Entre o sacro e o profano, o acervo do Museu Mariano Procópio revela uma época (séculos XVIII e XIX) de mudanças tão complexas quanto os próprios estilos que caracterizam as peças. Assim, com a queda do Imperador Napoleão Bonaparte, em 1815, a aristocracia conservadora da Europa promoveu o fim de tudo o que lembrasse a era napoleônica. Nascia um novo estilo, a ”restauração“. Apesar de ainda manter influências do gosto imperial, os novos tempos trouxeram grandes mudanças, atingindo a moda, a decoração e o comportamento das pessoas. A porcelana e o bronze começaram a fazer parte dos ornamentos das casas, reforçados pelos móveis revestidos de formas góticas, como se usava nos castelos feudais da Idade Média.
A ”restauração“ durou até 1835, quando o rococó, um estilo do século XVIII, voltou à moda, com seus detalhes e enfeites caprichosos. As casas passaram a ornamentar suas janelas com vistosas cortinas, recheadas de franjas e cordões, enquanto os móveis eram talhados em formas retorcidas, enfeitados com placas de porcelanas. E tapetes, muitos tapetes. Só que, entre um estilo e outro, nem sempre era possível a mudança dos móveis e das peças decorativas. E essa situação acabou gerando uma confusão de características diferentes, onde praticamente tudo era válido.
As grandes mansões desta época, os castelos e as ”villas“ no Brasil, não fugiam a esse tipo de influência. Afinal, a nova sociedade agrária - que sucedeu o processo de economia gerado pela exploração mineral do ouro - começava a ter condições de adquirir bens em profusão, e foi buscar inspiração nos modelos de vida europeus. Assim, em Juiz de Fora, uma cidade com as mesmas características de outros centros produtores - principalmente de café - uma família burguesa adotava também esses mesmos preceitos, formalizando, através de suas riquezas, uma visão européia em plena Minas Gerais. Mariano Procópio Ferreira Lage, o patriarca da família, construía uma estrada de rodagem, a União Indústria, enquanto erguia uma ”Villa“ com características renascentistas em suas terras, simplesmente para hospedar, ali, Dom Pedro II e sua família imperial. Em 1861.
Essa ”Villa“ teve em sua decoração praticamente todo esse processo de transformações. Salas decoradas no estilo antigo, do século XV, dormitórios renascentistas, móveis sóbrios, mas ao mesmo tempo com detalhes rococós, como as poltronas forradas de veludo, mesas de centro com pés recurvados, espelhos e candelabros com velas de cera e relógios de paredes ou de móveis recheados de detalhes. Nas paredes, forro de papel, normalmente em tons escuros, com cortinas também em cores pesadas. E muitos quadros, mostrando principalmente retratos (pinturas de pessoas da família), naturezas mortas ou cenas mitológicas. Nos detalhes decorativos não faltavam, é claro, as coloridas e brilhantes porcelanas, os transparentes cristais e as alvas louças.
Mas nesse universo decorativo não faltavam também as peças sacras, relatos de uma época, anterior ao século XIX, onde a fé era exaltada e concretizada em uma arte ostensiva e de apologia. Ouro, prata, pedras preciosas, marfim, madeira nobre, mármore, tudo servia para transformar-se em peças sacras, que muito mais do que decorar, tinham o solene objetivo de marcar as convicções religiosas dos senhores. Enquanto para os aristocratas, possuir oratórios recheados de imagens sacras, cenas bíblicas e figuras angelicais, era uma forma de demonstração de humildade e de aceitação dos padrões determinados pelo poder clerical, para a massa de trabalhadores, que frequentava as igrejas e capelas revestidas de ouro, era uma espécie de ilusão da igualdade social proposta nos evangelhos. É como se aquela riqueza estivesse ao alcance de todos.
A mudança de comportamento que surgiu com a chegada do século XIX, no entanto, reformulou, em parte, esse sentimento de dedicação exclusiva à fé. É que a Igreja começou a perder influência diante de uma nova força que surgia, o capitalismo industrial. Havia então uma nova realidade a manipular os interesses de governantes, como força orientadora da nova sociedade. As idéias liberais da Europa não tardaram a chegar ao Brasil, exatamente em um momento em que o ouro se esgotava nas Minas Gerais, a produção de café estava no auge e a indústria começava a assumir sua importância econômica.
Só que os santuários erguidos nas salas, nos quartos e nas capelas das fazendas dos grandes senhores, ainda estavam lá, como símbolos de uma força e de uma presença tão marcantes, que não poderiam ser descartados de uma hora para outra. Mantidos nas casas como partes do mobiliário, acabaram se tornando peças de decoração, retratando, no entanto, a opulência dos aristocratas e de seus antepassados, como uma espécie de memorial do fausto religioso que marcou nos séculos a presença da Igreja em terras brasileiras. O Museu Mariano Procópio possui diversas peças sacras ornamentando algumas salas, não só do Anexo como também da ”Villa“, a residência oficial de seu fundador, Alfredo Ferreira Lage. Como um colecionador preocupado com uma visão enciclopédica, isto é, uma visão geral da História do homem, Alfredo Lage não poderia deixar de possuir também essas peças sacras. Afinal, elas representam uma época importante, quando a ”religião era a sustentação ideológica do estado“. E isto é História.