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25 de Maio de 2014 - 06:00

Após expansão vivida nos últimos anos e consolidação como principal empregador da cidade, setor amarga demissões nos primeiros meses de 2014

Por Tribuna

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Em 2013, Vanessa apostou no proprio negócio: "2014 começou fraco"
Em 2013, Vanessa apostou no proprio negócio: "2014 começou fraco"

No início do ano passado, os cabeleireiros Vanessa Sousa, 23 anos, e Welisson Araújo, 29 anos, deixaram de ser funcionários para abrirem o próprio salão de beleza. O caminho de empregado a empreendedor também foi feito por outros três colegas que atuavam no local onde trabalharam. A escolha dos profissionais foi motivada, sobretudo, pelo aquecimento da demanda por serviços de beleza em Juiz de Fora naquele período. "Nós tínhamos uma boa clientela fidelizada", relembra Vanessa. Hoje, como dona do próprio negócio e empregadora de cinco colaboradores, ela conta que sente diretamente os impactos da economia. "O ano de 2014 começou mais fraco, o movimento teve uma queda em relação a 2013. Acredito que continuará assim durante a Copa do Mundo e irá melhorar no fim do ano", analisa. A situação de Vanessa ilustra a realidade vivida por muitos outros representantes do setor de serviços, que, após o período de expansão que o consolidou como principal empregador da cidade, agora passa por momentos de retração.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram o reflexo da evolução do setor de serviços no mercado de trabalho local nos últimos cinco anos. De 2009 para 2010, o número de empregos criados quase triplicou, passando de 805 para 3.102. Em 2011, as contratações continuaram crescendo - foram criados 5.800 novos postos de trabalho. De janeiro a abril deste ano, porém, pela primeira vez, o número de demissões superou o de admissões em 186 vagas. Os segmentos de serviços pessoais, imobiliário e instituições de crédito apresentaram, nesta ordem, os piores desempenhos.

Na análise do professor de economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante do projeto Conjuntura e Mercados Consultoria Jr (CMC Jr), Fernando Salgueiro Perobelli, a retração vivida pelo setor de serviços é justificada pela desaceleração da economia e não se restringe ao cenário juiz-forano. "O país possui um setor de serviços ainda muito incipiente que caminha atrelado aos demais setores. Quando a economia cresce, ele desenvolve. Quando ocorre o contrário, ele retrai." O especialista explica que, diferente de outros países, no Brasil, o setor de serviços ainda tem o núcleo estruturado em atividades com pouca incorporação de tecnologia e menor valor agregado. "O setor é muito heterogêneo, mas predominam atividades que, apesar de essenciais, num período de desaceleração são as primeiras a serem cortadas pelos consumidores."

A economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Renata Carvalho Silva, concorda. "Embora estejamos com um nível de desemprego mais baixo, estamos percebendo o esgotamento da geração de empregos e redução de renda. Este quadro impactou a indústria e o comércio, que demandam muito o setor de serviços." Para ela, a tendência não é de grandes mudanças. "A curto prazo, a realização da Copa do Mundo irá aquecer alguns segmentos como os de transporte, alimentação e alojamento. Outros não serão impactados." Segundo a especialista, embora seja difícil prever o que irá ocorrer a longo prazo, o setor de serviços não deve vivenciar outro "crescimento robusto" como ocorreu em 2010. "Naquele momento, o país se recuperava de uma crise e passou por um período de crescimento de emprego e renda."

 

Polo regional

Para o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda da Prefeitura de Juiz de Fora, André Zuchi, a retração vivida em Juiz de Fora não compromete o futuro da cidade. "Estamos sofrendo efeitos de um modelo de gestão adotado pelo Governo federal que está se esgotando. As pessoas estão endividadas e, como consequência, o consumo diminuiu. A oscilação da economia impactou outros setores e, agora, o ramo de serviços está sentindo estas quedas."

Ele destaca que, como polo regional de serviços, Juiz de Fora ganhará fôlego em breve. "Teremos quatro novos hotéis até 2015, aprovamos a lei de incentivo à Tecnologia da Informação (TI) e estamos incentivando a atividade de turismo de negócios. Também apostamos muito no nosso potencial logístico. Esta situação é momentânea e, logo, o setor voltará a crescer." Ele reconhece que, como principais desafios para o crescimento estão a qualificação da mão de obra, melhorias em infraestrutura e aumento da remuneração média do setor, atualmente fixada em R$ 724.

 

 

Procura por capacitação é grande

Mesmo com a queda nas contratações do setor de serviços, a procura por capacitação para a execução de funções em diferentes áreas do ramo continua grande em Juiz de Fora. De acordo com a consultora de negócios do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) Alessandra de Andrade Mário, todas as vagas abertas este ano para os cursos de cabeleireiro, manicure, maquiagem e depilação foram preenchidas. "Quando abrimos as inscrições, temos formação de filas na nossa porta. As últimas turmas foram criadas em abril deste ano com número total de alunos em todas elas."

 

Fase difícil

Para o presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), entidade que também representa o setor de serviços, Emerson Beloti, esta é apenas uma fase difícil. "Estamos num período de poucas contratações no comércio e nos serviços. Mas vejo com certa normalidade esta situação, pois os empresários estão mais realistas. Não se pode gerar emprego, se não está havendo crescimento." Ele destaca que o comportamento já era esperado. "Vivemos uma expansão muito grande que seria substituída por um período de estabilização. A retração veio em função da economia, das altas taxas de juros."

Ele acredita que o cenário pode ser modificado a partir da intervenção do Governo. "É um problema estrutural e que atinge todos os setores. Não estamos satisfeitos com os resultados do varejo e dos serviços. O consumo caiu porque as despesas fixas dos consumidores e os juros aumentaram. " De acordo com dados do Sindicomércio-JF, o setor de serviços local engloba cerca de quatro mil empresas que geram, aproximadamente, 12 mil empregos.

 

Em MG, setor cresce menos que no país

No primeiro trimestre de 2014, o setor de serviços de Minas Gerais apresentou crescimento, mas não acompanhou o ritmo nacional. Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que enquanto o país cresceu 8,7%, o estado teve aumento de 4,7%. O registro de 2,4% alcançado em março colocou Minas na sétima posição entre os estados com pior desempenho no setor de serviços, atrás de Rondônia e Piauí, ambos com 0,7%, Roraima (1,2%), Sergipe (1,3%), Tocantins (2%) e Pará (2,3%). No mesmo mês, o crescimento nacional foi de 6,8%, segundo pior índice dos últimos 12 meses.

O pesquisador do IBGE Roberto Saldanha afirma que os segmentos de serviços de informação e de transportes tiveram queda considerável em março e, por isso, impulsionaram um crescimento menor do setor no país. "Os dois segmentos correspondem a 35,7% e 30,7% do setor de serviços, respectivamente. Um dos fatores de redução foi a diminuição do volume de produtos destinados ao transporte de cargas." No caso de Minas Gerais, ele destaca que a queda se deve, também, ao desempenho dos serviços prestados às famílias (serviços pessoais).

 

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