
A família Ferreira Lage
Quando o francês Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851), um dos inventores da fotografia, registrava em placas de prata as imagens e os personagens de sua época, acabou chamando a atenção de um jovem estudante brasileiro, Mariano Procópio Ferreira Lage. Era o ano de 1840, e Mariano Procópio, nascido em 1821, na Chácara do Matinho, em Barbacena, Minas Gerais, passava seus dias na Europa, em viagem de estudos. Ao voltar ao Brasil, recheado de conhecimentos de línguas, arte fotográfica, física e ciências exatas, o jovem Mariano ainda estava insatisfeito.
É que, enquanto isso, os Estados Unidos se desenvolviam tecnologicamente, e tinham muitas coisas para mostrar e ensinar. E foi na América do Norte que ele acabou conhecendo uma nova descoberta: o macame, um processo inédito de pavimentação de estradas, à base de mistura de cascalho e piche. Foi assim que começou a nascer a Estrada de Rodagem União e Indústria, ligando Juiz de Fora a Petrópolis, com seus 144 quilômetros (ou 24 léguas, como se media na época), por onde transitavam charretes, carroças e carruagens, que gastavam em média 12 horas para completar o percurso.
Por essa estrada começava a escoar, também, a produção agrária da Zona da Mata mineira, principalmente o café, e os primeiros transportes coletivos, as diligências, que levavam até 14 passageiros, além do cocheiro, do condutor e de um ajudante, que tocava um trompete, ”como aviso aos que viajavam em sentido contrário“. As diligências eram puxadas por quatro mulas, que eram trocadas nas chamadas ”estações de mudas“, ao longo do caminho, em um revezamento que se repetia 12 vezes durante a viagem. A construção da estrada teve início em 1856 e sua mão-de-obra foi quase toda formada por imigrantes alemães e alguns franceses. Os trabalhadores brasileiros da época eram praticamente quase todos escravos, e o regulamento da Companhia União e Indústria proibia o uso de mão-de-obra escrava, em conseqüência do contrato aprovado pelo governo, que impedia ”expressamente o emprego de escravos“. O historiador Luiz José Stehling contesta essa informação, baseando-se em relatórios enviados pelo próprio Mariano Procópio aos governos Imperial e Provincial. E é em cima desses relatórios que Stehling escreve em seu livro ”Juiz de Fora, a Companhia União e Indústria e os Alemães“: ”Na construção da estrada, nos dois setores em que ela foi dividida, trabalharam cerca de dois mil escravos“.
O primeiro grupo de imigrantes chegou em 1856. Era formado por 150 pessoas, entre engenheiros, técnicos e operários especializados. Dois anos depois, sempre partindo da Alemanha, em cinco viagens, chegaram outras 1.163 pessoas, que, em Juiz de Fora, foram morar na Colônia de Dom Pedro II, hoje Bairro São Pedro. Em 23 de junho de 1861, com a presença da família imperial, era inaugurada a Estrada União e Indústria. Filho do capitão Mariano José Ferreira e de dona Maria José SantAna, depois Baronesa de SantAna, Mariano Procópio não se dedicou apenas aos estudos, à fotografia e à construção da estrada.
Ele também foi comerciante e produtor agrícola, tendo fundado a Escola Agrícola União e Indústria e sido proprietário de uma fazenda em Goianá, perto de Rio Novo, onde criou cavalos de raça. Foi, também, diretor da estrada de Ferro Dom Pedro II e das Docas da Alfândega, além de presidente do Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro, onde morou alguns anos. Mariano Procópio foi também deputado-geral pelo Partido Conservador e autor de livros técnicos. Casou-se em 1851, com Maria Amália Coelho de Castro. Tiveram quatro filhos: Mariano, Elisa (que morreram ainda crianças), Frederico e Alfredo.
Com a morte de Mariano Procópio, em 14 de fevereiro de 1872, Frederico assumiu a direção da fazenda de Goianá, onde introduziu diversos tipos de conhecimentos adquiridos durante suas viagens à Europa, principalmente na criação de gado e suínos. Sua fazenda serviu também de núcleo de imigração, para onde foram muitos italianos. Com o irmão, Alfredo, fundou o Teatro Novelli, onde antes funcionara o também Teatro Perseverança, na rua Espírito Santo, que pertencera à Santa Casa de Misericórdia. No acervo fotográfico do Museu Mariano Procópio, composto de 18 mil imagens, algumas das fotos foram feitas por Frederico, que chegou inclusive a ganhar medalhas de prata por seus trabalhos, em uma exposição no Rio de Janeiro, em 1908, sete anos depois de sua morte.
Herdeiro também da chácara onde morava seu pai, ao lado do parque do Museu, Frederico construiu ali um belo palacete, em estilo de época e arquitetura francesa. Praticamente todo o material utilizado na obra veio da Europa. No prédio, hoje, funciona a sede da Quarta Região Militar. No palacete moraram Frederico, sua mulher, Alice Ferreira Lage, e os três filhos, Frederico Luiz, Gabriel e Roberto. Alice teve sua formação cultural na Europa, onde estudou piano, canto e línguas. Era uma mulher belíssima para os padrões da época, e por isso mesmo, ainda estudante, em Paris, foi convidada para ser modelo de uma imagem do Arcanjo São Miguel.
A escultura com seu rosto está hoje na Igreja de Auteuil, em Paris. A vida do casal Frederico e Alice, e dos filhos, em Juiz de Fora, sofreria um grande impacto, quando Frederico, aos 39 anos, morreu de apendicite. As dívidas provocadas pelas obras na fazenda e na residência, além de outras empresas, fez com que o palacete fosse vendido para a Estrada de Ferro Central do Brasil, antes de ser transferido para o Ministério da Guerra, para se tornar a sede da Quarta Região Militar. Frederico morreu em 1901, e Alice em 1914. Ambos estão sepultados no Cemitério da Glória, em Juiz de Fora.

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