Escassez de área verde em JF

Área do Verbo Divino que deveria estar reflorestada na Zona Norte tem apenas restos de vegetação que sobraram das queimadas
Com a chegada do calor, as árvores funcionam como atenuantes das altas temperaturas, já que uma espécie de grande porte, por exemplo, pode ter o mesmo efeito que quatro aparelhos de ar-condicionado ligados. Mas infelizmente o ‘refresco’ é limitado. Pesquisa recente divulgada pela UFJF mostra que o município não dispõe sequer de cinco metros quadrados de área verde por habitante, um terço do mínimo recomendado pela Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (Sbau), que é de 15 metros quadrados. Outro dado é alarmante: a cidade foi a que mais desmatou na Zona da Mata mineira entre 2011 e 2012, com 51 hectares perdidos, o mesmo que 51 campos de futebol de vegetação destruídos, conforme o Inventário Florestal de Minas Gerais. Há ainda outros agravantes. As escolhas inadequadas das espécies e falhas na manutenção levam, constantemente, a quedas e podas drásticas. A Prefeitura garante que tem investido em reflorestamento, mas esbarra na degradação das áreas, seja provocada pelas queimadas ou pela própria população. A expectativa de melhoria do índice de arborização está na aprovação do Plano Municipal de Arborização e na parceria com a iniciativa privada.
Enquanto o plano não sai de fato do papel, os juiz-foranos convivem com realidades bem distintas. Alguns têm o verde na porta de casa e outros só o veem como paisagem distante. Conforme a pesquisa divulgada pela UFJF, a Cidade Alta é considerada a região mais arborizada no perímetro urbano. Moradora do Morro do Imperador, Shirley Brugger de Oliveira, 23 anos, contabiliza os benefícios de viver nesta área. “O ar é mais fresco, é mais tranquilo, convivemos com pássaros, micos e araras diariamente.”
De outro canto da cidade, da Rua Doutor Lívio de Oliveira Motta, no Bairro Centenário, Zona Nordeste, um dos que apresenta Índice de Área Verde (IAV) igual a zero, a dona de casa Janaína Odete da Silva, 32, tem que se contentar em apreciar a paisagem do Morro do Imperador ou o Museu Mariano Procópio. “Não temos uma área verde aqui, nenhuma praça, nada. O que fazemos é ficar apreciando de longe e, às vezes, levamos as crianças nas praças do Santa Terezinha ou do Manoel Honório. Se não dá para levar, eles brincam nas ruas. Não sabem o que é brincar em árvores”, reclama a dona de casa.
O trabalho realizado na UFJF pelo mestre em geografia Carlos Magno Adães de Araujo e coordenado pela pesquisadora da instituição e geógrafa Cássia Ferreira considera como áreas verdes públicas parques, praças e canteiros, desde que o solo não seja totalmente impermeabilizado e ocorra predomínio de vegetação de porte arbóreo. Das 81 áreas urbanas pesquisadas, apenas oito apresentam o Índice de Área Verde superior a 15 metros quadrados por habitante: o Mariano Procópio, considerado por abrigar o parque do Museu Mariano Procópio, além do Morro do Imperador, São Pedro, Aeroporto, Teixeiras, Cascatinha, Dom Bosco e Nossa Senhora de Fátima, que entram no ranking porque Parque da Lajinha e UFJF estão inseridos nessas regiões.
O estudo mostra, ainda, que 43 áreas, ou seja, mais da metade das pesquisadas, têm o IAV igual a zero, ou seja, não apresentam o mínimo preconizado pela Sbau, tais como Cesário Avim, Costa Carvalho, Santa Rita, Centenário, Bom Clima, Cerâmica, Carlos Chagas, Vila Ideal, Furtado de Menezes, Santo Antônio, entre outras. A saída para os juiz-foranos é se deslocarem para aproveitar os benefícios do verde em outras áreas. A pesquisa mostrou que a UFJF, por exemplo, influencia 45 regiões urbanas.
Adensamento urbano
Para os estudiosos, o quadro atual é resultado do crescimento e adensamento urbano e ausência de legislações mais rígidas para garantir a permanência da vegetação. “Juiz de Fora cresce a uma taxa de 1,89% atualmente, acima da média mundial, o que nos permite inferir sobre a necessidade urgente de planejamento urbano, que concilie a construção de novas infraestruturas e o melhoramento das já existentes, com a conservação dos remanescentes florestais que a cidade abriga”, defende o autor do estudo. “Os resultados da pesquisa revelam que Juiz de Fora carece de áreas verdes públicas, que estas são mal distribuídas, apresentam problemas de manutenção e acessibilidade. Se pretendemos lograr a condição de um município no qual a qualidade ambiental e de vida caminham juntas, é preciso reconsiderar as políticas inerentes às áreas verdes públicas”, conclui Carlos Magno.
Dificuldades para o reflorestamento
O secretário de Meio Ambiente de Juiz de Fora, Luis Claudio Santos Pinto, reconhece que há dificuldade de conciliar o adensamento populacional com o aumento das áreas verdes, mas garantiu que a Prefeitura está fazendo o seu papel, investindo no reflorestamento de diversas áreas, mas que esbarra em dificuldades, como incêndios e devastação dos espaços pela própria população.
Uma das áreas reflorestadas é o Verbo Divino, na Zona Norte. No local, uma placa avisa sobre a presença de uma floresta municipal, mas o que se vê são apenas restos de vegetação que sobraram de queimadas, muito lixo e destruição. “Era para estar morando ao lado do paraíso, mas não há respeito. Há muitos macacos e bichos, árvores exóticas e frutíferas, mas vai tudo embora. Sempre aparece um para tacar fogo, e o depósito irregular de lixo é frequente”, conta a dona de casa Mônica Silva da Cruz, 41, vizinha à área.
“Na Floresta Municipal do Verbo Divino, foram plantadas mais de sete mil mudas, mas o local é constantemente destruído e estamos pensando até em repassar essa responsabilidade. O que tem se gastado lá não compensa. Recentemente, no Terras Altas, também fizemos o reflorestamento de mais de 150 hectares, mas lá a população tem abraçado a causa. Em agosto, um incêndio queimou mais de 10.500 mudas da zona de recuperação do Parque da Lajinha. Como as mudas demoram de dois a três anos para atingir um tamanho satisfatório, muitas nem vingam. Mas estamos fazendo nosso trabalho”, destacou o secretário.
Uma árvore por habitante
Luiz Claudio Santos rebate a forma de cálculo do Índice de Áreas Verdes (IAV). “Se formos considerar o número de árvores, ele é suficiente. Temos mais de uma árvore por habitante na cidade, o suficiente para o bem-estar da população. A questão é que as pesquisas consideram como espaços verdes apenas áreas de acesso ao público que não estejam impermeabilizadas, sendo assim, até o Parque Halfeld, que tem mais de 281 árvores e espécies exóticas, não entra no cálculo, pois é permeabilizado. Juiz de Fora tem outras áreas e florestas municipais, como Poço D’Anta e Mata do Krambeck, mas sem acesso à população, e também não são contabilizadas. Em contrapartida, alguns canteiros da Rio Branco e Itamar Franco influenciam positivamente no IAV”, explicou o secretário.
A aposta do Município para identificar o IAV da cidade e ampliar os espaços verdes está na aprovação da Política Municipal de Arborização Urbana, que traz o Plano Municipal de Arborização Urbana. “Estamos revendo alguns pontos e devemos encaminhar para a Câmara Municipal. O plano será um instrumento de gestão, que vai nos possibilitar identificar de fato o índice de área verde da cidade, fazer um levantamento dos espaços públicos possíveis de receber vegetação, fazer o inventário das árvores da cidade, além de traçar as principais diretrizes para plantio, manejo e preservação de espécies.”
Paralelamente à tramitação do plano, a Secretaria de Meio Ambiente estuda ampliar o sistema de plantio em vias urbanas, buscando parceria com o setor privado. “Hoje as empresas que precisam fazer a compensação por supressão de árvores devem plantar na mesma área ou fazer doação das mudas para a secretaria, que fica responsável pelo plantio. Com a mudança, a empresa irá arborizar diretamente as vias não com mudas, mas com espécies de dois a três metros de estatura, o que garantiria um resultado imediato.”

Plano prevê diagnóstico das espécies
Além da escassez de áreas verdes, outro problema atinge o município. A falta de equipamentos adequados para análise das espécies. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, a elevada demanda na pasta impossibilita uma análise criteriosa das árvores. A cada período chuvoso pelo menos uma árvore cai em Juiz de Fora.
“Atualmente são cerca de cem pedidos de podas/mês, e a maioria, cerca de 70% ou mais, infundada. Muita gente pede para retirar a árvore porque está sujando a rua ou porque estão usando drogas debaixo das árvores. Verificamos a sanidade da árvore de forma visual, verificando, se há alguma ameaça, como erva de passarinho, se está tombando ou não na via, seguindo um check list para confirmar a necessidade ou não de supressão”, explicou o secretário de Meio Ambiente, Luis Claudio Santos Pinto.
O Plano Municipal de Arborização também prevê um diagnóstico das árvores e dos instrumentos para manutenção adequada. “O que acontece na cidade é que boa parte das espécies foi plantada há 50, 60 anos e não houve critério. Por isso há tantos problemas hoje, com raízes danificando calçadas e copas avançando sobre a fiação. O ideal é que as árvores não sofram podas. Por isso a importância do plano”, explicou Sérgio Portes, engenheiro florestal do Departamento de Educação Ambiental e Proteção aos Recursos Naturais.









