globais. O país passava bem pela crise, já que 82% de sua produção vinha de atividades internas, e o Governo ajudava adotando uma série de medidas de estímulo ao consumo, como redução de impostos (IPI), expansão do crédito, redução da taxa de juros e aumento da renda (bolsa-família e outros). Juntas, essas medidas fizeram com que o país experimentasse um crescimento de 7,5%de seu PIB em 2010. Parecíamos estar no caminho certo - o que poderia dar errado?

Pois bem, quatro anos depois, organismos internacionais apontam um crescimento para o Brasil em torno de 1,8% em 2014 (inferior à média dos três anos anteriores, de parcos 2% a.a.) e alegam que o país está perdendo sua força e representatividade no cenário mundial. Como conseguimos perder o bonde novamente?

Inebriado pelo forte crescimento econômico advindo das políticas 'assistencialistas' de expansão de renda e consumo adotadas, o Governo protelou ajustes fiscais importantes (controle de seus gastos) e políticas de real incentivo a investimentos necessários ao crescimento das empresas e à renda das famílias. O resultado foi uma forte pressão de compra (demanda elevada por medidas de fôlego curto) aliada a uma baixa capacidade das empresas locais de oferecer produtos (oferta deprimida). O efeito imediato dessa combinação é uma velha conhecida dos brasileiros: a inflação. Dentre as medidas que o Governo vem adotando para 'combater' esse sintoma indesejado estão o congelamento de tarifas (energia elétrica, petróleo e derivados, muitas vezes às custas de ingerência em boas empresas nacionais, como a Petrobras), maquiagens no orçamento público e pressão no sistema bancário contra os 'juros elevados' (como se fossem os bancos os responsáveis pela política de fixação de juros, que cabe, na verdade, ao Governo). É importante lembrar (e nunca mais esquecer!) que 'congelar preços' não é e nunca foi política de combate e sim de represamento da inflação. Quando calculamos a elevação dos preços sobre os quais o Governo não tem controle direto, a inflação dos últimos 12 meses chega a alarmantes 7% a.a., acima do limite máximo da meta pactuada com a população brasileira.

Enquanto isso, o resto do mundo, como vai? Bom, após alguns anos de fortes ajustes fiscais, as economias desenvolvidas parecem estar prontas para retomar o seu papel de propulsoras do crescimento mundial. Nas previsões do FMI, os EUA deverão crescer mais do que o Brasil em 2014, 2015 e 2016. Talvez seja a hora do Brasil aprender que, quando se está doente (e a inflação e o desemprego são sintomas que afetam principalmente as camadas mais pobres da população), não há unguentos ou fórmulas mágicas. Que 2015 seja, finalmente, nossa vez de passarmos por um tratamento sério e rigoroso, capaz de fortalecer nossa frágil saúde econômica.

 

Conjuntura e Mercados Consultoria Jr.

Faculdade de Economia/UFJF

E-mail:cmcjr.ufjf@gmail.com

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