
Visão Geral
O sangue se espalha pelas roupas brancas e azuis, escorre pela madeira e mistura-se às algemas, enquanto a cabeça e as pernas, dilaceradas do tronco, expõe a carnificina dos algozes. No alto, um Cristo crucificado também retrata seu próprio flagelo, numa contemplação muda da inevitável comparação entre o martírio divino e a retalhação do herói. Ao longe, das janelas e das ruas, personagens de rostos indefinidos olham o cadafalso, onde o sonho da liberdade é exposto, na exumação do gesto patriótico, que se esvai lentamente, como o sangue que coagula a imensa tela do artista plástico Pedro Américo (1843-1905), retratando a violência do esquartejamento de Tiradentes.
Exemplo típico dos sentimentos pictóricos gerados pelo romantismo, esse óleo sobre tela, pintado em 1893, está hoje exposto em uma das salas do Museu Mariano Procópio. Antes, servira como ”decoração“ na sala de reuniões da Câmara Municipal, onde, no princípio do século, vetustos e alinhados senhores da sociedade de Juiz de Fora decidiam os destinos da cidade. ”Tiradentes Esquartejado“, o quadro de Pedro Américo, muito mais do que uma cena dantesca, exibe principalmente a tendência de ruptura com o neoclassicismo, e a incorporação das renovações artísticas introduzidas pelos impressionistas, realistas e naturalistas. O neoclassicismo estava com seus dias contados. Iniciado na segunda metade do século XVIII, o movimento repudiara o barroco, tentando impor os padrões artísticos da antiguidade clássica. Acabou gerando o academicismo e provocou a reação através do romantismo. Pedro Américo era um pouco de tudo isso, e sua obra praticamente evoca o chavão da nova ordem pictórica: ”mais sentimento, menos razão“.
A linguagem emotiva gerada pelo romantismo tinha como base a importância da cor e a liberdade de criação do artista. Até mesmo como uma forma de reação ao neoclassicismo e ao academicismo. Nascido na Alemanha, Inglaterra e França, acabou chegando à América, trazendo como características principais o subjetivismo e o individualismo. Assim, a paisagem passa a ser tema principal, através de cenas bucólicas, que deixam entrever a face do sol, da iluminação como ela é, exprimindo a partir daí a natureza, as florestas e os campos. O artista deixava os estúdios - onde se fazia tudo segundo a intenção e a memória do pintor - e ia onde a imagem estava. Essa fase de transição, portanto, teve como características algumas pequenas mudanças de técnicas, permitindo a busca de uma nova expressão, sem, no entanto, fazer uma ruptura com o desenho clássico. Assim era a pintura do século XIX no País.
A cada ação corresponde uma reação, e a máxima da física aplica-se também às artes plásticas. O século XIX ainda nem chegara à metade, quando na França surgia outro movimento artístico: o realismo. Exatamente como forma de confronto ao romantismo, o realismo teve o objetivo de impor uma visão concreta, como valorização das possibilidades da arte. Os temas sociais passaram a ter predominância, seguindo o mandamento de Gustave Coubert (1819-1877), pintor considerado o maior representante da escola realista na França. Dizia ele: ”A pintura é uma arte essencialmente objetiva e consiste na representação das coisas reais e existentes“.
E foi esse mandamento que acabou inspirando os impressionistas. O impressionismo começou em Paris, em 1870. Ainda como reação ao academicismo, incorporou um sua forma a pintura ao ar livre, descobrindo a natureza e sua interferência nas luzes, cores e sombras. Nessas mudanças, o pincel é abandonado, e os impressionistas, usando agora a paleta (ou palheta), desfazem as linhas perfeitas, e rompem com o desenho. As luzes vão se transformando. Os reflexos do sol impregnam a paisagem e a tela passa a mostrar a natureza como ela é, como uma musa que deixa entrever, sob a luz, o perfil perfeito da mão mística da criação.

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