Escassez de área verde em JF


Por RENATA BRUM

18/10/2014 às 06h00

Área do Verbo Divino que deveria estar reflorestada na Zona Norte tem apenas restos de vegetação que sobraram das queimadas

Área do Verbo Divino que deveria estar reflorestada na Zona Norte tem apenas restos de vegetação que sobraram das queimadas

Com a chegada do calor, as árvores funcionam como atenuantes das altas temperaturas, já que uma espécie de grande porte, por exemplo, pode ter o mesmo efeito que quatro aparelhos de ar-condicionado ligados. Mas infelizmente o ‘refresco’ é limitado. Pesquisa recente divulgada pela UFJF mostra que o município não dispõe sequer de cinco metros quadrados de área verde por habitante, um terço do mínimo recomendado pela Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (Sbau), que é de 15 metros quadrados. Outro dado é alarmante: a cidade foi a que mais desmatou na Zona da Mata mineira entre 2011 e 2012, com 51 hectares perdidos, o mesmo que 51 campos de futebol de vegetação destruídos, conforme o Inventário Florestal de Minas Gerais. Há ainda outros agravantes. As escolhas inadequadas das espécies e falhas na manutenção levam, constantemente, a quedas e podas drásticas. A Prefeitura garante que tem investido em reflorestamento, mas esbarra na degradação das áreas, seja provocada pelas queimadas ou pela própria população. A expectativa de melhoria do índice de arborização está na aprovação do Plano Municipal de Arborização e na parceria com a iniciativa privada.

Enquanto o plano não sai de fato do papel, os juiz-foranos convivem com realidades bem distintas. Alguns têm o verde na porta de casa e outros só o veem como paisagem distante. Conforme a pesquisa divulgada pela UFJF, a Cidade Alta é considerada a região mais arborizada no perímetro urbano. Moradora do Morro do Imperador, Shirley Brugger de Oliveira, 23 anos, contabiliza os benefícios de viver nesta área. “O ar é mais fresco, é mais tranquilo, convivemos com pássaros, micos e araras diariamente.”

De outro canto da cidade, da Rua Doutor Lívio de Oliveira Motta, no Bairro Centenário, Zona Nordeste, um dos que apresenta Índice de Área Verde (IAV) igual a zero, a dona de casa Janaína Odete da Silva, 32, tem que se contentar em apreciar a paisagem do Morro do Imperador ou o Museu Mariano Procópio. “Não temos uma área verde aqui, nenhuma praça, nada. O que fazemos é ficar apreciando de longe e, às vezes, levamos as crianças nas praças do Santa Terezinha ou do Manoel Honório. Se não dá para levar, eles brincam nas ruas. Não sabem o que é brincar em árvores”, reclama a dona de casa.
O trabalho realizado na UFJF pelo mestre em geografia Carlos Magno Adães de Araujo e coordenado pela pesquisadora da instituição e geógrafa Cássia Ferreira considera como áreas verdes públicas parques, praças e canteiros, desde que o solo não seja totalmente impermeabilizado e ocorra predomínio de vegetação de porte arbóreo. Das 81 áreas urbanas pesquisadas, apenas oito apresentam o Índice de Área Verde superior a 15 metros quadrados por habitante: o Mariano Procópio, considerado por abrigar o parque do Museu Mariano Procópio, além do Morro do Imperador, São Pedro, Aeroporto, Teixeiras, Cascatinha, Dom Bosco e Nossa Senhora de Fátima, que entram no ranking porque Parque da Lajinha e UFJF estão inseridos nessas regiões.

O estudo mostra, ainda, que 43 áreas, ou seja, mais da metade das pesquisadas, têm o IAV igual a zero, ou seja, não apresentam o mínimo preconizado pela Sbau, tais como Cesário Avim, Costa Carvalho, Santa Rita, Centenário, Bom Clima, Cerâmica, Carlos Chagas, Vila Ideal, Furtado de Menezes, Santo Antônio, entre outras. A saída para os juiz-foranos é se deslocarem para aproveitar os benefícios do verde em outras áreas. A pesquisa mostrou que a UFJF, por exemplo, influencia 45 regiões urbanas.

Adensamento urbano

Para os estudiosos, o quadro atual é resultado do crescimento e adensamento urbano e ausência de legislações mais rígidas para garantir a permanência da vegetação. “Juiz de Fora cresce a uma taxa de 1,89% atualmente, acima da média mundial, o que nos permite inferir sobre a necessidade urgente de planejamento urbano, que concilie a construção de novas infraestruturas e o melhoramento das já existentes, com a conservação dos remanescentes florestais que a cidade abriga”, defende o autor do estudo. “Os resultados da pesquisa revelam que Juiz de Fora carece de áreas verdes públicas, que estas são mal distribuídas, apresentam problemas de manutenção e acessibilidade. Se pretendemos lograr a condição de um município no qual a qualidade ambiental e de vida caminham juntas, é preciso reconsiderar as políticas inerentes às áreas verdes públicas”, conclui Carlos Magno.

Dificuldades para o reflorestamento

O secretário de Meio Ambiente de Juiz de Fora, Luis Claudio Santos Pinto, reconhece que há dificuldade de conciliar o adensamento populacional com o aumento das áreas verdes, mas garantiu que a Prefeitura está fazendo o seu papel, investindo no reflorestamento de diversas áreas, mas que esbarra em dificuldades, como incêndios e devastação dos espaços pela própria população.

Uma das áreas reflorestadas é o Verbo Divino, na Zona Norte. No local, uma placa avisa sobre a presença de uma floresta municipal, mas o que se vê são apenas restos de vegetação que sobraram de queimadas, muito lixo e destruição. “Era para estar morando ao lado do paraíso, mas não há respeito. Há muitos macacos e bichos, árvores exóticas e frutíferas, mas vai tudo embora. Sempre aparece um para tacar fogo, e o depósito irregular de lixo é frequente”, conta a dona de casa Mônica Silva da Cruz, 41, vizinha à área.

“Na Floresta Municipal do Verbo Divino, foram plantadas mais de sete mil mudas, mas o local é constantemente destruído e estamos pensando até em repassar essa responsabilidade. O que tem se gastado lá não compensa. Recentemente, no Terras Altas, também fizemos o reflorestamento de mais de 150 hectares, mas lá a população tem abraçado a causa. Em agosto, um incêndio queimou mais de 10.500 mudas da zona de recuperação do Parque da Lajinha. Como as mudas demoram de dois a três anos para atingir um tamanho satisfatório, muitas nem vingam. Mas estamos fazendo nosso trabalho”, destacou o secretário.

Uma árvore por habitante

Luiz Claudio Santos rebate a forma de cálculo do Índice de Áreas Verdes (IAV). “Se formos considerar o número de árvores, ele é suficiente. Temos mais de uma árvore por habitante na cidade, o suficiente para o bem-estar da população. A questão é que as pesquisas consideram como espaços verdes apenas áreas de acesso ao público que não estejam impermeabilizadas, sendo assim, até o Parque Halfeld, que tem mais de 281 árvores e espécies exóticas, não entra no cálculo, pois é permeabilizado. Juiz de Fora tem outras áreas e florestas municipais, como Poço D’Anta e Mata do Krambeck, mas sem acesso à população, e também não são contabilizadas. Em contrapartida, alguns canteiros da Rio Branco e Itamar Franco influenciam positivamente no IAV”, explicou o secretário.

A aposta do Município para identificar o IAV da cidade e ampliar os espaços verdes está na aprovação da Política Municipal de Arborização Urbana, que traz o Plano Municipal de Arborização Urbana. “Estamos revendo alguns pontos e devemos encaminhar para a Câmara Municipal. O plano será um instrumento de gestão, que vai nos possibilitar identificar de fato o índice de área verde da cidade, fazer um levantamento dos espaços públicos possíveis de receber vegetação, fazer o inventário das árvores da cidade, além de traçar as principais diretrizes para plantio, manejo e preservação de espécies.”

Paralelamente à tramitação do plano, a Secretaria de Meio Ambiente estuda ampliar o sistema de plantio em vias urbanas, buscando parceria com o setor privado. “Hoje as empresas que precisam fazer a compensação por supressão de árvores devem plantar na mesma área ou fazer doação das mudas para a secretaria, que fica responsável pelo plantio. Com a mudança, a empresa irá arborizar diretamente as vias não com mudas, mas com espécies de dois a três metros de estatura, o que garantiria um resultado imediato.”

situacao internet

Plano prevê diagnóstico das espécies

Além da escassez de áreas verdes, outro problema atinge o município. A falta de equipamentos adequados para análise das espécies. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, a elevada demanda na pasta impossibilita uma análise criteriosa das árvores. A cada período chuvoso pelo menos uma árvore cai em Juiz de Fora.

“Atualmente são cerca de cem pedidos de podas/mês, e a maioria, cerca de 70% ou mais, infundada. Muita gente pede para retirar a árvore porque está sujando a rua ou porque estão usando drogas debaixo das árvores. Verificamos a sanidade da árvore de forma visual, verificando, se há alguma ameaça, como erva de passarinho, se está tombando ou não na via, seguindo um check list para confirmar a necessidade ou não de supressão”, explicou o secretário de Meio Ambiente, Luis Claudio Santos Pinto.

O Plano Municipal de Arborização também prevê um diagnóstico das árvores e dos instrumentos para manutenção adequada. “O que acontece na cidade é que boa parte das espécies foi plantada há 50, 60 anos e não houve critério. Por isso há tantos problemas hoje, com raízes danificando calçadas e copas avançando sobre a fiação. O ideal é que as árvores não sofram podas. Por isso a importância do plano”, explicou Sérgio Portes, engenheiro florestal do Departamento de Educação Ambiental e Proteção aos Recursos Naturais.