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  ESPECIAIS > LEMBRANÇAS DE JF
  Imagens do progresso
27/05/2001
   
 

Izaura Rocha
Repórter
Fotos Reprodução

As ruas da cidade preservam muito pouco da antiga Juiz de Fora, aquela da Rua Direita arborizada, riscada pelos trilhos dos bondinhos, das fábricas e seus operários, das diligências da União e Indústria, dos teatros e suas companhias líricas e dramáticas. Pode-se encontrar um ou outro vestígio dos tempos que nossos avós ou bisavós conheceram, mas a memória desta época sobrevive nas imagens dos fotógrafos que, no início do século passado, registraram a vida cultural e econômica da cidade.

Um deles foi Francisco Soucasaux, português de ascendência francesa que aqui esteve em 1903. Como outros profissionais que montaram ateliês na cidade - a maioria de origem estrangeira -, Soucasaux foi atraído pela crescente infra-estrutura urbana e pelo dinamismo industrial e cultural de Juiz de Fora. O resultado de sua breve passagem por aqui é uma preciosa documentação de época: um conjunto de fotografias que hoje integra o acervo do Museu Mariano Procópio.

A partir da próxima quinta-feira, data do 151º aniversário de Juiz de Fora, a Tribuna estará distribuindo a seus leitores reproduções destas imagens. Os cartões serão divididos em lotes que - à exceção do lote de lançamento, no dia 31 de maio - estarão encartados nas edições de sábado do jornal, durante todo o mês de junho. São 26 fotografias, originalmente realizadas para compor o segundo volume do "Álbum do Estado de Minas" e também comercializadas sob a forma de cartões postais. As imagens de Soucasaux, sob o título "Lembranças de Juiz de Fora", constituem os postais mais antigos da cidade, e esta é a primeira vez que a coleção é reproduzida, nos mesmos moldes do original.

Cartões postais eram uma coqueluche no início do século. Em todo o mundo, muitos passaram a colecioná-los, formando álbuns que chegavam a ocupar um lugar nobre nas salas de visita. A fototipia reduziu os custos de produção dos cartões, e a comercialização destas imagens, principalmente na América do Norte, movimentou o mercado editorial, que produzia bilhões de unidades para atender a demanda do público.

O Brasil não ficou indiferente a esta febre. Em Juiz de Fora, os cartões de Soucasaux permitiram que imagens da cidade superassem as fronteiras locais, levando-as a lugares distantes - quem sabe às aldeias européias dos imigrantes que vieram tentar a sorte por aqui. Elas também venceram a barreira do tempo, possibilitando que os juizforanos do século XXI conheçam um pouco do passado de JF, condição fundamental para a construção de nossa identidade.

Os leitores da Tribuna terão a oportunidade de conhecer um trabalho artístico de fotografia, que constitui também um valioso registro do progresso e da transformação urbana de Juiz de Fora no início do século passado. São panorâmicas e vistas de ruas e estabelecimentos comerciais, industriais e culturais. A coleção mostra como a fotografia, desenvolvida em 1839 por Louis Daguerre e popularizada no final de quatro décadas mais tarde com a simplificação do processo, registrou os símbolos da modernidade que transformaram o cenário das cidades entre o final do século XIX e início do século XX. Tornou-se, assim, importante e raro testemunho da arquitetura, dos meios de transportes, da moda, das atividades econômicas e dos costumes de toda uma época.

Viagem ao passado
31/05/2001

Imagem retida, instantâneo que se fixa, a fotografia foi um dos melhores instrumentos que o homem inventou para realizar o desejo de se eternizar, de vencer o tempo, superar sua finitude. Com ela, o homem prova a sua existência, deixa a marca de sua passagem. Revive a sua história. Folhear um velho álbum de fotografias é como embarcar numa máquina do tempo. E é isto o que a Tribuna faz a partir de hoje: um passeio pela Juiz de Fora do início do século XX. Uma cidade efervescente, com brios de Atenas e sonhos industriais, jardins de encantos bucólicos e ruas graciosas, de senhoras elegantes e operários humildes.

Esta cidade gentil, que mirava o século cheia de convicção e esperança, foi registrada pelas lentes de um fotógrafo português, Francisco Soucasaux, que em 1903 passou por aqui. Pouco se sabe sobre sua presença em Juiz de Fora, a não ser que foi um dos muitos fotógrafos de origem estrangeira que tiveram ateliês na cidade. O resultado de sua breve temporada na proclamada Manchester Mineira é um conjunto de fotografias comercializadas em forma de cartão postal, as "Lembranças de Juiz de Fora", que a Tribuna reedita pela primeira vez e oferece a seus leitores em seis lotes, distribuídos nas edições de sábado, durante o mês de junho. O primeiro sai excepcionalmente hoje, dia do 151º aniversário de Juiz de Fora, e o segundo será distribuído neste sábado, dia 2.

As imagens foram feitas originalmente para integrar o segundo volume do "Álbum de Minas Gerais", idealizado por Soucasaux. A realização desta documentação iconográfica de várias localidades mineiras provavelmente é o motivo que o trouxe a Juiz de Fora em 1903. E o fato de o fotógrafo português incluir a cidade no álbum só atesta o lugar de destaque que esta ocupava no contexto estadual da época.

Além de serem os cartões postais mais antigos da cidade, o conjunto de fotografias, que hoje pertence ao Museu Mariano Procópio, constitui um dos poucos registros sobreviventes do arquivo fotográfico de Soucasaux, que direcionou sua câmera principalmente para a arquitetura urbana de várias cidades brasileiras. Sua iniciativa proporcionou a popularização da iconografia de Juiz de Fora, uma vez que máquinas fotográficas eram ainda um privilégio da elite social, das classes mais abastadas. Enquanto estas podiam usufruir da novidade tecnológica, as camadas mais simples recorriam aos serviços dos fotógrafos que percorriam os centros urbanos.

História revista em imagens

O primeiro lote que os leitores estão recebendo hoje demonstra o interesse de Soucasaux pela geografia das cidades. Seu olhar contempla desde o aspecto geral, oferecendo ao observador um panorama da localidade, quanto desvenda as características das principais ruas de Juiz de Fora. No século XXI, o juizforano irá constatar que, embora elas possam ter mudado muito, há cem anos estas ruas já eram fundamentais e assumiam então características muito próprias. A Rua do Commercio (atual Batista de Oliveira), por exemplo, como o próprio nome antigo indica, concentrava os estabelecimentos comerciais.

A Rua Espírito Santo, por sua vez, revela-se mais residencial, enquanto uma larga e arborizada Rua Direita (a atual Avenida Rio Branco) ostentava imóveis mais imponentes, adequados à principal artéria de uma cidade que se urbanizava rapidamente. A rua mais popular de Juiz de Fora já sustentava então o nome que a consagraria, Halfeld, o centro nervoso da cidade. A foto de Soucasaux enfoca um trecho onde predominam estabelecimentos comerciais. Outra rua observada por Soucasaux foi a Marechal Deodoro.

Nos próximos lotes dos cartões postais, o leitor estará recebendo fotografias de estabelecimentos comerciais e industriais, prédios e jardins públicos, como o Hotel Renaissance, a pioneira usina de eletricidade, o Forum e o Parque Halfeld. Imagens que resumem a história de Juiz de Fora.


Memória em construção
02/06/01

No início do século passado, Juiz de Fora ainda era uma cidade política e economicamente importante para o Estado de Minas Gerais. Jovem, não compartilhava, entretanto, o passado histórico ou a arquitetura barroca de localidades mais antigas, como Ouro Preto ou São João del Rei. Por isso, quando aqui esteve, em 1903, o fotógrafo Francisco Soucasaux dirigiu sua câmera para prédios que representavam o poder político, econômico e administrativo do município. Não havia belas igrejas, ladeiras ou casario colonial. Os cartões postais deste segundo lote de fotografias distribuídas pela Tribuna, dando continuidade à reedição da série "Lembranças de Juiz de Fora", reúne imagens do fórum, da alfândega, da cadeia e da estação ferroviária.

Um dos prédios mais bonitos fotografados por Soucasaux é o do fórum (atual sede da Câmara Municipal), uma construção de 1878 erguida com recursos obtidos através de subscrição pública organizada pelo juiz Joaquim Barbosa Lima. Idealista e empreendedor, Barbosa Lima achava que a "mais progressista cidade de Minas" merecia um palácio da justiça e da câmara condizente com sua importância. Até então, os vereadores realizavam suas reuniões numa casa precária, próxima à cadeiazinha do município, também ela em péssimo estado.

A nova sede do legislativo e do fórum foi construída num terreno municipal onde funcionava um velho mercado, que foi desativado e demolido. O solene prédio de arquitetura eclética (na época, havia detalhes mais suntuosos como estátuas gregas, um frontão e um sino de bronze) foi inaugurado em 1878 com a presença do imperador Pedro II e a nata da sociedade, com cavalheiros de casacas e damas em ricas toaletes, que bailaram no salão do fórum. O prédio era considerado o melhor edifício público da cidade e, desde 1983, é um bem do patrimônio histórico de Juiz de Fora.

Cadeia em ruínas

Alguns anos depois também foi construída a nova cadeia da cidade em substituição à antiga, cujo aspecto deplorável e acanhado fazia feio diante do novíssimo e imponente palácio da justiça e do legislativo. Segundo narra o historiador Jair Lessa em "Juiz de Fora e seus pioneiros (Do Caminho Novo à Proclamação)", a velha cadeia era motivo de chacota: o inglês Richard Burton, viajante naturalista que passou pela cidade, teria dito que nela só ficaria detido quem quisesse. A nova cadeia foi instalada em um terreno entre a Rua Espírito Santo e a Praça Antônio Carlos. Algumas décadas depois, o amplo prédio fotografado por Soucasaux foi demolido para dar lugar às instalações da Escola Normal (atual Instituto Estadual de Educação).

Também nas proximidades da atual Praça Antônio Carlos ficava a Alfândega Ferroviária, repartição destinada a fiscalizar a entrada e a saída dos produtos que passavam pela ferrovia. A construção teve início em 1893 e foi decisiva para a consolidação do espaço da própria Praça, cuja formação teve início com a instalação da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. Atualmente, o prédio da antiga alfândega é utilizado pela 4ª Região Militar.

Nos trilhos

Quando visitou Juiz de Fora, Soucasaux não poderia deixar de registrar também a Estação Ferroviária, inaugurada em 7 de julho de 1877, aumentada em 1883 e remodelada em 1902, quando ganhou o aspecto arquitetônico que mantém ainda hoje. A chegada dos trilhos da ferrovia, na década de 1870, e a construção da estação pouco depois contribuíram fundamentalmente para a urbanização da área - pantanosa -, originando a Praça João Penido. O povo preferiu chamá-la pelo nome de sua principal referência arquitetônica - Praça da Estação, local histórico que foi cenário de várias manifestações políticas. Atualmente, as instalações da antiga estação são ocupadas pelo Museu Ferroviário e pela sede da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras.

Aprendendo com a história
09/06/01

Quando apontou sua câmera para lugares e estabelecimentos da Juiz de Fora do início do século XX, o português Francisco Soucasaux fez mais do que registrar um momento. Ele legou ao futuro imagens de toda uma época, que hoje são capazes de nos contar uma parte da nossa história. É por isso que os cartões postais da série "Lembranças de Juiz de Fora" - reeditados pela Tribuna a partir de originais cedidos pelo Museu Mariano Procópio - estão fazendo sucesso junto a um público especial: as professoras. As fotografias realizadas por Soucasaux em 1903 formam um material didático importante, que pode ser utilizado não só nas aulas de história e de estudos sociais, mas também como instrumento de atividades lúdicas em disciplinas tão diversas quanto geografia, ciências, português e matemática.

Mônica Ribeiro, professora do Departamento de História da UFJF, ressalta o fato de que as novas diretrizes do Ministério da Educação para o ensino fundamental e médio afirmam a importância do uso de imagens como um instrumento didático em sala de aula. Fotografias são um recurso atraente para crianças e jovens, e podem reunir mais informações do que um texto. Os postais de Soucasaux recompõem toda a memória de uma época, permitindo ao aluno "interpretar, associar e analisar", segundo Mônica.

Além disso, as imagens possibilitam à criança desenvolver identidade com o local onde vive e consciência da necessidade de preservação do patrimônio edificado. No ensino médio, o estudante pode fazer uma reflexão sobre a história local e regional. Segundo Mônica, as referências locais devem ser estimuladas em sala de aula porque constituem um instrumento de memorização de um conteúdo mais amplo, como a história nacional. Ou seja, o aluno terá a oportunidade de relacionar os fatos do país com o que acontecia no mesmo período em sua cidade.

Aula de criatividade

Com um pouco de imaginação, os professores podem utilizar os postais em projetos pedagógicos interdisciplinares e de forma lúdica, em brincadeiras que tornam a apreensão do conteúdo mais divertida. A professora-bibliotecária Cláudia Matos, da Escola Municipal Amélia Mascarenhas, no bairro São Bernardo, sugere algumas atividades que podem ser desenvolvidas com alunos do pré à 8ª série (ver quadro). Segundo ela, os postais de Soucasaux reeditados pela Tribuna são um material muito rico para utilização didática, capaz de instigar a curiosidade dos alunos.

As atividades sugeridas, ressalta Cláudia, devem ser adequadas à realidade de cada turma e série, de modo a se adaptar aos diferentes processos de desenvolvimento do ensino e da aprendizagem. A professora Míriam Machado Miranda, da Escola Municipal Dante Jaime Brochado, no bairro Santo Antônio, aproveitou os primeiros postais da série "Lembranças de Juiz de Fora" num mural montado por ocasião do aniversário da cidade. Os alunos da primeira série, na faixa dos 7 anos, puderam comparar imagens do passado da cidade com postais sobre a JF atual. Cada um escreveu algo sobre a cidade e fizeram observações, como constatar que havia árvores na Rua Marechal Deodoro. Atividades como esta ajudam os estudantes a terem referências geográficas sobre o seu lugar no mundo, tirando dúvidas como a de uma criança que perguntou a Míriam se Juiz de Fora é longe.

Luxo, cultura e caridade

O terceiro lote de cartões postais que o leitor recebe hoje traz duas panorâmicas - uma da cidade vista do alto da Academia do Comércio e outra do bairro Mariano Procópio - e fotografias do antigo conjunto de prédios da Santa Casa de Misericórdia, do Teatro Juiz de Fora e do Hotel Renascença.

Localizado num dos setores arquitetônicos mais expressivos e tradicionais da cidade - a Praça da Estação-, o Grande Hotel Renascença foi construído no final do século XIX. Luxuoso, em seu auge o hotel era conhecido em todo o país por seu requinte, e nele se hospedaram personalidades como os presidentes Getúlio Vargas e Arthur Bernardes.

A antiga Juiz de Fora teve vários teatros, dentre os quais destaca-se o que foi construído no final do século XIX pelos irmãos Frederico e Alfredo Ferreira Lage, filhos de Mariano Procópio. O teatro chegou a ser considerado um dos mais elegantes do Brasil. Segundo descreve Jair Lessa em "Juiz de Fora e seus pioneiros", o Teatro Juiz de Fora - que se localizava na Rua Espírito Santo - tinha camarotes com cadeiras douradas e estofados de veludo e luxuoso foyer decorado por grandes espelhos de cristal.

A Santa Casa de Misericórdia foi fundada pelo cafeicultor José Antônio da Silva Pinto, o Barão de Bertioga, com o objetivo de prestar serviços médicos de caridade e promover o culto religioso. Num amplo terreno diante da atual Avenida Rio Branco, onde já havia uma capela (que o cafeicultor reformou e na qual o imperador Pedro II veio a rezar), o barão construiu a Casa da Misericórdia. O belo conjunto de edificações, mais tarde, foi demolido e substituído pelo prédio atual.


Imagens de valor
16/06/01

Imagine um tempo em que não há TV e em que o cinema apenas engatinha. Uma época em que os jornais ainda usam pouca ou nenhuma fotografia. Uma era em que só uma classe abastada pode sair de sua província para conhecer o mundo. No início do século XX, um pequeno retângulo de papel tornou-se uma febre: ao popularizar imagens de cenários urbanos, o cartão postal ofereceu às pessoas a oportunidade de conhecer lugares diferentes, próximos ou distantes. Álbuns de postais eram uma atração com direito a lugar nobre na sala de visitas. Era elegante, fino - e um pouco exibicionista também, pois mostravam, por exemplo, que os moradores tinham conhecimento na Europa.

Dono de uma coleção de 130 mil cartões - considerada a maior do Brasil - o cartofilista Antonio Miranda, professor da Universidade de Brasília e autor de "O que é cartofilia", não teme falar que os cartões postais eram a mídia de maior comunicação do início do século passado. Segundo ele, Juiz de Fora foi uma das primeiras cidades brasileiras, depois das capitais, a ter cartões postais de qualidade. Devido a seu desenvolvimento comercial e industrial, no início do século o município atraiu tipógrafos, fotógrafos e ilustradores que se dedicaram à produção deste veículo de comunicação.

O português de origem francesa Francisco Soucasaux foi um deles. O autor da série "Lembranças de Juiz de Fora", que a Tribuna está reeditando e distribuindo a seus leitores este mês, visitou a cidade em 1903, fotografando suas ruas e estabelecimentos públicos, comerciais e industriais. As imagens foram comercializadas em forma de cartões postais. Hoje, revela Antonio Miranda, postais originais de Soucasaux (que fotografou também a construção de Belo Horizonte) são muito disputados, com boa cotação no mercado. São raros, de boa qualidade e um testemunho do desenvolvimento urbano da cidade naquela época. "Não fosse pelos cartões, não teríamos este registro, pois as fotografias originais não estão disponíveis", ressalta Miranda.

Cotação

Segundo o colecionador, dependendo do estado de conservação e do tema (por exemplo, se retrata um prédio já demolido) a cotação de um cartão postal original de Soucasaux (de 1903) pode variar de US$ 20 a US$ 100. Dono de uma das melhores coleções de cartões sobre Juiz de Fora, Antonio Miranda tem postais realizados por Soucasaux na cidade. De acordo com o também colecionador Pedro Matoso, de Brasília, cartões postais confeccionados entre o final do século XIX e a década de 30 são considerados clássicos. São deste período os cartões mais raros e valiosos.

O departamento de cartofilia da Sociedade Filatélica de Juiz de Fora tem apenas dez filiados, mas Waltencir Costa, presidente do Clube de Colecionadores de Juiz de Fora (fundado por cartofilistas), acredita que possa haver mais colecionadores na cidade. O departamento está adquirindo os postais reeditados pela
Tribuna com o objetivo de enviá-los para colecionadores em todo o Brasil e no exterior.

Os primeiros cartões postais surgiram em 1869, na Alemanha, como uma forma de correspondência simplificada. No Brasil, o marco é o ano de 1880, através do correio do império, já com selo estampado, mas sem ilustração. Alguns anos depois, surgiram cartões com iluminuras. Os primeiros postais com fotografias aparecem em 1899.

Solidariedade, educação e poder financeiro

O quarto lote de cartões postais de Soucasaux distribuído hoje traz dois exemplos das redes de solidariedade criadas pelos imigrantes europeus que vieram tentar a sorte em Juiz de Fora. A exemplo das sociedades de apoio mútuo surgidas em todo o país, principalmente nos grandes centros urbanos, as colônias de imigração estabelecidas aqui criaram associações para oferecer assistência como, por exemplo, apoio financeiro aos mais pobres, serviços gratuitos e espaços de lazer. É o caso da Real Sociedade Auxiliadora Portuguesa, fundada em 1891 por Joaquim Dias da Silva, vice-cônsul de Portugal.

A entidade foi a mais importante sociedade beneficente da colônia portuguesa de Juiz de Fora (a maior colônia de imigrantes na cidade no século XIX, segundo a professora da UFJF Mônica Ribeiro). A fotografia de Soucasaux apresenta o prédio da associação na Rua Batista de Oliveira com Rua São Sebastião. O outro exemplo de entidade assistencialista é a Sociedade Italiana Umberto I, uma das várias entidades do gênero que existiram na cidade entre o final do século XIX e a década de 50 e que deram origem à Casa d'Italia. O prédio fotografado por Soucasaux corresponde à sede que funcionou em um edifício na Avenida Getúlio Vargas.

Outro postal deste lote é o que focaliza o Colégio Andrés, fundado por um jovem educador francês, Louis Andrés, que aqui chegou em 1874. O Colégio Andrés foi aberto em 1891 e funcionou em vários locais (Soucasaux fotografou a sede na Rua da Gratidão, a atual Avenida dos Andradas). O estabelecimento de ensino foi um dos mais importantes e conceituados de Juiz de Fora em sua época.

Finalmente, Soucasaux fotografou também a primeira sede do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, que funcionou na parte alta da Rua Halfeld. O estabelecimento iniciou suas atividades em 1889, tendo entre os seus principais acionistas industriais e fazendeiros de café da região. Em 1929, passou a funcionar no prédio de estilo neoclássico construído pela Companhia Pantaleone Arcuri na Rua Halfeld com Avenida Getúlio Vargas.


Pioneirismo e versatilidade
23/06/01

Pouco se sabe sobre a biografia do homem que fotografou Juiz de Fora no início do século passado, Francisco Soucasaux, o autor dos cartões postais que a Tribuna está distribuindo semanalmente aos leitores desde o dia 31 de maio. Mas as ínfimas informações disponíveis sobre ele revelam um homem de mil instrumentos - empresário, construtor, pintor, fotógrafo e cineasta. Soucasaux foi um dos pioneiros de Belo Horizonte, onde chegou em 1894 para dirigir a serraria e a carpintaria da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), encarregada de erguer a então futura sede do governo mineiro.

O fotógrafo construtor atuou na edificação de muitas obras públicas de Belo Horizonte, como o antigo fórum (atual Instituto de Educação) e vários outros prédios públicos já demolidos na capital, como a Estação General Carneiro e o Palácio do Congresso. Soucasaux, inclusive, construiu e fundou, em 1898, o primeiro teatro da cidade, que levou o seu nome. No edifício já demolido, o fotógrafo promoveu, em 1903, uma exibição por meio de lanterna mágica de cerca de 700 imagens de cidades como Juiz de Fora, Caeté e Ouro Preto. As fotografias foram feitas por Soucasaux para integrarem o "Álbum do Estado de Minas", também uma iniciativa do fotógrafo.

Foi tendo em vista a realização do álbum que Soucasaux esteve em Juiz de Fora em 1903, colhendo imagens da cidade. Sua presença aqui foi registrada pelo jornal "O Pharol", na edição de 13 de março daquele ano, que conclamava os juizforanos a auxiliarem o artista no empreendimento. Para isso, foi organizada uma subscrição, com apoio de empresários. O jornal ressaltava o valioso serviço que Soucasaux iria prestar "a essa terra, sem importunar ao governo, que, entanto, devia ser o primeiro a auxiliar a propaganda iniciada pelo nosso amigo". Soucasaux aproveitou as fotografias de Juiz de Fora para transformá-las em cartões postais, comercializados em 1903 e agora reproduzidos pela Tribuna a partir dos originais do acervo do Museu Mariano Procópio.

Prêmios

Português de origem francesa, Soucasaux chegou ao Brasil no final do século XIX, fixando-se inicialmente no Rio de Janeiro, onde trabalhou como construtor e industrial, tendo sido responsável pela construção de vários prédios. Transferiu-se para Belo Horizonte em 1894. A Comissão Construtora da Nova Capital tinha um gabinete fotográfico que documentou toda a construção de Belo Horizonte e registrou também imagens do antigo arraial. As fotografias que Soucasaux fez da capital mineira hoje se encontram nos acervos do Museu Histórico Abílio Barreto e no Arquivo Público Mineiro. Consta ainda que Soucasaux foi responsável pelas primeiras filmagens no Estado.

Em fevereiro de 1904, o fotógrafo promoveu uma exposição de fotografias em seu teatro, que depois participaram de uma exposição nos Estados Unidos, onde conquistaram duas medalhas de ouro e uma de bronze. Neste mesmo ano, Soucasaux morreu aos 48 anos, em Barcelos, Portugal, na mesma localidade em que nasceu.

Luzes, indústria e muita diversão

O quinto lote de cartões postais distribuídos hoje pela Tribuna destaca um marco histórico do pioneirismo de Juiz de Fora: a primeira usina hidrelétrica da América do Sul, inaugurada em 1889 por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. O dinâmico empreendedor percebeu o potencial motriz da Cachoeira de Marmelos, na antiga estrada para Matias Barbosa. Adquiriu então um amplo terreno em torno da queda d'água e iniciou os contatos políticos para obter a concessão do serviço, que acionaria não apenas as máquinas de sua indústria têxtil, como também substituiria os ultrapassados lampiões de querosene que mal iluminavam as ruas da cidade.

Em janeiro de 1888, foi fundada a Companhia Mineira de Eletricidade, tendo como principais acionistas Bernardo Mascarenhas e seus irmãos. A construção da usina teve início em março daquele ano, com direito a festa e salva de dez tiros de dinamite. A novidade tecnológica amedrontou muita gente, que temia morrer fulminada por choques elétricos e acreditava que a corrente poderia interferir nos fios telefônicos. Bernardo Mascarenhas teve que recorrer a todo seu prestígio para tranqüilizar a população de que tais riscos não existiam. Por fim, a iluminação elétrica foi inaugurada com muita festa nas ruas, enfeitadas especialmente para o grande evento, com participação de bandas e baile.

Além de registrar a sede da Companhia Mineira de Eletricidade e a própria usina em Marmelos, Francisco Soucasaux fotografou três estabelecimentos industriais de destaque no início do século. Um deles é uma fundição de ferro cujo prédio ocupava um terreno de quase oito mil metros quadrados entre as avenidas Getúlio Vargas e Rio Branco, no local onde mais tarde funcionou a Mecânica Mineira, fabricante de implementos agrícolas. Na mesma área, foi construída posteriormente e funcionou por muito tempo a rodoviária de Juiz de Fora. Atualmente, o local é ocupado pela Central de Atendimento da Prefeitura e pelo Edifício Adhemar Rezende de Andrade.

Fábrica de tecidos

Outro estabelecimento industrial fotografado por Soucasaux é a Fábrica de Tecidos e Aniagens Ornstein & C., uma fábrica de sacaria para café que ficava na Rua Roberto de Barros, onde também funcionou a Companhia de Fiação e Tecelagem Moraes Sarmento. Finalmente, Soucasaux registrou a Cervejaria José Weiss, talvez a mais famosa das muitas fábricas artesanais de cerveja montadas na cidade por imigrantes alemães no final do século XIX. Weiss importava os ingredientes de sua cerveja (malte, cânhamo e lúpulo) da Alemanha. Funcionando em local amplo e arborizado, numa antiga chácara, a cervejaria transformou-se em ponto de reunião e diversão da sociedade, pois ali faziam-se piqueniques, andava-se de patins e até dançava-se ao som de orquestra. Havia uma roda-gigante, como se vê na foto de Soucasaux, e durante algum tempo também funcionou no local um hipódromo, onde se apostava em corridas de cavalos. A cervejaria, que ficava na Rua Bernardo Mascarenhas, deu origem ao nome do atual bairro Fábrica.


Passado decorando o presente
30/06/01

A Tribuna encerra hoje a reedição da série de cartões postais "Lembranças de Juiz de Fora", que durante seis semanas encantou os leitores com imagens da cidade, realizadas no início do século pelo fotógrafo Francisco Soucasaux. Com a coleção completa, é possível aproveitar os cartões na decoração de casa, dando um ar nostálgico e ao mesmo tempo atual ao ambiente. Segundo o arquiteto Ricardo Santhiago, a mescla de peças de época com elementos contemporâneos está em alta no momento, e o resultado pode ser muito harmônico.

Santhiago foi um dos profissionais convidados pela Tribuna para criar objetos de decoração com os postais de Soucasaux. Arquiteto cujo trabalho é voltado para a reciclagem de material de demolição (como esquadrias e portas antigas), ele idealizou quadros em que as molduras integram e remetem a elementos construtivos da época das fotografias. A arquitetura do início do século passado, de características neoclássicas, empregava detalhes ornamentais como frontões, cimalhas e capitéis, preocupação estética abandonada pela arquitetura da industrialização. "Hoje não conseguimos mais oficiais capazes de fazer esse trabalho", ressalta.

Em referência a estes elementos estéticos, Santhiago aplicou no enquadramento básico molduras no estilo Luís XV e detalhes que simulam bases e frontões (ver foto). A montagem foi feita numa casa de moldura, sob orientação do arquiteto. O fundo de eucatex foi pintado em pérola para destacar o branco dos postais, enquanto o enquadramento recebeu uma pátina no tom sépia das fotografias, com o objetivo de adquirir característica de envelhecimento. Para proteger os postais, vidro anti-reflexo. O custo para um quadro com três postais fica em torno de R$ 20, e o de cinco, R$ 28.

Para Ricardo Santhiago, a reedição dos postais de Soucasaux é uma importante iniciativa de resgate de valores perdidos pelos grandes centros. "Hoje, a rua é o espaço onde as pessoas só estão de passagem. O urbanismo contemporâneo tenta revitalizar o centro e os edifícios antigos, dando a eles novas atividades", constata o arquiteto.

Aconchego

Outra forma de se aproveitar os postais da Juiz de Fora antiga é sugerida pela consultora de decoração Dionízia Savino, que idealizou um biombo - peça que é uma tendência atual na decoração e não precisa ser usada apenas como divisória, podendo ser colocada nos cantos dos cômodos que formam quinas. "O biombo cria uma atmosfera romântica e confere aconchego ao ambiente", ressalta Dionízia.

O biombo que a decoradora está fazendo tem duas folhas de madeira (qualquer compensado serve), envelhecidas em castanho. Para prender os postais, cantoneiras de álbum de fotografias. Os cartões também são envelhecidos com goma laca indiana, com uma camada suave aplicada com pincel (trincha seda). Incluindo o trabalho do marceneiro, o preço fica em no máximo R$ 150. Se preferir, pode-se fazer o biombo com folhas de ferro galvanizado e base de ferro batido. Neste caso, os postais podem ser presos com imãs. O produto sai em torno de R$ 80.

Já a decoradora e artista plástica Mônica Netto Mosqueira idealizou uma mesinha baixa com pé de ferro, que deve ser encomendado a uma metalurgia. Também devem ser adquiridos dois tampos de vidro, entre os quais serão colocados os cartões postais, distribuídos como um mosaico. Em seguida, os vidros já montados podem ser fixados no pé. A artesã Marlene ensina a fazer uma caixinha de postais, cujo custo não chega a R$ 2.

O parque no coração da cidade

O último lote de cartões postais distribuídos pela Tribuna, com imagens gentilmente cedidas pelo Museu Mariano Procópio, destaca um dos cenários mais populares e fotografados de Juiz de Fora, o Parque Halfeld. Em 1903, Francisco Soucasaux registrou duas imagens daquele que é considerado o primeiro logradouro público da cidade, construído em terreno adquirido pela Câmara Municipal em 1854 e ajardinado em estilo inglês na década de 1880.

Anos depois, em 1901, o largo foi novamente remodelado por Francisco Mariano Halfeld, que bancou todas as despesas das obras realizadas pela Companhia Pantaleone Arcuri. Em homenagem a ele, o parque, que ganhou canteiros, lagos, pontes e casas rústicas, passou a ser chamado Jardim Francisco Halfeld. Reformas realizadas nas décadas de 50, 60 e 80 mudaram muito a paisagem do jardim, tão querido dos poetas locais, mas em 1989 o Parque Halfeld foi tombado como bem do patrimônio municipal.

Os outros dois postais de Soucasaux apresentam um novo ângulo do Palácio Barbosa Lima, a sede da Câmara Municipal, e um panorama da cidade com a matriz (a Catedral Metropolitana), antes da reforma.